terça-feira, 9 de outubro de 2007

Quarenta anos sem "Che"



Pois é, eu estou na semana de provas e havia decidido só voltar por aqui no feriado. No entanto, hoje não é um dia qualquer, não pra mim. Não para os que ainda gostam de lembrar quem foi Enersto Guevara de La Sierna, ou apenas “Che”.

Há quarenta anos, morria um dos maiores símbolos do socialismo, que por acaso, acabou se tornando um grande símbolo do também capitalismo. Irônico, não? Mas acredito que não era essa a intenção de Alberto Korda¹ ao tirar aquela tão famosa e tão vista fotografia de “Che”.

Alguns o consideram um herói, outros o vêem como um assassino. Outros ainda, não sabem nada a seu respeito, apenas conhecem a sua imagem.

Poucos sabem, mas Ernesto “Che” Guevara, filho de Ernesto Guevara Lynch e Célia de la Serna, nasceu em Rosário, Argentina, em 14 de junho de 1928. Era o primogênito, sempre muito estudioso, dedicou-se a carreira de medicina.

Ainda durante a faculdade, e em meio ao receio de sua mãe, “Che” juntou-se ao amigo Alberto Granado para uma viagem pela América Latina. Planejavam passar por cidades da própria Argentina, do Chile, Peru, Colômbia e Venezuela. Mas o que gerou receio em sua mãe, não foi a viagem, mas o transporte: a moto de Alberto, “La Poderosa II”.

A viagem começou bem, com alguns problemas na moto apenas. Mas com o tempo, o dinheiro foi ficando curto, as coisas não saiam exatamente como planejadas, e eles acabaram arranjando um emprego em um leprosário em San Pedro, Peru. Alberto era bioquímico.

Apesar de não sair como planejada, a viagem foi muito bem vista por “Che”. Não fosse ela, talvez ele jamais tivesse percebido o quão injusto é esse mundo e o quão miserável é vida de boa parte da América Latina (não posso falar sobre a situação atual, pois confesso não ter tanto conhecimento, mas tudo que sei, foi “Che” “quem me contou” através de seu diário).

Em um momento onde as idéias borbulhavam, e a vontade de fazer uma revolução na Argentina era grande, “Che”, em uma festa de amigos, acabou conhecendo Raúl Castro, e ao contar-lhe suas revoltas, foi apresentado ao seu irmão, Fidel Castro.

“Che” tinha disposição e vontade de lutar, por isso resolveu juntar-se a Fidel e seus companheiros Camilo Cienfuegos, Pancho Gonzáles, Pablo Hurtado e tantos outros, e formaram o “Movimento 26 de Julho”, com a promessa de que, feita a revolução em Cuba, teria apoio para lutar na Argentina.

A revolução foi muito bem sucedida e em 31 de dezembro de 1958, Fulgencio Baptista, o então ditador de Cuba, deixa o país. É a vitória da revolução. Mas não foi nada fácil para tantos jovens assumir um país, onde os próprios cubanos preferiam deixar o país para ir aos Estados Unidos. Não foi fácil e as dificuldades eram enormes, mas juntos, eles conseguiram manter as coisas, estáveis, ao menos.

E, para que a revolução desse certo, todos precisavam ajudar, e “Che” foi Ministro da Agricultura e da Indústria, mesmo não conhecendo muito sobre ambos. Tirso Saenz², conta que para “Che” não havia hora e suas reuniões eram sempre marcadas na madrugada (apenas uma curiosidade).

Em certo momento, quando percebeu que as coisas já haviam tomado o seu rumo, “Che” achou que era hora de seguir seu caminho. Deixou uma carta a Fidel Castro, despedindo-se de Cuba e do povo cubano que tanto o acolheu. Saindo de lá, “Che” se dirigiu a Bolívia, mas não como “Che” e sim como Ramón Benítez e tantos outros nomes.

E foi na Bolívia que tudo acabou. Procurado pela CIA, “Che” foi capturado no dia oito de outubro de 1967. O tiro que o matou, em nove de outubro, foi de Mario Terán, mas os momentos finais da vida de “Che” Guevara, poucos saberão. Alguns dizem, que ao ver Mario entrando, “Che” falou: “Sei que você só veio me matar. Atire, covarde, você só vai matar um homem”.

