quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Se Maria Graham voltasse

Artigo publicado dia no 30/07 pelo Jornal do Comércio, por José Mário Rodrigues.

"Quando estávamos sob domínio português, em 1821, andou pelo Recife a viajante inglesa Maria Graham. Ela se demorou um pouco mais de vinte dias. Encontrou uma cidade tumultuada por conta de revolta contra o então governador e capitão general da província de Pernambuco, Luiz do Rego Barreto, que em julho do mesmo ano havia sofrido um atentado. O povo fazia barricadas contra o governo, os tiroteios eram freqüentes e o lixo tomava conta das ruas.

Mesmo naquele cenário inseguro, Maria Graham percorreu todos os lugares. Comeu frutas que não conhecia, conversou, entrou nas casas e anotou com precisão os costumes e hábitos exóticos dos nativos em pé de guerra. Ficou horrorizada com a escravidão e a maneira degradante como os senhores e os brancos tratavam os negros que morriam doentes na imundície da senzala.

Comecei a delirar com uma hipótese absurda: se Maria Graham voltasse ao Recife, quase dois séculos depois, o que ela anotaria em seu diário de viagem? Como se trata de um delírio, é bom que se diga, sem uso de drogas, vou abolir deste texto o condicional e dar um salto de 186 anos no tempo. Fica mais fácil e compreensível relatar a volta imaginária da viajante inglesa, elogiada por Gilberto Freyre em Casa grande & senzala.

Pronto. Maria Graham chegou. Hóspede da Prefeitura do Recife, o cerimonial preparou o roteiro da sua visita à cidade. Ao descer no Aeroporto dos Guararapes, a viajante ficou impressionada com o progresso e a modernidade do Recife. Ainda no Aeroporto, lhe chamou atenção as obras de arte de João Câmara, Zé Cláudio, Gil Vicente e as esculturas de Francisco Brennand. Demonstrou interesse em conhecer os artistas da terra e levar algumas telas para a sua coleção particular.

Instalou-se na suíte presidencial do Recife Palace. À noite foi recepcionada com um jantar na casa do prefeito. No dia seguinte, em hora previamente estabelecida, o guia do cerimonial estava plantado no saguão do hotel para levar a famosa escritora a um olhar sobre cidade. Entre outros lugares turísticos foram incluídos a Oficina Brennand, o Castelo de Ricardo Brennand, a Capela Dourada, o Marco Zero, a Fundação Gilberto Freyre e uma rápida passagem pela Sé de Olinda.

Acontece que a viajante tarimbada, pesquisadora arguta, historiadora internacionalmente conhecida, deu um bolo no guia e resolveu sair sozinha para redescobrir a cidade. Esses roteiros oficiais programados eram tudo que não queria, pois escondem a realidade local e a vida como ela é. Foi aí que começou o desastre. Ela tomou o ônibus Boa Viagem/Caxangá, desceu na Avenida Guararapes, saiu andando pelo Pátio de São Pedro em direção ao Mercado São José. Nem bem chegou ao destino, foi assaltada por três meninos de rua que lhe roubaram a bolsa com passaporte e mais um punhado de libras esterlinas que esqueceu cambiar. Como meninos não conheciam a moeda inglesa, foi fácil prendê-los. A polícia conseguiu reaver os documentos, mas o dinheiro sumiu.

Maria Graham não desistiu de chegar ao mercado e encontrou por lá um escritor maldito, que ninguém quer publicar, pois o seu assunto são os excluídos, as prostitutas, os cafetões, os travestis, a extrema pobreza que “relaxa e goza”.

Desta vez, ela ficou assombrada com a violência e comentou com Liêdo Maranhão a estatística da criminalidade. Mata-se por um celular. Mata-se pelo volume do som. Mata-se para demarcar ponto de venda de droga e o não pagamento da droga. Mata-se para roubar e rouba-se para comprar armas e matar. Matam-se muitas mulheres. Matam-se jovens e os jovens se matam. Ao chegar ao hotel a viajante leu os jornais e, desiludida, resolveu cancelar a visita. o que viu, bastou. A população cresceu, a cidade tanto se modernizou como empobreceu, mas a barbárie é a mesma.

Um dado positivo acrescentou ao seu novo diário: o protesto das ruas. Os sem teto, os sem terra, os sem salário digno cobram seus direitos, xingam os governantes e pedem paz. O Recife lava o rosto adormecido na água do mar e acorda para a vida."

5 comentários:

Palavras de um mundo incerto disse...

OLá,Kari!

As MARIAS. Marias e Marias,elas marcaram história em todos os fatos que aconteceram no Brasil a fora.

E espero que surjam muitas!

Bjinhos!

Marcos Ster

Palavras de um mundo incerto disse...

Ah,conheci um pouco de Penambuco!

Marcos Ster

Palavras de um mundo incerto disse...

Eu vi que vai chover,e que à noite vai fazer 20 graus,e durante o dia 28,t cuida.

Bjos!

Marcos Ster

.eu sou assim. disse...

.eu não conheço o seu recife, mas aqui no rio, não é mto diferente não.
.é triste, mas real.
.bj.

.

Priscilla Pontes disse...

poxa kari eu tenho que concordar com o autor do texto, apesar de o nosso Recife ter se modernizado tanto e nos mostrar diariamente belíssimos cartões postais a barbárie impera e amedronta...triste fato!

Bjos.

P.S:foi ótimo revê-la hj!!! vamos marcar p se ver mais vezes, vê se n desaparecemos né? ¬¬