sábado, 15 de setembro de 2007

Viver cansa!

Moro em um bairro considerado nobre em Recife, em um edifício pequeno (apenas seis andares) e antigo. O edifício fica em uma esquina, entre duas ruas bastante movimentadas.

Me mudei para cá em abril de 2005, mas sai em dezembro do mesmo ano. Passei o ano de 2006 em alguns lugares, foi um ano complicado e difícil, mas não quero entrar em detalhes. Em janeiro deste ano, voltei e aqui estou eu.

Ao retornarmos pra o apartamento, reparamos que tudo continuava igual, exceto pelo “lavador de carro” que passava todo o dia aqui na frente. Desde o começo, reparei que ele gostava muito de chamar a atenção, sempre gritando e falando muito alto.

Mas pra mim, era só um “lavador de carro”, “apenas um ‘trabalhador’, de certa forma”, pensava eu. E por isso, nunca tive por que temer. Ele tem uma cara de bobo, mas sempre soube que de bobo, não tinha nada.

Na primeira reunião do condomínio, após o nosso retorno, descobrimos que ele não era apenas “um lavador de carros”, mas sim um traficante de drogas e a frente do prédio é o “point”. Ah, sem falar que descobrimos que ele vive armado e sempre rouba alguns dos carros estacionados na rua.

A princípio, fiquei com medo de sair de casa, mas depois, acabei me acostumando com a idéia e tento agir muito naturalmente. Não deixei de fazer nada por causa dele, nem de sair com Meg (minha cadelinha) todas as tardes, num momento que acho muito especial, pois enquanto Meg anda e se diverte, eu penso na vida...

Uma noite, estava aqui, na frente do computador, escutando música, enquanto os meus pais estavam na sala. A minha música estava alta, estava com o fone de ouvido e se os meus pais me chamassem, eu jamais os teria escutado.

No entanto, no meio da música, escutei uns gritos desesperados, dizendo que não iria fazer nada, que não queria nada. Com as luzes apagadas, olhei pela janela e vi um mendigo agachado e encolhido, tentando se livrar do traficante (sim, aquele mesmo), que segurava um pedaço de madeira muito grande e estava prestes a bater.

Fiquei desesperada com o que estava vendo. Até que algumas pessoas chegaram e mandaram o traficante soltar a madeira e deixar o mendigo ir. Ele foi embora e o traficante continuou falando alto por algum tempo. Fiquei com aqueles gritos por muito tempo na cabeça.

Mesmo depois disso, continuei segundo a minha vida. Até que certo dia, ao olhar a janela, percebi que o traficante estava dormindo ali na frente, algo que se repete até hoje.

Certa manhã, ao sair de casa, reparei que ele não estava sozinho. Estava com um companheiro, amigo ou sei lá o que. Mas reparei que esse outro rapaz (vamos chamá-lo de outro traficante), tem uma cara que dá medo. Sabe aquela cara “de gente ruim”?

Em uma certa tarde, como de costume, fui passear com Meg, mas reparei que aquele outro traficante estava a me olhar. Ao atravessar a rua, olhei-o nos olhos e percebi que este também me olhava profundamente.

Morri de medo. Tive vontade de correr pra casa, mas me controlei. E segui o meu caminho. Ao voltar, tentei passar o mais longe dele possível. Nos dias seguintes, eu sabia que ele já havia me notado.

Poxa... logo eu que gosto tanto de não ser notada, sabe? Sou tão na minha. E logo ele havia reparado em mim... Desde então, já não saio mais de casa sozinha com tanta freqüência. E os passeios com Meg estão bastante limitados.

Meu pai diz que eles não nos farão coisa alguma, pois nós os “conhecemos bem” e sabemos quem eles são, por isso, dificilmente nos farão algum mal. Minha mãe, ás vezes concorda, ás vezes não. Ela morre de medo quando sai de casa.

Essa semana, um deles (dos traficantes, claro) olhou para minha mãe e disse: opa, blz? Como ela estava no carro, fingiu que não viu e entrou no prédio. Eu disse que ela fez errado, deveria ter respondido, feito um legal com os dedos ou sei lá o que.

Ela me respondeu que era um ridículo pagar os impostos e ainda ter que tratar bem aos traficantes. Eu lhe respondi, apenas, que era para se prevenir, afinal, não os queremos como inimigos, né?

Falei muito até agora, mas já estou concluindo. É rapidinho, prometo!