Ernesto “Che” Guevara, não foi apenas um guerrilheiro, foi um marido e um pai, sendo sua primeira esposa, a peruana Hilda Gadea, com quem teve sua primeira filha, Hilda Beatriz (Hildita). Casou-se depois com a cubana Aleida, com quem teve quatro filho, Aleida (Aleidita), Célia, Camilo e Ernesto. Antes de ir à Bolívia, “Che” deixou uma carta para todos eles, despedindo-se.

Como já dito, alguns o consideram um grande homem, outros o desprezam por completo. Mas independente do que pensam, “Che” foi apenas Ernesto "Che" Guevara, um homem com ideias, que lutou até o fim por eles.

E apesar de tão criticado, queria que me mostrassem alguém hoje, que seria capaz de lutar e até morrer por um povo que não é seu e por um país que apenas o acolheu. Dizemos tanto, mas tão pouco fazemos. Talvez precisemos de ideal, para assim, lutar por aquilo que tantos criticamos.
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1. Alberto Korda era fotógrafo oficial de Fidel Castro e foi ele quem tirou aquela célebre foto de “Che”, que você provavelmente já viu em alguma camisa.
2. Tirso W. Saenz é autor do livro “O Ministro Che Guevara, testemunho de um colaborador”, Ed. Garamond.

Fontes:
SAENZ, Tirso W. “O Ministro Che Guevara”, Ed. Garamond
GUEVARA, Ernesto Che. “Diário de Viagem”, Sá Editora
Revista CAROS AMIGOS Especial “Guevara, vida e morte de um mito”, 4°Edição
Filme “Diários de Motocicleta”, dirigido por Walter Sales
E tantos outros filmes que vi, matérias que li e claro, a minha opinião sobre ele.

Kari Mendonça
Luto

13 comentários:

Adriano Veríssimo disse...

Obrigado Kari...Obrigado pelo carinho por esse espa�o...Esteja sempre a vontade em voltar, ser� sempre bem recebida!

rs

Adorei o Desabafo....Vou ler novamente e vou comentar com mais prioridade...
Me identifico com suas palavras...rs


Beijo

Adriano

menina lunar disse...

Sinônimo de rebeldia boa, mudança, revolução, idealismo, garra, atitude.

Che foi o cara que, dentre milhões, enxergou os erros mas não cruzou os braços...

Belíssima homenagem, Kari.

Priscilla Pontes disse...

hj mesmo ví Diários de motocicleta...adoro esse filme, mostra uma face de "Che" que nem todos conhecem...e mostra tbm a origem de seu sentimento revolucionário e sua vontade de ajudar e modificar realidades, como vc tão bem já explicou...brilhante texto, muito bem organizado, claro e preciso..digno de uma jornalista!

pra mim ele é um símbolo de perseverança e força de vontade algum que quis mudar e não morreu na idéia...que n teve medo de buscar seus objetivos que não eram egoístas e sim de melhoria de todos...

viva o espírito de transformação!
viva "Che"!




Bjos.

benechaves disse...

Oi, linda: sempre é bom desabafar uma hora ou outra. O desabafo retempera nossas forças. E sobre o 'Che', vc produz um bom texto daquele que é um mito para todos nós.
E mitos são assim: ou se odeiam ou se amam!

Beijos de saudade...

.karol holzer. disse...

.desculpe estar aqui e não comentar seu texto.
.mas hoje estou aqui pra agradecer.
.agradecer pelo seu carinho de sempre.
.obrigada.
.bj.

Candy disse...

Kariiii
ai que bom que vc comentou lá!
já linkei! =D
Me adiciona no msn: candynoteclado@hotmail.com
Eu nem sempre entro, maaas... \o/

bjoooooo

Candy disse...

Passando só pra dizer que adoooorei falar com vc no msn ontem!
que historias parecidas!
hahahaha
e não somos loucas!
\o/

beijooos e otimo dia!

Marcus Vinícius disse...

Eu sinto vergonha em dizer, mas eu não sabia nada disso sobre o Che.
Só sabia que ele tinha sido socialista, e que ajudou em uma revolução (que agora eu sei que é da Cuba).

"Agora você sabe, por que você viu na [...]" que nem diz naquele programa de curiosidades antigo que eu não saei o nome.

Beijão, pesquisadora de história, ;)

Stefano disse...

