quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Deus está tomando conta de mim

Ontem, em plena quarta-feira de cinzas, ao abrir os olhos, decidi que aquele seria um dia de faxina. Olhei a bagunça na qual o meu quarto se encontrava e já comecei o dia cheia de angústia e ansiedade. Eu precisava de um novo armário! Seria impossível arrumar tudo aquilo sem espaço para organizar. Decidi começar, organizar o que fosse possível e assim saber o espaço exato do armário necessário. Até o final da semana eu o iria providenciar. Enquanto arrumava (lê-se: tirava tudo dos armários e colocava no chão e na cama), eu me perguntava como aquele caos havia se formado.

Então dei-me conta que a culpa não havia sido minha, não apenas. Da última vez em que fiz uma faxina daquele jeito, tudo havia ficado no seu devido lugar e havia espaço para cada coisa. É verdade que haviam chegado alguns livros, mas aquela estrela brilhante não era minha, nem aquele outro brinquedo que parecia ser de Chiara. Percebi que o quarto estava cheio de coisas que não me pertenciam e, por isso, não havia espaço para as minhas coisas. Isso precisava acabar. Precisava conversar com a faxineira e avisar a ela que o quarto é meu e ali só deveriam ficar as minhas coisas.

Em meio a tudo aquilo, a ideia de comprar um armário ainda me angustiava. Acabei de comprar óculos, não posso sair comprando armários por aí. Que ideia foi essa? Eu precisava organizar tudo com o espaço que tinha. E então, de repente (ok! Não tão de repente assim, foram 12 horas de faxina árdua, de muita música, muito desapego, muita limpeza, muito tropeço pelas coisas), eu tinha um quarto e um banheiro arrumados, duas prateleiras sobrando no armário, uma gaveta vazia e nada, absolutamente nada fora do lugar.

Ao olhar para o quarto arrumado, lembrei-me da semana passada. Após um final de semana angustiante e aterrorizante (dentro de mim), lá estava eu novamente a espera de mais uma LCR (exame de retirada do liquor). A LCR não me apavora, e aquela seria a minha décima terceira. Entretanto, seria a primeira após a retirada de um dos remédios, exatamente aquele que abaixa a pressão. Algo dentro de mim sabia que a pressão estaria alterada. Pressão alterada significa volta de remédio que significa perda de sentido que significa perca de consciência que significa perder-me de mim mais um vez. Entrei em pânico!

Então o médico falou, “24”, e eu perdi o meu chão, sem nem mesmo estar em pé. Aquele resultado traria todo o 2017 para o meu 2018. E eu pensava que 2018 seria diferente! Saí dali querendo chorar loucamente e desaparecer, mas antes, tentei marcar uma consulta com o neuro e, com o meu pânico evidente, consegui para aquela mesma tarde. Diferente de todo o diagnóstico e das prescrições que eu fiz no caminho, o neuro tentou meu acalmar (como sempre!), disse que não havia necessidade de voltarmos com o remédio (aquele) e só iríamos aumentar uma dose aqui e adiar um pouco a ideia de desmame.

Continuei desejando sumir (e chorar!). E ao chegar em casa, resolvi questionar àquele a quem poderia responder todas as minhas dúvidas, “por que de novo?”, “se não tinha acabado, por que a ilusão de que tudo estava bem?”, “por que tanta dor?”. Ao procurar resposta, peguei a Bíblia, pensei em ler o livro de Jó, mas logo pensei, “todos leem Jó em momentos de dor, e a Bíblia é enorme, há de ter outro lugar para eu ler e me acalmar”, e eis que abro a minha Bíblia em... Jó! Resolvi ler sobre o livro e encontrei esta maravilhosa descrição do John MacArthur:

Na realidade, quando finalmente confrontado pelo Senhor do universo, Jó colocou a mão sobre a boca e nada disse. A silenciosa resposta de Jó de maneira alguma banaliza toda a intensa dor e perda que sofreu. Ela simplesmente destacou a importância de confiar nos propósitos de Deus em meio aos sofrimentos porque o sofrimento, como todas as outras experiências humanas, é dirigido pela perfeita sabedoria divina. Ao final, a lição que permanece é que ninguém jamais sabe o verdadeiro motivo de seu sofrimento; porém, é necessário confiar no Deus soberano. Essa é a verdadeira resposta ao sofrimento.”

Naquele momento eu percebi que Deus não me deve nenhuma explicação, por isso, não havia motivos para continuar com aqueles questionamentos bobos. E entre todos os motivos óbvios, o pastor John MacArthur deu-me mais um bom motivo para nunca mais questionar qualquer acontecimento da vida quando disse que, “há vezes em que a razão para o sofrimento dos santos é desconhecida porque ela tem propósitos celestiais que os que estão na terra não conseguem discernir.”

