quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Desilusão

Acordei-me cedo. Por um instante não quis me levantar, mas logo percebi que eu precisava ir aquele funeral.
Tomei banho, vesti uma calça jeans e uma blusa preta (sim, em alguns casos eu gosto da tradição).
O dia estava bonito. O sol brilhava como nunca e só eu parecia entender o porquê de todo aquele brilho.
Peguei o carro e fui até o cemitério. Estava vazio. Não havia ninguém velando aquele “corpo”.
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Não gosto de olhar dentro do caixão. Nunca gostei. Sentei-me então, próximo a ele, mas sem olhar.
Por um segundo, não entendi o que fazia ali. Mas lembrei-me que eu não podia faltar àquele momento.
Eu precisava estar ali. Precisava me despedir dela e ter a certeza de que ela jamais iria voltar.
Eu sabia também, que, se fosse ao contrário ela estaria no meu velório.
Estaria rindo e feliz da vida por ter conseguido o que tanto queria, me destruir. Mesmo assim, sei que ela não faltaria.
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Mas não importava mais, ela havia morrido e jamais iria conseguir me destruir ou me dominar de novo.
Também me senti obrigada a estar ali, sentada e segurando aquela margarida, pois eu sabia que era a única culpada da sua morte.
Mas eu não sentia remorso. Eu sentia um alívio. Alívio esse que me angustiava por senti-lo, apesar de saber que tomei a decisão certa.
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Enquanto segurava a margarida, lembrei-me de todos os momentos que passamos juntas.
De todas as lágrimas que derramei por causa dela.
De todas as vezes que fui invadida por uma tristeza enorme que parecia que nunca me largaria.
De todas ás vezes em que me senti frustrada e deprimida, achando que a vida já não tinha nenhum sentido.
E foi por não agüentar mais viver com tanta tristeza, tanta frustração e depressão, que decidi acabar com a vida sua vida e com tudo isso.
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A minha mente estava tão longe, o tempo acabou passando rápido e nem percebi quando os coveiros entraram na sala, o funeral ia começar.
Perguntaram se eu queria esperar mais alguém chegar, mas eu lhes disse que ninguém chegaria. Perguntaram se poderiam fechar o caixão e antes de dizer que sim, decidi olha-la pela última vez. Seria bom, pois seria a última vez.
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E quando olhei ali dentro, lá estava ela, com um sorriso sarcástico.
Era ela, e eu fiquei feliz em saber que nunca mais a veria e que ela nunca mais poderia me fazer mal algum.
O caixão foi fechado, os coveiros o carregaram.
Olhei atentamente enquanto o colocavam na sepultura, precisava ter certeza que ela jamais sairia de lá.
Joguei a margarida. A sepultura foi fechada e então, a placa foi colocada:

“Aqui jaz a DESILUSÃO.
Que descanse em paz e não volte mais.”


Dei as costas para a sepultura, abri um largo sorriso e caminhei até o carro.


Kari Mendonça

21 comentários:

Poeta da Vida disse...

*Sim, sim! O pirraio é bom, e não deixo de incentivá-lo sempre!

**Tens blogado como respira, hein! Com frequência admirável!

Lua Durand disse...

ela não voltará. :)

passa para um café, sempre que quiser/puder.

beijo

au revoir

Antônio disse...

Sepultar sentimentos não bons sempre é válido, é sinal de crescimento e maturidade. Que uma etapa da tua vida foi superada. Parabéns.

Beijão, moça!

A bailarina, disse...

Preciso urgentemente sepultar uns sentimentos que insistem em me abitar.!
:(
ando triste, -hoje em especial-

Beijo grande Kari.!
:*

Candy disse...

Eu to numa fase na qual todos os blogs que eu leio parece que foram para mim! :o

Impressionada!

E o que foi que aconteceu que levou a sepultá-la?

*ah, tenho um capítulo para te contar daquela novela que nós duas fazemos parte, sabe?

beijoooos

Janaína Rovari disse...

Kari,

Porque não me avisou do sepultamente, pois gostaria de me juntar à você e poder sepultar todas os sentimentos que postei ontem... Eles eu mesma assassinei e pretendo não mais sentí-los!!!