Prezada KAri

Vi teus comentários no Blog da Insônia, e você me pareceu ser uma pessoa muito sensível e, melhor ainda, permeável à informação, sem aquele bloqueio natural aos fanáticos.

Peço sua autorização para reproduzir em teu blog o mesmo texto que enviei ao Tico (outra grata surpresa, esse cara).

Segue um texto de Pedro Corzo, jornalista e documentarista cubano, autor de diversos documentários dentre os quais “Guevara: Anatomia de um mito” (já disponível no YouTube).


Este texto é a Parte I sobre a personalidade psicopática de Ernesto Guevara (que está dividida em três partes ou capítulos) de seu penúltimo livro “Cuba: Perfis do Poder” (o mais recente será lançado dia 12 deste mês, intitulado “Mártires do Escambray”).

Trata-se da biografia das cinco principais personalidades da revolução cubana, a saber: Fidel e Raúl Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e Ramiro Valdés, escrita com muito zelo e fidedignidade, pois traz depoimentos de vários cubanos que conviveram e conheceram pessoalmente estas personalidades.

Abraços


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Ernesto Guevara: Apóstolo da Violência

Por Pedro Corzo

Primeira parte sobre Che do livro “Cuba: Perfis do Poder”


“Não sou Cristo nem um filantropo; sou todo o contrário de um Cristo”
Che


Não compreendemos como em um período histórico no qual a violência converteu-se em algo mais que detestável, existam “pacifistas” que elaborem apologias a Ernesto Guevara, um indivíduo que, independente de doutrinas ou ideologias, foi um dos teóricos mais conseqüentes que teve a violência como prática política, em uma das etapas mais convulsivas de nossa América no passado Século XX.


Sua identificação com uma das personalidades mais desapiedadas da História Moderna, a faz notar em uma carta que dirige desde a Costa Rica à sua tia Beatriz, em 10 de dezembro de 1953: “Em El Paso tive a oportunidade de passar pelos domínios da United Fruit convencendo-me mais uma vez do quão terríveis são esses polvos capitalistas. Jurei ante uma foto do velho e pranteado kamarada Stalin, não descansar até ver aniquilados todos estes polvos capitalistas”.


O indivíduo que alguns pretendem apresentar como um ser justiceiro e de profundo espírito cristão, escreveu uma carta à sua mãe, em 15 de julho de 1956 de uma prisão mexicana: “Não sou Cristo nem um filantropo; sou todo o contrário de um Cristo. Luto pelas coisas nas quais acredito com todas as armas de que disponho e trato de deixar morto o outro, para que não me preguem em nenhuma cruz ou em nenhuma outra coisa”.


Miguel Sánchez, “El Coreano”, um dos que treinou os expedicionários do (iate) Granma, conheceu Ernesto Guevara no México. Refere que Guevara era uma pessoa isolada, pouco sociável e que lhe chamava a atenção sua crueldade com os animais. Conta que ele pegava gatas grávidas para fazer experiências médicas e que quando acabava com os filhotes os colocava em um saco que lançava violentamente contra o chão. Guevara não tinha problemas só com os gatos; na Sierra Maestra disse a um de seus subalternos: “Félix, esse cachorro não dá um latido mais; tu te encarregas de fazê-lo. Enforca-o. Ele não pode voltar a latir”.


Outro exemplo de seu caráter vilento e até sádico, observa-se em uma carta que dirigiu à sua primeira esposa, Hilda Gadea, que se encontrava em Lima, Peru. Escreve ele em 28 de janeiro de 1957: “Querida velha. Aqui na selva cubana, vivo e sedento de sangue, escrevo estas ardentes linhas inspiradas em Martí. Como um soldado de verdade, ao menos estou sujo e maltrapilho, escrevo esta carta sobre um prato de lata, com uma arma a meu lado e algo novo: um cigarro na boca”.


Esta sede ele não demonstrou saciá-la. Segundo expõe Anderson em seu livro “Che”, várias fontes cubanas descreveram como ele assassinou Eutimio Guerra quando ficou evidente que ninguém tomaria a iniciativa. Isto ao que parece inclui Fidel, que após a ordem de matar Eutimio, sem indicar quem deveria cumprí-la, se afastou para proteger-se da chuva.


