segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Mundo pequeno e injusto

Ontem eu tive que ir ao teatro, não apenas assistir uma peça por lazer, mas fazer uma análise atenta sobre tudo, pois este será o tema de um trabalho meu. No sábado, já havíamos ido ao teatro, conversamos com os atores e decidimos ir no domingo assistir a peça, eu e uma colega confirmamos a presença.

Perto da hora marcada, resolvi ligar para saber se estava tudo certo, ela disse que era melhor que chegássemos mais tarde, sua voz estava um pouco aflita, mas não dei nenhuma importância.

Mais tarde, uma amiga resolveu ir comigo e lá ligamos para a “colega” que, com a voz ainda mais aflita disse que não iria, pois estava indo ao hospital visitar uma amiga que havia sido baleada. E num ato completamente egoísta eu fiquei chateada. Pensei que ela poderia ter me dito mais cedo que não ia, mas deixei pra lá.

Hoje à tarde, sai com a minha mãe, fomos comprar a ração de Meg (minha dog) e no caminho, ela ligou para o meu avô, que, comentou que a filha que um primo dele havia sido baleada e ficaria tetraplégica.

Na hora não consegui pensar em nada. Fiquei triste , pois conheço o seu pai e imaginei a sua dor. Ficamos, eu e minha mãe, alguns minutos sem reação, pois sabíamos apenas que ela era jovem e tinha uma vida inteira pela frente.

Agora à noite, chegando à faculdade, minha amiga me disse que a nossa colega não iria para a aula, pois a sua amiga havia morrido. E foi nesse instante que a minha ficha caiu. Pensei que seria muita conhecidência que duas jovens tivessem sido baleadas nesse fim de semana, sim, não é impossível, mas achei demais.

Ao me pegar na aula, minha mãe me contou que a filha do nosso amigo, de fato, havia falecido hoje à tarde. Fiquei em estado de choque. Não estou me sentindo nada bem e me pergunto aonde vamos parar.

Até quando jovens, como essa, serão baleadas por uma tentativa de assalto? Quando poderemos andar pelas ruas sem temor? Sem medo? E com alguma certeza de que chegaremos ao destino desejado?

Ela era uma jovem, 26 anos, formada em odontologia, estava chegando em casa, quando foi abordada por três indivíduos que dispararam dois tiros contra ela. A polícia, claro, ainda está investigando os fatos, e muito provavelmente, esse caso nunca seja resolvido, assim como tantos outros.

Pois é, o mundo é pequeno mesmo, ou talvez o Recife seja de fato um “ovo”, mas o que estou querendo dizer é que nunca me senti tão mal na vida. Nunca me arrependi tanto de um pensamento meu. Talvez se eu soubesse que ela era filha do nosso amigo, eu jamais tivesse criticado minha colega por não ter ido ao teatro.

Mas que diferença isso faz? Sendo filha de que for, era uma jovem e deixou uma família e eu não podia ter ignorado o fato que ela estava numa cama de hospital. Em momento algum eu poderia ter criticado a minha colega, afinal, ela não estava indo a uma festa e sim a um hospital.

Caramba, cada dia tenho mais certeza de como ser “humano” é a criatura mais egoísta que existe. Tirando pelas minhas próprias atitudes e reações. Estou me sentindo péssima, mas fica a lição de que, antes de criticar, veja os fatos e não leve em consideração os "personagens".

Mais uma vez, quantas vidas precisarão ser tiradas, para que alguém faça algo? Quantos jovens precisarão levar tiros, pra que a sociedade exija algum respeito pela nossas vidas? Quando poderemos usufruir do tal direito de “ir e vir”? Se, ao “ir”, jamais sabemos se poderemos “vir”.

A gente sempre pensa que a violência não vai bater a nossa porta, mas eu te digo, ela bate, viu? E é bom você começar a exigir respeito pela vida, antes que seja tarde demais.

Kari Mendonça

PS.: O meu coração está de LUTO, não apenas pela morte de Rafaella Arcoverde, mas pelo Recife, e quer saber? Pelo Brasil em geral, afinal, as coisas não estão violentas e difíceis apenas por aqui.

5 comentários:

Menina Lunar disse...

É estranho, né Kari? A gente brinca tanto na infância, passa por uma adolescência, estuda, ama, sonha, se forma, trabalha, constrói tanta coisa e de repente tudo desmorona ao som de alguns disparos feitos por um desconhecido, num encontro infeliz em alguma esquina.

Estranho não. Doloroso. Desesperador. Revoltante.
Eu todo dia quando saio de casa beijo meus pais, e digo que os amo muito; caso algo aconteça, não se esqueçam disso. Eles não gostam, acham mórbido, dizem "não fala isso nem brincando". Mas é infelizmente a brutal realidade a que estamos submetidos.

De luto, de luto sim. Por todas as vidas ceifadas por esse sistema cruel. De luto por esse país onde a certeza de "chegar em casa" é tão frágil como uma seca no vento.

[Texto esplêndido, como sempre.]
Beijo grande!

Menina Lunar disse...

uma folha seca no vento*

Mila disse...

o recife tá o caos. merece luto mesmo.

mas kari, somos todos humanos e é parte de nós ter pensamentos egoístas assim, é uma pena.

Antônio disse...

É, estás diante de uma realidade triste. Hoje também reservei o post para falar de uma vida em especial, com a diferença que o fiz com a esperança de salvá-la.
Ainda por cima, tomaste um belo tapa de luva, algo necessário a nós de vez em quando, para que aprendamos a não julgar. Mas, também não o fizeste com má intenção. Como tu mesma disseste, foi uma reação natural, a qual estamos acostumados a ter.

Beijos, cuide-se!

Alexandre Hallais disse...

Querida amiga Kari,

o que posso te dizer? Será que eu conseguiria dizer algo bom, ou pelo menos razoável?
Sei não!
Estamos parados, faz tempo.
Perdemos algo chamado amor... perdemos o carinho e o respeito pelas outras pessoas.
É uma terrível perda? Sim... acho que o mundo depende de nós, pq somos formadores de opinião.
O que posso te dizer??? acho que estou falando bobagem, mas...

Um anjo vem à terra com uma missão
e sobe aos céus para seguir sua missão.
Como um cristal quebrado, essa dor, esse fato...
um maltrato
o que posso te dizer?

O mundo é tão pequeno que parece estrangular minha garganta. Ele me aperta e o grito de indignação fica entalado, crucificado em um peito desconfiado... Que mundo ingrato!
Mundo imundo!
O que posso te dizer?

Nada é tão rasteiro quanto os atos dos humanos... estamos comendo a porcaria do capitalismo e colhendo suas cagadas (desculpe a palavra de baixo calão).

O que posso te dizer???

O que estamos fazendo? Porque estamos nos matando? Quem começou? Onde terminará?

Desculpe... não tenho comentários a fazer...
Não pode uma menina morrer...

LUTO!!! LUTO!!!

Não quero mais brincar de polícia e ladrão!

Beijos e um forte abraço do seu amigo...

Alexandre Hallais

P.S. - Vou pedir para ir morar junto da Menina Lunar.
socorro