quarta-feira, 17 de outubro de 2007

As horas e a liberdade

Aos seis anos o seu presente de aniversário foi um relógio. Mas não um relógio qualquer. Ele era a prova d´água, para que não fosse necessário tira-lo do braço nunca. Era digital, pois não sabia ver as horas. E tinha que ter “conometro”, como ela dizia.
O relógio era a única coisa que, de fato, lhe pertencia e por isso, ela cuidava com todo carinho. Não o tirava do braço em momento algum.
Seu maior divertimento era olhar as horas, mexer no “conometro”, no timer e no alarme, mesmo sem saber para que dois deles serviam. Ah, não posso deixar de mencionar a luz que o relógio tinha, para que ela pudesse ver as horas até no escuro.
Pra onde ia, mostrava o seu relógio. Foi a última coisa que mostrou a sua avó, isso ela lembra bem. Estavam na praia, era a comemoração do aniversário do seu primo, poucos dias antes do seu, mas, como já havia ganho o seu presente, o exibiu toda orgulhosa por todos os lados.
Com o tempo, a pulseira do relógio ressecou. Era de se esperar, já que ela o levava para a piscina o tempo todo e não o tirava nem na hora do banho. Mas não foi o fim do mundo, trocou-se a pulseira e a vida continuo.
E assim seguiu até os seus 11 anos, quando, ao tentar tirar a pulseira já quebrada, ela acabou quebrando o local de encaixe da pulseira. E apesar do relógio ainda funcionar perfeitamente, ela não o pode mais usar, pois já não era possível colocar pulseira alguma.
Enquanto estava sem ele, "o seu companheiro de todas as horas", as horas pareciam eternas e eram angustiantes. Não havia nada pior do que perguntas as horas a alguém.
Ao perceber sua angústia, sua avó sugeriu que ganhasse um relógio novo e, mesmo sem poder, sua mãe acabou comprando um relógio não tão barato assim, e com “conometro”. Ela adorou! Mas a alegria durou até o seu primeiro banho, quando o relógio parou. E ao ser levado para a garantia, garantiram a sua mãe de que o relógio havia sido mexido e, por não ter como provar, o relógio acabou indo para o lixo, antes mesmo de ser pago.
Os dias de tortura voltaram, mas duraram até o aniversário de 12 anos, quando ganhou um novo relógio exatamente igual ao primeiro, exceto pela cor, um tinha detalhes vermelhos, o outro era azul.
Finalmente a sua vida voltou a ser como antes. E como tanto gostava, voltou a viver cada segundo sabendo exatamente que segundo era aquele.
Ela era assim, não podia presenciar nenhum acontecimento que olhava para o relógio, para que pudesse marcar o exato momento em que aconteceu. Assim, quando fosse contar a alguém, poderia ser bem exata, como ela tanto gostava.

- Mãe, fui dormir ontem ás 3:32 da manhã.

Sim. Ela fazia isso.
E sua vida era completamente cercada pelas horas.
Na época do colégio, acordava-se exatamente ás 5:25 para tomar banho com calma e estar vestida ás 5:45, para então, ter terminado de tomar café da manhã ás 6:00. Assim, poderia estar na parada de ônibus exatamente ás 6:10 e chegava ao colégio ás 6:35. Os portões ainda estavam fechados, mas ela não se importava. Gostava de chegar cedo, pois só assim teria ido sentada no ônibus.
Durante as aulas, perdia mais tempo olhando para o relógio do que para a aula em si. O “conometro” já nem era mais tão importante, mas o fato de ser digital ainda era essencial, pois, mesmo aos 16 anos ainda não sabia ver as horas.
Já haviam tentado ensina-la diversas vezes, mas ela sempre achou complicado demais ter que contar 15, 20, 25.... Achava uma perda de tempo e era por isso que gostava quando olhava para o pulso e via 3:15 p.m. Ah! Ela também nunca gostou das 24 horas. Era complicado demais pensar que depois do12 vinha o 13 que representava 1hora. Afinal, 13 deveria ser 3horas e 14 quatro, assim pensava ela.
O tempo foi passando. E sua dependência com as horas sempre aumentava. Se marcava um encontro ás 2:00 e ás 2:05 a pessoa não chegasse, ela ficava nervosa e achava que não viriam mais.
Recentemente ela se sentiu incomodada. Saber das horas já não a alegrava tanto.
Queira um pouco de liberdade.
Queria ir dormir, acordar no meio da madrugada, não saber a que horas acordou e então voltar para dormir.
E foi assim, que um certo dia, ela decidiu deixa-lo.
Não foi um momento fácil, mas ela tirou o relógio do pulso, aquele com quem estava há seis anos, e o colocou em cima da mesa.
Hoje, ela já não se importa tanto assim com o tempo.
Já não “conometra” toda a sua vida e finalmente conheceu o significado da palavra liberdade.
Sim! Hoje ela é uma garota livre. Não depende mais de nada e nem de ninguém.
Percebeu que não há porque tanta pressa nessa vida, que não há nada melhor do que viver cada segundo, sem saber que exato segundo é esse.

Kari Mendonça
PS.: Desculpa o tamanho do post, mas é que foi o centésimo e acabei me empolgando...

18 comentários:

Janaína Rovari disse...

O seu texto me fez lembrar de um pato de pelucia que eu tanto fiz, tanto fiz, que os meus pais enviaram a solicitação ao Papai Noel, e o pato que eu tanto namorava na loja importadora perto da minha casa, ele finalmente foi meu... Ah, que felicidade!!! Eu passeava o tempo todo com aquele bichinho e me sentia plena... Ele nem era tão bonito assim, mas pra mim, ele era perfeito...