Bjs

Janaína

O pensador disse...

Tô com o corpo ( desilusão )aqui do meu lado pra onde vou os levos ainda não conseguir me desfazer deles...

Samanta Gerlach disse...

Bem a ver com o que estou vivendo no momento...
Entenderás melhor quando ler o meu post.
E, como sempre, lindo texto!
Obrigada pelo elogio sincero à nova decoração do meu blog.
O seu, com sua simplicidade, fazem muito bem aos meus olhos.
Beijos mo coração.

menina lunar disse...

Eu queria ter ido com você, pra animar um pouco a situação, ter contado umas piadinhas...

Da próxima vez que tiver defuntos desse tipo, que atrapalham e enegrecem a vida da gente, me avisa, tá?

Brilhante, Kari.
Do início ao fim, muito mesmo!!!

Beijo gigante.

Somente EU mesma disse...

Oie, amiga!!!

Eu mudei o nome e o endereço do blog... Estão me acredindo por email achando que estou os agredindo, então está tudo novo...

Se vc puder, mude nos seus links e avise a quem vc puder...

Bjs

Janaína

Katarine Rosalem disse...

Putz... pq vc não me convidou para esse velório? Eu iria com certeza. Queria ter o prazer de velar e sepultar a Desilusão!!!
Tb cansei de topar com ela em minha vida. Se bem, que com ela aprendi muita coisa... Sabe. acho que queria tb agradecer, dar uma última espiadinha...
e obrigada por postar coisas tão bonitas.
bjos

Adriano Veríssimo disse...

Olá Kari!

Tenha certeza absoluta que com outros modos de tratamento eles desistiriam dessa vida torpe...Eles só deveriam conhecer o amor, um sentimento que eles só ouviram falar. A maioria daqueles meninos não chegarão aos 30 anos, sabe por que? Por que não conheceram o amor.

Condenar é mais fácil!

Me aprisiono em pensamentos, quando penso nisso.

= (

Beijo

Adriano Veríssimo

Helena disse...

Acho que deveria interpretar seu texto de um jeito, mas tudo vai me fazer interpretar de outro...

Candy disse...

Aiii
to sem tempooo, kari!!!
looouca pra ir falar com vc no msn, saber das novidades, contar as minhas, mas nao tá dando
:(

Mas assim que der eu apareçooo!

beijoooos

Somente EU mesma disse...

Da musica que vc destacou no seu blog... Último Grão/Isabella Taviani...

Precisamos conversar um pouco... Estou pssando por uma braba!!!

Bjs

Janaína

A bailarina, disse...

Kaaaari,
nem tenho falado contigo, no msn esses dias, apesar de estar ficando online, nao fico conversando, =/
mais agora vou voltar a entrar mais,
aah passa la no blog, que tem um presentinho pra voce.! ^^
Beeeeijos no coraçao.!

Gabriela disse...

LINDO texto! Ameeei!
Nada como enterrar aquilo que nos faz mal.

Tenha um lindo final de semana

Beijos

Alexandre Hallais disse...

Docinho!!!

FODA o texto! Muito FODA!
Desculpe minhas palavras, mas é demais.
Muito bom!! Adorei!
Foda mesmo, hein. Receita farta!

Beijos e parabéns!

Fátima Nascimento disse...

Kari, pior que a desilução é a ilusão. Quando a gente se dá conta do "erro", vem a desilusão. Mas que bom que ela passa e nos ensina algo; ao menos a não ter a mesma ilusão. Bom texto. Prendeu-me até o fim. Abraços.
http://www.verbosolto.blog-se.com.br

Euglaudston disse...

Kari, vim visitar o teu blog, e fiquei deveras encantado, escreves muito bem, deixa transparecer o que está dentro d'alma, espero que continue assim, pois como "Academica de Jornalismo" já demonstras um futuro promissor e brilhante. Amei os seus textos. Beijos

Palavras de um mundo incerto disse...

Bah, Kari,

Muito forte a sensação do que é estar presente num momento desses.

Bjos querida!!!


Marcos Ster