O assassinato de Eutimio Guerra foi presenciado pelo Comandante do exército rebelde, Jaime Costa, que refere que Guevara gritou: “se não fazem vocês, faço eu”, disparando de imediato no prisioneiro. Costa afirma que foi nessa ocasião que Guevara proferiu a frase “ante a dúvida, mate-o!”. Costa continua dizendo que os fuzilamentos sem julgamento que tiveram lugar na cidade de Santa Clara, nos primeiros dias de janeiro de 1959, foram decisão de Ernesto Guevara e não de Ramiro Valdés como afirmam alguns investigadores.


Ao crime somava a crueldade. Guevar conta em seu livro “Passagens da Guerra Revolucionária”, que haviam processado e executado dois indivíduos que haviam cometido vários assassinatos na Sierra, porém que depois simulou a execução de outros três que tiveram um grau menor de responsabilidade. A experiência que deve ter sido extremamente traumática, é descrita por Guevara com a frieza de um forense: “Depois se realizou o fuzilamento simbólico de três dos rapazes que estavam mais ligados às trapalhadas do chinês Chang, porém aos quais Fidel considerou que se devia dar-lhes uma oportunidade; os três foram vendados e sujeitos ao rigor de um simulacro de fuzilamento. Depois dos disparos no ar, quando os três se deram conta de que estavam vivos, um deles me deu a mais estranha e espontânea demonstração de júbilo e reconhecimento em forma de um sonoro beijo, como se estivesse em frente a seu pai”.


Esta prática se repetiu inúmeras vezes depois do triunfo da insurreição; junto a pessoas que eram fuziladas se colocavam outras com as quais se simulava a execução, com o propósito de que se convertessem em delatores.


A disciplina que Che impunha entre seus homens era inflexível e cruenta. Sua falta de sensibilidade e misericórdia é percebida em um relato do seu livro “Passagens”, no qual ele descreve com orgulho como encontrou moribundo um combatente rebelde que, cumprindo ordens suas, foi enviado desarmado à primeira linha de frente, para adquirir um fuzil, já que o havia castigado tirando-lhe o seu porque havia dormido em uma guarda. Isto ocorreu durante os enfrentamentos que tiveram lugar na cidade de Santa Clara.


Sua conduta para com os militares do regime antigo foi ainda mais cruel. Procedeu execuções sem processos judiciais e sem garantias processuais. Afirma Jaime Costa que o responsável pelas primeiras execuções na cidade de Santa Clara foi Guevara e não Ramiro Valdés.


La Cabaña, seu primeiro comando depois do triunfo insurrecional, foi o bastião militar onde mais ex-militares e colaboradores da ditadura derrocada foram executados. Segundo a jornalista Hart Phillips, do New York Times, foram “uns 400 nos dois primeiros meses”; e testemunhos do jornalista Tetlon do London Daily Telegraph, “às vezes funcionavam quatro tribunais simultaneamente, sem advogados nem testemunhas de acusação, chegando a se julgar, contemplando a pena capital, até 80 pessoas em julgamentos coletivos”. Tetlon relata que ele (Guevara) ordenou pessoalmente, entre outras, a execução do tenente José Castaño Quevedo, cujo único crime foi ocupar a direção do Birô para a Repressão de Atividades Comunistas – BRAC -, uma vez que no processo não se efetuaram demandas contra o tenente.


Apesar das inúmeras afirmações e investigações que concluem que em La Cabaña foram executados várias centenas de pessoas, dezenas sob a responsabilidade do próprio Guevara, o ex-sacerdote Javier Arzuaga, paróco de Casablanca da Ordem de São Francisco e que assistiu espiritualmente a muitos dos fuzilados, refere em seu livro “Cuba 1959: A Galera da Morte” que, “não houve mais de cinqüenta e cinco fuzilamentos em La Cabaña” entre janeiro e junho de 1959. Segundo Arzuaga, que teve com Guevara várias entrevistas, o comandante era um homem incisivo que desde o primeiro encontro lhe afirmou que em seus prédios, La Cabaña era o único que dava formação política, religiosa e ideológica a seus soldados e que afirmou que haviam usado os capelães na Sierra Maestra porque neessitavam deles, porém que nesse momento não era assim, e simultaneamente lhe advertiu que havia muito o que julgar e fazer pagar, e que para isso haveria um paredão.