Tudo aquilo parecia me ter acalmado, mas ao pensar em minha vida, cai aos prantos e ao ser questionada, respondi que não aguentaria mais um ano perdido, sem trabalhar para Deus, sem fazer o trabalho que gosto, justo agora que estava voltando, sem aproveitar oportunidades que poderiam surgir, simplesmente por estar doente novamente. A resposta que ouvi me fez chorar ainda mais (dessa vez, como um tapa na cara). A pessoa ao meu lado disse que não vê 2017 como um ano perdido, não para mim, pois nunca me viu tão transformada. Nunca me viu tão perto de Deus. E aquilo não saiu da minha cabeça.

E, ao terminar a faxina e olhar o quarto arrumado,  me dei conta de duas coisas. A primeira é que precisamos parar de tentar tirar o lugar de Deus nas nossas vidas e deixar que Ele organize tudo, porque só Ele sabe o exato lugar de cada coisa. Ele é o único que vai deixar prateleiras vazias e espaços sobrando para coisas que estão por vir. E não adianta eu ou você tentarmos arrumar uma prateleira aqui ou ali, ou o caos acabará se formando.

Percebi também que 2017 foi um ano de faxina em minha vida. Não pude trabalhar para Deus e nem fazer tantas outras coisas porque Deus estava trabalhando na minha vida. Porque, algumas vezes precisamos passar pelo caos, para só então perceber a urgência da organização. E talvez a faxina pode não ter acabado, talvez o Senhor ainda tenha mais coisas para fazer por aqui. Talvez eu não mais o perceba, mais ainda há parte do caos por aqui. Talvez estejam acontecendo coisas no céu das quais eu jamais saberei, mas eu preciso sempre lembrar que não importa o que aconteça, Deus está tomando conta de mim.


Kari Mendonça 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ela voltou... Ela sempre volta...

Dez anos haviam se passado, e eu adoraria dizer que nunca mais nos vimos. Mas ela nunca disse um adeus e sempre voltou para me visitar. Nos dias mais sombrios, lá estava ela, agindo como minha melhor amiga. Segurando minhas mãos e abraçando-me forte, como muitas vezes, era tudo o que eu precisava. Mas tivemos um período distante. Quando mais precisei (e acredite, eu a quis por perto), ela não deu as caras.

Então novamente, no carro, a caminho de casa, ouvindo uma música alta para tentar esquecer um pouco de tudo, ela apareceu no banco do carona. Quase não a reconheci. O tempo havia sido cruel com ela (como deve ter sido comigo, pensei). Decidi não conversar, a olhei, nos olhamos, e continuei a dirigir tentando ignorar a sua presença. Mas ela sabe que não precisa falar nada, ora essa! 

E não precisou mesmo! Logo eu já estava soluçando sem nem saber o motivo. Senti sua mão em meus braços e, por um instante desejei jogá-los longe, mas era tudo que eu tinha naquele momento. Eu sabia que ela era a causa da minha dor, mas também sabia que era a minha única companhia. Sabia que era a única que ficaria por perto por algum tempo. Sabia que era a única a quem eu passaria a recorrer dali em diante. 

E mesmo sabendo que ela não gostava de conversar, não consegui não perguntar por que ela estava ali daquela vez, logo quando tudo parecia tão bem. Foi quando percebi no seu olhar um pequeno sorriso, e senti-me constrangida. Se tudo não estava bem, por que você não veio antes, perguntei? Ela disfarçou olhando pela janela. 

E então, quando já estava chegando em casa, ela se aproximou, me beijou a testa e falou suavemente, “a gente se vê”. Naquele momento eu percebi que, algumas vezes, a solidão não precisa vir e passar o dia inteiro. Ela vem, machuca o suficiente, e vai embora.

Kari Mendonça

Se você quer saber a primeira vez que "ela" passou por aqui, descubra aqui.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Diálogo antes de dormir

E quando a deitei na cama, ela me perguntou, “mãe, e como você conheceu o papai?”. “Exatamente como pedi a Papai do Céu, dentro da igreja”, respondi sorrindo. E ela continuo, “então ele era exatamente como você pediu?”, e abriu os olhos ansiosa pela resposta. Abri um grande sorriso e disse, “ele era exatamente o contrário”. Com ar de decepção, ela questionou, “e você não ficou chateada com Papai do Céu?”. Abri um sorriso ainda mais largo (se é que era possível) e disse, “não, porque ele tinha o sorriso mais bonito de todos”. Ela sorriu também e me abraçou, “é, também gosto do sorriso dele”. 