Enfim, as coisas são assim!!!

Às vezes, as conservamos ou o tempo nos ajuda a conservá-las, mas às vezes não conseguimos...

Bjs

Marcus Vinícius disse...

Nossa, essa crônica é digna de publicação!

Cad vez melhor, né Kari?

Beijão!

Reticências disse...

Acho que ela percebeu que não era ela q deveria viver em função do relógio. Que seu tempo era diferente, impossível de ser cronometrado...

Bjos

ahallais disse...

Querida,

acho que a vida é um grande "conometro" regressivo. A cada minuto estamos indo de encontro ao pó...
Seu texto é lindo, mas as horas são imponentes...

P.S. - desculpe o tom obscuro.

Beijos e boa noite

Helena disse...

adorei sua foto nova!
E AMEI esse texto. N�o vou descrever por partes o que me agradou, mais ele foi maravilhoso; essa parte principalmente: "voltou a viver cada segundo sabendo exatamente que segundo era aquele."
E chegando no fim consegui entender o titulo do post. E � exatamente assim que acontece.
As coisas como elas s�o =)
Bjos

Candy disse...

Kariii, óóótimo post! de verdade!

Muito bem escrito mesmo.

E ainda me idenfiquei... eu SEMPRE tive relógio, desde sabe Deus quando... e sou totalmente dependente da hora. Quase uma escravidão.
Um dia, quem sabe, eu não me liberte também né?!

Beijooooos

*tá melhor?

~universo paralelo~ disse...

Nooossa Kari, fico cada vez mais impressionada com teus textos.! muito bons, nao da pra falar de uma parte em especial que eu tneha gostado pois ta tooodo perfeito.!
Beijos.!
:*

~universo paralelo~ disse...

aah e brigada por ter colocado meu link.!
:DD
Beijos, boa noite.!
:*

Samanta disse...

Gozado...
Ao ler seu texto me veio a mente a cara incrédula que algumas pessoas fazem para mim quando respondo, ante a pergunta delas, de "Que horas foi isso?".
- Não sei, não tenho relógio!
Como smepre, excelente texto.
Beijos no coração.

Zihh disse...

realmente muito lindo o texto, é dificil imagina tu sem relógio, ele e as pulseira q kaká te deu eram uma característica única tua. Mas é bom se sentir livre, eu não sei o que é isso há muito tempo, e por mais que seja tentador ser livre, continuo presa ao tempo, é realmente frustante querer saber as horas e não ter um acesso rápido à essa informação.

e em relação ao teu comentário, eu entendi o que tu quis dizer e acho que teu ponto de vista é compartilhado por mim tbm, só que de um jeito diferente.

sim, num deu p/ ligar p/ bel hj, pq eu perdi o meu cel, aiw eu perdi consequentemente o numero dela.. será que dava p/ tu me mandar o telefone dela?
e as 8h em ponto estarei na frente do teu prédio, ok?

=**

~universo paralelo~ disse...

aah brigada,
:}
vou procurar, adoro Auusto Cury, ja li aquele: você é indispenssável.

Boa noite,
;*

O pensador disse...

TÔ te falando que me vejo um pouco nesses teu texto quando li fiquei impressionado parecia que você me conhecia e tava falando de mim, por isso eu acho que temos alguns gostos parecidos boa madrugada pois agora já é 23hrs 49 minutos

Bom Dia!!!

Terminei meu namoro, não consigo beijar uma e pensar em outra.

Cândida disse...

caramba, me identifiquei tanto, kari.. :P adoreeei a cr�nica!
e meus parab�ns pelo cent�simo post!! uma vit�ria maravilhosa, minha linda! que os pr�ximos sejam ainda melhores e que vc esteja sempre nos surpreendendo com a brilhantes escritora que vc �. te amo, karioca!! xeriiim ;*

Adriana disse...

Oi Kari,
Que lindo seu texto do "conometro"
Parabéns tb pelo centésimo post
Bjsss

Hugo Simões disse...

Oi Kari! Centésimo post! Gostei do texto, essa menina representa toda a humanidade que se prende aos ponteiros do relógio. É tão bom não saber que horas são, que horas voltar, que horas chegar...
Parabéns pelo teu blog!
Beijão!

Fernanda Alves disse...

É delicioso o fato de nos sentirmos livres nao é?! Tanto que num simples simbolo desse se é capaz de perceber que detalhes nos aprisionam e nos privam de nos sentirmos livres realmente...

Legal seu texto!!!

A pouco tempo fui aí em sua cidade, Recife, e a achei linda e cheia d segredos. Linda sua terra!!!

Outra coincidencia - to estudando pro vestibular pra comunicação social, ainda nao sei qual habilitação escolher...

Vamos conversar mais depois.

Parabéns pelo blog

O pensador disse...

Falando sobre meu post é mais ainda tõ meio confuso trocar o certo pelo duvidoso mas o que é cert nesse mundo??

Falando desse texto fico arrepiado com vc pois meu primeiro presente sério de mocinho foi um relógio e aconteceu exatamente a mesma coisa hoje não gosto de relógio, não me sinto bem...

Bjs!!! e boa tarde...

Herberth Reis

Palavras de um mundo incerto disse...

Não precisa pedir desculpas, pois coisas boas são boas. Então uma leitura, uma escrita maravilhosa como esta de tantas, falou, traduziu o por quê ando sem relógio no pulso e deixo muitas vezes o meu celular em casa.

**risos**

Bjos e milhões de abraços pra tu que também estou com saudade.

Com carinho

**risos**


Marcos Ster