O ex-sacerdote, que evidentemente sentia algum tipo de admiração por Guevara e pelo processo revolucionário, um sentimento muito normal na época, o descreve como um indivíduo de muitas facetas. Segundo refere, o primeiro era um idealista radical que estava disposto a transformar tudo ou eliminá-lo segundo o caso. “O outro, um Che obsesionado pela justiça igualitária que sem o menor reparo e sem se preocupar em absoluto pelos efeitos colaterais e as últimas conseqüências, irá aniquilando até reduzi-lo a pó, quando se lhe cruze o caminho, e pela justiça exemplarizante em cujo exercício a crueldade será um mal menor imprescindível” e o terceiro, um indivíduo que só pedia a alguém que fizesse o que ele também estava disposto a fazer.


Ele conta que as visitas de revisão de causa sempre eram presididas por Ernesto Guevara e que terminavam às vezes com algo mais que uma ratificação da pena de morte senão que lhe agregava, “a execução terá lugar esta noite”.


O padre Arzuaga, um homem muito bondoso, tratou de ajudar na medida do possível as pessoas que iam ser executadas e em seu livro há relatos realmente fortes porém, sem dúvida, o que melhor expõe a natureza violenta e sem piedade de Guevara foi o caso de Ariel Lima. Conta o padre que intercedeu em favor de Lima, 21 anos, que havia sido condenado à morte e que Guevara lhe disse que quem decidia esses assuntos era o Tribunal de Apelações. Afirma que presenciou a revisão da sentença que só durou meia hora, com a alegação de que fosse executado nessa mesma noite e que, terminada a sessão, Guevara caminhava pela rua cheia de pedras quando uma mulher correu e se prostrou ante ele; era a mãe de Ariel Lima. “Che deu-lhe a volta e uma vez do outro lado lhe disse: ‘senhora, lhe recomendo que fale com o Padre Javier que dizem que é um mestre consolando’. E dirigindo-se a mim, entre mandão e burlão, disse: é sua”. Conclui o ex-sacerdote escrevendo: “essa noite odiei o Che”.


Guevara era vingativo, não esquecia as ofensas porém só as cobrava quando estava seguro de ganhá-las sem conseqüências. Vários oficiais do exército rebelde confirmam as diferenças entre os comandantes Guevara e Jesús Carreras. O comandante Carreras enfrentou Guevara quando este chegou ao Escambray, a discussão foi muito forte, Carreras o desafiou e Guevara aduziu que entre revolucionários não havia que combater. Depois do triunfo da insurreição, Carreras foi perseguido por mais de dois anos até que foi envolvido na conspiração do também comandante William Morgan e foram executados os dois. Os comandantes Lázaro Asensio e Armando Fleites estão convencidos de que Guevara foi quem ordenou a execução de seu companheiro Jusús Carreras.


Como resenha interessante, pode-se destacar que em 1959 Guevara criou uma força subversiva na Bolívia através do embaixador cubano em La paz, José Tabares del Real. Este esforço desestabilizador estendeu-se até junho de 1961 e desdobrou-se contra o governo democrático de um político de forte aval revolucionário, Hernán Siles Suaso. Mais tarde tentou organizar uma revolução na Argentina para a qual se aliou com elementos peronistas. Este broto abortou quando as autoridades argentinas descobriram duas escolas de guerrilheiros e detiveram um instrutor militar cubano, José Ramón Alejandro. Posteriormente, a autoridades bonaerenses apresentaram documentos que mostravam que a Embaixada de Cuba em Buenos Aires era um centro subversivo que Guevara dirigia desde Havana.


Anos depois, através de Jorge Ricardo Masseti, fundador do Prensa Latina, Che organizou uma força guerrilheira identificada como Exército Guerrilheiro do Povo que, segundo alguns analistas, incorreu nos erros táticos que ele repetiria na Bolívia. Junto a Masseti, morto no Chaco argentino, - Che morreria no Chaco boliviano -, caíram dois oficiais do exército cubano que haviam sido homens de confiança de Guevara: Hermes Peña e Raúl Dávila.


Não resta dúvida de que Ernesto Guevara possuía uma imerecida reputação nos aspectos teórico e prático na guerra de guerrilhas, que Castro não tinha. Foi um dos propiciadores da Conferência Tricontinental de Havana, em princípios de 1966, que seria, segundo seus planos, o vetor para as revoluções que convulsionariam a América, a Ásia e a África.