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A gente não se acostuma

No segundo período da faculdade, conheci a Marina Colasanti e seu famoso texto "eu sei, mas não devia". Nunca o esqueci e sempre que penso na rotina, lembro-me que " a gente se acostuma...", "mas não devia". A rotina faz parte da vida e a gente vai seguindo e passando e não tem como não ir, mesmo que a vida deixe um pouco de fazer sentido. É como dizem hoje em dia, "segue o baile", mesmo sem saber dançar, mesmo sem sequer, ouvir a música, deixa a multidão te levar. 

Mas tem um assunto que me incomoda e com o qual não acostumo, e é a morte. Porque a gente nunca se acostuma com a morte, com a saudade de quem foi e não volta. Com a ausência de quem não pode se fazer presente e nunca mais poderá. A gente aceita, aprende a viver, para de chorar todos os dias e passa a chorar apenas nas datas mais especiais (ou naqueles dias difíceis antes de dormir). Mas com a ausência, a gente não se acostuma. 

A gente não se acostuma com o silêncio que ficou pela casa e com o armário vazio. Não se acostuma com os horários vagos na agenda ou com o tempo "livre" que agora temos. A gente não se acostuma a acordar sozinho na cama e não sentir aquela respiração ao nosso lado, nem a ter que levantar em silêncio. Não se acostuma a ouvir aquela música, olhar para os lados e não poder dizer, "lembra daquele dia?". 

A gente não se acostuma a ter que explicar aos filhos que o papai não vai voltar para casa porque foi morar com Papai do Céu, nem se acostuma a preparar a comida para apenas um. A gente não se acostuma a ouvir o filho chorar e fingir ser forte para consolá-lo, quando tudo que queremos é desabar com ele. E nem acostuma a sair de casa fingindo estar bem, quando todos esperam que estejamos, finalmente, bem.

A gente não se acostuma a acordar no dia seguinte a uma tragédia (seja grande ou pequena), para nos despedirmos de quem amamos. Nem se acostuma àquele ritual de despedida. A gente não se acostuma, nem vai se acostumar, mas a vida vai seguindo, o baile precisa continuar... 


Kari Mendonça 

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Bem-me-quer, malmequer...

Janeiro é o mês do meu aniversário e, geralmente, eu fico pra baixo. Quando o dia vai se aproximando, eu vou ficando pior. Nunca soube explicar o motivo, mas desde que me lembro é assim. Mas parece que 2017 realmente me ensinou a ver a vida diferente e eu quero mais é comemorar os meus 29 anos. É isso aí! 

Os trinta estão chegando e eu nem vi a crise dos 30 passar... Mas também... Já valeu as dos 22, dos 24, 25... e por aí vai... Chega de crise, meu bem! Agora é pegar a malinha cheia das coisas que Papai do Céu me ensinou, juntar todos os curativos e olhar pra frente. Já ouvi falar que os trinta é uma das melhores fases da vida, portanto, tenho um ano inteiro pra me preparar!

E por falar nas coisas que Papai do Céu me ensinou, esses 29 anos não teriam tanto significado se não fossem os "malmequeres" da vida. Porque quando a gente quer muito alguma coisa, a gente ora e pede para Deus abençoar e nos dar. E a gente ora todos os dias. E à noite! E às vezes a gente ora até cansar e não entende porque não recebe. Mas é que, às vezes, não é pra gente ter aquilo que queremos. E Papai do Céu sabe o que é melhor para nós. Então Ele não nos dá aquilo que pedimos. Ou, outras vezes, Ele simplesmente, nos tira. 

E a gente fica feito criança, sem entender, brincando com uma margarida de "bem-me-quer, malmequer", e quando o resultado sai "malmequer", a gente corre pra pegar outra e ver se o resultado vai ser diferente, mas nem sempre o é... Porque algumas vezes, o resultado precisa mesmo ser "malmequer", pra vida poder seguir um caminho diferente, quem sabe até pra te levar mais pra perto de Deus.

Poucos sabem, mas a minha tatuagem representa um "malmequer", e aos poucos que eu falei, sempre ouvi um, "mas ali cabe mais uma pétala para o resultado ser bem-me-quer". Acontece que eu não quero um resultado diferente, eu quero, na pele, lembrar sempre que a vontade de Deus é melhor do que a minha. Isso me ajudou muito enquanto orei por cura no ano passado. Ele não me curou, mas estou melhor. Sei que Ele tem um plano. Sei que Ele está fazendo o Seu melhor na minha vida, por isso não quero esquecer que, alguma vezes, preciso ouvir um "malmequer" para me colocar no meu lugar, para me fazer seguir orando e confiando. 

Isso me deixa mais forte. Acredito que, por isso, esse janeiro esteja sendo diferente... 



Kari Mendonça