quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Os cantinhos da casa

“Dias após a desgraça do Areia Branca, quando o edifício virou escombros,
um dos desolados ex-moradores deu entrevista lamentando, acima de tudo, ter
perdido os cantinhos da casa. Mais do que o risco de morte que tinha corrido,
mais do que a perda de um patrimônio, mais do que a situação de sem-teto na qual
se encontrava agora, o desafortunado lamentava ter perdido para sempre os
cantinhos da casa. Ainda que feito sem maiores detalhes, o depoimento me tocou
profundamente. Pois fiquei imaginando a importância emocional que tais cantinhos
deviam representar na vida daquele senhor e os motivos que o levaram a fazer, de
pronto, esta declaração. Por que numa hora de tanta infelicidade alguém pode
externar como dano maior algo que pertence exclusivamente à sua intimidade? Ou
seja, declarar como prejuízo irreparável o valor sentimental de determinados
retalhos de ambientes?

Refletindo, no momento, sobre a imprevisível espontaneidade da declaração daquele senhor, acabei traçando um paralelo com os cantinhos da nossa mente. Sim, porque se trata, igualmente, de refúgios para os quais nós todos recorremos nas horas de aflição.

Eu tenho a convicção que todos nós cumprimos o caminho de nossas vidas
percorrendo infinitas etapas que ficam bem ou mal registradas na fluidez da
nossa memória, mas reservamos uns cantinhos especiais para certos momentos. Que momentos são esses? Acho impossível classificá-los por gênero. Acho que só podem
ser classificados por graus. Graus de intensidade emocional. Acho que é para
eles que nós reservamos esses espaços especiais. Para que fiquem indeléveis.
Serão então os mais relevantes registrados até uma altura qualquer de nossas
vidas? Serão, se por isso entendermos, os que fizeram vibrar com maior
intensidade as cordas da nossa sensibilidade. Pois esses momentos felizes ficam
guardadinhos na mente e é à lembrança deles que nós apelamos – consciente ou
inconscientemente – na busca de uma compensação, um refúgio, uma consolação da
qual precisamos para enfrentar alguma situação adversa que venhamos a
atravessar.

Pois é. Parece que acabo de descobrir que os cantinhos privilegiados da
memória são muito parecidos com os cantinhos ambientais da intimidade da gente.
Eles guardam a lembrança de momentos entre os mais emocionantes e
significativos, produzidos pela evolução do intelecto, do relacionamento e da
sensibilidade das pessoas. Aquele primeiro e tão suspirado encontro amoroso...,
a leitura daquele livro tantas vezes adiada e finalmente realizada com
satisfação plena..., aquele singelo, mas para a gente importante negócio
fechado, em certos momentos, com um simples aperto de mão..., assim como tantos
outros pequenos e grandes prazeres e algumas realizações que pontuam a nossa
existência acontecem nos mais diversos lugares, neles incluídos os tais
cantinhos da casa da gente. Chegando ao ponto daquele senhor considerar o seu
sumiço como a maior perda provocada pelo desmoronamento do imóvel. Uma perda
inestimável no momento em que eles tinham virado apenas cantinhos da
memória.”


Italo Bianchi

OBS.: O Edifício Areia Branca, ficava localizado na praia de Piedade, na Região Metropolitana do Recife e desabou no dia 14 de outubro de 2004, ás 20:30. Era um prédio de 12 andares. Quatro pessoas foram mortas.

-É isso!
Kari Mendonça

4 comentários:

Antônio disse...

Enquanto houverem pessoas que valorizem as coisas simples da vida, cada cantinho que seja, eu não desacreditarei de nada, pois são essas pessoas que farão o mundo melhor.
Bom texto.

Beijos, cuide-se!

.eu sou assim. disse...

.ah, tb não seu como viveria sem meus cantinhos.
.pois os cantinhos da mente são externados em cantinhos materiais.

.

Marcus Vinícius disse...

A minha memória é feita só de cantinhos... rsrsrs

Muito bom. É bom saber que ainda existem pessoas que e preocupam mais com os sentimentos do que com o dinheiro...

Abraço!

Thayana Melo disse...

Pois e kari...
To indo viajar amanha sim, a uma hora da tarde estarei indo!!!
Ve se vc aparece por lá, se puder, é claro!!!
Marca com Pri, quem sabe...
Agente se conhece e se dispede!!!
Bjão!!!