Depois de tudo relatado, agora você já sabe como penso duas vezes antes de sair de casa, principalmente a pé. Mas, até quando será isso? Até quando não terei mais a escolha de sair a hora que quero e ir para onde bem entender?

Ah. E não me pergunte: porque vocês nunca os denunciaram? Porque eles já foram presos, algumas vezes, mas sempre, os advogados (que tem seus escritórios aqui na rua) os tiram da prisão. Só posso pensar que são viciados, né?

A gente pensa que o perigo está sempre nos morros ou nas favelas, mas não é bem assim. O perigo e os “perigosos” estão em todos os lugares. Podem esbarrar com você a qualquer hora do dia e sabe-se lá o que podem te fazer.

Cansa pensar duas vezes, sempre que quero sair. Cansa ter que estar sempre prestando atenção a todos os lados para saber se alguém está me seguindo, se não há nenhum “movimento suspeito”.

Ao chegar em casa, estou exausta de tanto pensar, prestar atenção e ficar atenta.

Cheguei à conclusão, que viver cansa!

-Beijos
Kari Mendonça

9 comentários:

Menina Lunar disse...

Essa violência toda cansa.
Cansa saber que ela vai continuar nos impedindo de viver...
Cansa muito. Aliás, revolta.

=*

Menina Lunar disse...

Ah sim, e o texto sobre o suicídio foi excepcional, Kari!! Tenho uqe voltar com mais freqüência, cê atualiza rápido... rsrsrs
Beijo grande!!
PS: Eu melhoro sim ;)

Marcus Vinícius disse...

Eu também acho. Desde que eu fui assaltado (episódio horroroso, foi um guri menor que eu, só imagino o futuro do cabra) eu sempre olho pra todos os lados SEMPRE. Qualquer pessoa é um assaltante/bandido/assassino em potencial.
É muito ruim não poder sair de casa sem ter medo. Mas os políticos, em seus carros blindados não notam que o povo não gosta.

A tua situação é complicada, mas o jeito é ou conviver com o sujeito ou mudar de casa novamente.

Beijo!

Auíri Au disse...

Atençao!!!
Pare!!!
Siga!!!!
Nossa vida é intensa,
o tempo não para, você que faz o seu tempo.....mais o tempo é um meio de dar tempo ao tempo!!!



Paz

Samanta disse...

Amore, não pense que denunciar não é bom porque as leis não são à altura do que desejamos.
Pense que denunciar é bom porque o ser humano que é lixo não volta para o mesmo lugar que foi pego fazendo algo de errado pelo único motivo de ter tanto medo quanto você.
Não deixe isso crescer na porta de sua casa pois, daqui a pouco outros virão além dos dois que já por aí estão.
E, eles não tem o direito de podar a sua liberdade.
As denúncias podem ser anônimas tanto para a Polícia Civil quanto para a Militar.
Pense nisso, ok?
Beijos no coração.

benechaves disse...

Oi, querida: realmente viver é muito perigoso, como já dizia o Guimarães Rosa. Mas, temos de viver!
Esses traficantes aí na sua porta é um caso meio temeroso, não? Precisa-me ter muito cuidado porque eles nada têm a perder. É um troço chato ser privado de liberdade e viver com medo que possa acontecer algo. Acho que todo cuidado é pouco. Desejo uma solução de paz para o acontecido e que vcs possam voltar a viver sem temor do que possa acontecer. Acredito que a liberdade é a nossa maior meta.E tb o sossego.

Um beijo sem medo...

.karol holzer. disse...

.que situação né!
.muito chato isso.
.infelizmente, ao meu entendeu o melhor mesmo é deixa-los perceber que vc tb os notou.
.cumprimentar.
.demonstrar que realmente os conhece.
.daí diminui a probabilidade deles lhe fazerem mal.
.mesmo assim é chato, ser conhecida de traficante.
.escolhas complicadas.
.decisões difíceis.
.
.bj.

nih disse...

nossa...aqui tem dessa também.
eu salto no ponto de ônibus mais escuros da cidade e tenho q atravessar duas ruas no escuro pra chegar em casa.... tem q sair olhando pra todo lado a cada minuto.

é horrível mesmo :/

Antônio disse...

Essa é a infeliz realidade na qual estamos inseridos... Fiquei temeroso por ti, mas que bom que vocês têm consciência das coisas e se cuidam.
É uma vergonha, mas é a realidade. E mudar isso não será tão simples, infelizmente...
Te cuida, viu?

Beijão, querida!