Suas freqüentes e longas viagens pelo estrangeiro nas quais proferia incendiários discursos revolucionários, o foram convertendo em uma espécie de porta-voz da Revolução Mundial e seus contatos diretos com Ben Bella, Gamal Abdel Nasser, Sekou Toure, Joseph “Tito” Broz, Ahmed Sukarno e as cúpulas do poder na República Popular da China e Vietnã, acrescentavam seu prestígio de indivíduo comprometico com mudanças políticas radicais.


Uma anedota que Carlos Franqui conta em seu livro “Cuba, a Revolução, Mito ou Realidade”, reflete até que ponto Guevara acreditava nas medidas extremas como índice do progresso do projeto que defendia. Conta Franqui que durante uma visita à República Árabe Unida, Egito e Síria, Guevara perguntou a Gamal Abdel Nasser quantas pessoas haviam abandonado o país depois do triunfo de sua Revolução, ao que o líder egípcio respondeu: “Muito poucas”, ao que o guerrilheiro retrucou: “Isso significa que em sua revolução não aconteceu grande coisa; eu meço a profundidade de uma transformação social pelo número de pessoas afetadas por ela e que pensam que não têm lugar na nova sociedade”.


Entretanto, este homem que mataria e morreria por suas convicções, assume durante sua juventude uma conduta inexplicável. Nunca participou ativamente contra os movimentos fascistas e anti-judeus que existiam na Argentina, nem tampouco se vinculou aos que combatiam diretamente a ditadura de Juan Domingo Perón.


Apesar de sua condição de membro da Federação Universitária Buenos Aires, organismo dirigido por socialistas e comunistas, não leva vida de militante nem são conhecidos artigos ou discursos nos quais ele exponha suas opiniões sobre os problemas que seu país enfrentava naqueles dias. Em suma, não se conhece de sua parte ações contra os atos de força do governo de Juan Domingo Perón.


Nos primeiros meses de 1965, Guevara visita vários países africanos, entre eles a Argélia e a República do Congo, Brazzaville, e oferece a Massemba Debat seu apoio na formação e preparação das forças guerrilheiras que estavam se formando nesse país para atacar o antigo Congo Belga, que estava sob o comando de José Mobutu. A proposta de Guevara é aceita, situação que põe de imediato ao conhecimento de Fidel Castro que, sem duvidar, lhe facilita os meios e recursos necessários. Nesta viagem Guevara também oferece ajuda ao movimento independentista angolano, dirigido por Agostinho Neto.


Para Castro e o “Che”, esta colaboração se emoldura perfeitamente em seus projetos de desestabilização e subversão, que por sua vez era uma ferramenta a mais para aumentar o protagonismo político e a hegemonia da Revolução e de seus líderes.


A cruenta guerra africana se acentua com a partida de Guevara para o Congo com um contingente de 125 guerrilheiros, perfeitamente treinados e melhor armados, todos veteranos da luta insurrecional contra o regime de Fulgencio Batista. Segundo Jorge Risquet, membro do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, os internacionalistas cubanos no Congo só perderam seis homens, sem dar detalhes de quantos guerrilheiros africanos morreram sob o comando de Ernesto Guevara.


As forças cubanas chegaram a Kinshasa depois de atravesar o lago Tanganica. Seis meses mais tarde, em dezembro de 1965, Guevara regressa a Havana com o resto de seu contingente, decepcionado com as guerrilhas congolesas. De todas as suas fracassadas ações bélicas, a menos conhecida é a do Congo. Nesse país africano ele cometeu erros táticos e estratégicos que repetiria uma vez mais na Bolívia.


Porém, bem, para asseverar seu apostolado de violências, reproduzimos algumas de suas proposições:


A – Durante sua intervenção na Assembléia Geral das Nações Unidas, em 11 de dezembro de 1964, Guevara expressou: “Nós temos que dizer aqui o que é uma verdade conhecida, que sempre expressamos ante o mundo: fuzilamento, sim, temos fuzilado, fuzilamos e continuaremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta de morte. Nós sabemos qual seria o resultado de uma batalha perdida e os “gusanos” (Che foi a primeira pessoa a usar esta expressão, que significa literalmente “vermes”, ao referir-se a qualquer inimigo. Hoje, é um chavão usado pela Nomenklatura cubana especificamente em relação aos dissidentes cubanos, sobretudo aqueles residentes em Miami. G.S.) também têm que saber qual é o resultado da batalha perdida hoje em Cuba”.


