segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Os lírios

“(...)
- Mãe, olha o que ganhei.
Mamãe falava manso:
- O que é?
- Semente de flor.
Eu dizia semente: era tão pequena.
- Semente não. Uma cebola. Pelo jeito, deve ser de lírio.

Mamãe sabia muita coisa e só havia estudado até o primário. (...)
Ensinou-me, pois, como plantar a cebola alva no oitão da casa, um oitão pobre e nu, mas com aqueles tomateiros cujas frutas a gente comia só pela beleza, pura festa eram.

A menina cavou, fofou, enterrou a cebola num lugar de sol. Aguou muito a terra seca, e esperou com a paciência do amor. Dias e dias aguardou o aparecimento da plantinha, dias, meses, anos, a menina achava.

Aconteceu uma manhã. Um talinho verde surgiu da terra escura. Agora o jardim ia ficar lindo, lindíssimo, um jardim continuando o oitão, os tomates teriam companhia. Passei o dia indo e vindo, jeito de vigiar a chegada dos botões. Ia beber água e voltava, ia brincar com a irmã e voltava, e nada dos lírios, o broto de cor verde sempre lá, imutável, indiferente à minha agonia.

Naquele mesmo dia, ouvi a conversa dos grandes. (...) Os grandes sentados, na calçada, um vizinho chegou com a notícia:
- Gente, o Brasil declarou guerra. Deu agorinha mesmo na Rádio Nacional. (...)
- Será que vamos mandar soldados?
Outro respondeu:
- Claro. Que outra coisa podia mandar, que dinheiro o país num tem...

Houve um silêncio. Eu ouvia, mas não entendia, tinha quatro anos. Perguntei:
- O que é guerra?

Todo mundo preocupado, os rostos vincados. Ninguém respondeu. Mas o meu irmão explicou:
- Guerra é gente matando os outros. É soldado jogando bomba e granada. A bomba cai e quebra as casas e cai tudo, e mata gente e cachorro e até gato. Não sobra nada.

Então. Todo mundo ia morrer. As casas desapareceriam, os bichos. Eu tinha ouvido uma canção que dizia assim: o tempo passa, tudo há de acabar, desejo e glória tudo findará, somente o sonho azul dos namorados nunca morrerá, e tivera inveja de minha irmã mais velha que tinha namorado e ia pois escapar da matança como namorado dela, e fiquei triste porque ia morrer, e minha mãe também, a gente não tinha namorado. E agora, o irmão prenunciava a morte de todos, sem exceção.

Fui chorar no jardim. E no choro entendi: não chorava pela morte das pessoas. Era triste, claro, tanta gente desaparecer, a família toda sumir de repente. Mas um dia, de todo jeito, a gente termina morrendo, a mãe sempre falara assim, e o corpo da gente é feito semente e terra aguardando o dia de viver de novo, virado em flor e planta.

Tampouco chorava pelas casas destruídas, pelas paredes caindo nas camas, nas mesas, as coisas da gente no descampado. Nem chorava mesmo pelos cachorros, bichos de que eu gostava muito: tinha tanto no mundo, a carrocinha vivia pegando e sempre havia cachorro sobrante pela rua, nas casas.

Sentada na escuridão, eu chorei pelos lírios. Que nunca floresceram. E foi a revelação, eu de repente, mergulhada num mundo dos adultos; eu podia amar os lírios com um amor forte. Podia proteger os lírios do sol, da secura, de vento e até das lagartas, que comiam uma folha inteira num instante, deixando em seu lugar uma capinha de papel celofane. Eu podia proteger os lírios dos pés das pessoas, fazendo uma cerquinha.

Eu amava. Mas meu amor, enorme embora, era incapaz de defender completamente o objeto amado. Pois amor sentia pelos lírios, feito espera, surpresa e medo, não tinha poder de evitar sua morte. Eu amava os lírios e os lírios iam morrer, mesmo antes de existir.

Naquela noite eu aprendi a primeira lição sobre o limitado poder do amor.”

Luzilá Gonçalves Ferreira,
em seu livro “Muito além do corpo”

7 comentários:

Marcus Vinícius disse...

Obrigado pelo comentário lá no meu blog, foi uma massagem e tanto no meu ego... =]

Que bela analogia que ela faz nesse texto, hein? POr mais que amemos alguém não podemos fazer nada com relação a algumas coisas, como a morte. É triste mas é real.

Beijão, e saiba que eu também sempre frequento o seu blog, que, dos blogs de pessoas que eu não conheço, é o que eu mais gosto. ;)

auau disse...

Oi kari...
Choro também
me reprimo entre as lágrimas que não caem,
mais eu choro
em busca de uma nova vida...
uma vida de ideologia...
paz...justiça...igualdade
mais vou vivendo
vivendo nesse mundo...de poeira

"...ideologia eu quero uma pra viver"



Paz


Auíri Au

Antônio disse...

Caramba, mas tu é uma flecha, hein? Fazia cinco minutos que eu tinha postado, e lá estava teu comentário...Usas algum recurso para ver quando atualizo? Se sim, me avise, também quero usar, pois ando bastante relapso para comentar em outros blogs.
Muito bom o texto, ainda mais num dia em que também estou com a analogia na mente. Por falar em lírio, me lembrei daquele salmo que fala na beleza dos lírios do campo. É muito bom.

Beijão, cuide-se!

Alexandre Hallais disse...

Kari,

esse texto cai bem em nossos corações. Devemos rever os conceitos. Estamos perdidos.
Mas as balas nos encontram.

Beijos...

Priscilla Pontes disse...

kari ainda n lí esse post mas acabei de ler o anterior, se me permite irei comentá-lo aqui.
Realmente é difícil viver num mundo em que temops que olhar p todos os lados e para todos e imaginar que sempre estamos correndo perigo (imaginar? acho que perceber seria a palavra certa).
sei bem o q é isso aqui no meu bairro vivemos en constante vigilância, ás vezes tenho medo estando dentro de minha própria casa.
Mas temos que viver apesar das dificuldades e do cansaço e acreditar que tudo tem um ponto final.

Depois passo p ler o poster d hj.




Bjos.
AH foi ótima nossa tarde!!!
adorei revê-los!

Priscilla Pontes disse...

n é nada disso!
eu realmente to mto ocupada estudando p as provas e to resolvendo as broncas da ufpe..passei agora só p desmanchar esse seu pensamento revanchista.

^^



Bjos.

Palavras de um mundo incerto disse...

Kari,

DESCOBRI UM NOVO AMOR.
UM DIA JÁ DESCOBRI ELE, INCLUSIVE EU VIVO NELE E ELE VIVE EM MIM.
AMOR, VIVER, ESPERANÇA E MORTE.

A FLOR=VIDA.

bJOS E ABRAÇOS!

Com carinho!

Marcos Ster