B – “O caminho pacífico está eliminado e a violência é inevitável. Para conseguir regimes socialistas deverão correr rios de sangue e deve-se continuar a rota da libertação, mesmo que seja a custa de milhões de vítimas atômicas”.


C – “O ódio como fator de luta, o ódio intransigente ao inimigo, que o impulsiona além das limitações naturais do ser humano e o converte em uma efetiva, violenta, seletiva e fria máquina de matar. Nossos soldados têm que ser assim; um povo sem ódio não pode triunfar sobre o inimigo brutal. Há que levar a guerra até onde o inimigo a leve: à sua casa, a seus locais de diversão; fazê-la total. Há que impedi-lo de ter um minuto de tranqüilidade, um minuto de sossego fora de seus quartéis e ainda dentro dos mesmos: atacá-lo onde quer que se encontre; fazê-lo sentir-se uma fera perseguida por cada lugar que transite. Então, seu moral irá decaindo. Se fará mais bestial ainda, porém, se notarão os sinais do decaimento que lhe assoma”.






Fontes: “Ernesto Guevara, Mito e Realidade”, Enrique Ros.
“Passagens da Guerra Revolucionária”, Ernesto Che Guevara.
“Che”, Jon Lee Anderson.
“Cuba: Perfis do Poder”, Pedro Corzo.
Documentos, cartas, discursos e ensaios de Ernesto Guevara.


Pedro Corzo é jornalista e presidente do Instituto de la Memoria Histórica Cubana contra el Totalitarismo, que produziu, com a direção do cineasta Luis Guardia, o documentário sobre Ernesto Guevara intitulado: “Guevara: “Anatomia de um Mito”.



Artigo publicado originalmente por http://www.gentiuno.com

Antônio disse...

Nossa, tem um comentário que dá dois textos teus sobre o Che.
Como o Marquinhos disse, também eu não sabia muito a respeito dele. Gostei, vou atrás de mais informações.

Beijão!

Em busca de mim mesma!!! disse...

Realmente é muito bom poder contar com um espaço igual ao nosso, poder falar o que quer, pra quem quer que seja... Expressar tudo e não passar mal de tanta aflição... Obrigada pela atenção!!! O seu cantinho também também é legal... Bjs e vou voltar hoje à noite com certeza!!!
Janaína

Stefano disse...

Kara Kari

Valeu pela visita no meu blog (um dia farei outro, para política e cultura) e o comentário, de verdade.

Acho que você tem todo o direito de ainda sentir alguma admiração pelo Che, mas discordo quando você diz que a Cuba atual ("atual" nos últimos 40 e tantos anos) não é culpa dele...Che Guevara era um comunista convicto que, assim como o dono da Ilha-Prisão, acreditava que a solução de todos problemas sociais estava no regime adotado por genocidas da estirpe de Stálin(70 milhões de cadávares)e Mao Tse Tung (20 milhões de cadáveres).

Che participou juntamente com Fidel Castro da tomada de poder em Cuba. Como comandante de uma coluna, Che chegou a executar um subordinado que furtara comida. Sem defesa e sem apelações, o subordinado foi executado por sentir fome.

Che Guevara participava assiduamente do "paredón" cubano, ou seja, da morte de milhares de pessoas. Era conhecido entre seus convivas como um homem impiedoso e intolerante, chegando a matar um jovem chefe político simplesmente por discordar de suas posições.

Nomeado mais tarde encarregado do Banco Central Cubano, promoveu um verdadeiro desastre econômico no país, já que só entendia de guerrilhas e execuções. Fazia chantagens e ameaças a cidadãos que se recusavam a trabalhar no "domingo de trabalho voluntário", criado por ele próprio. Nunca é demais repetir e repetir de novo: Che foi o responsável pelo PRIMEIRO CAMPO DE CONCENTRAÇÃO DAS AMÉRICAS, onde eram jogados os perigosíssimos "inimigos da revolução": homossexuais, poetas, artistas, padres.

Poderia citar pelo menos mais uns 20 casos de crueldade vindos de Guevara, mas fecharei com uma frase atribuída a ele: "Adoro o ódio eficaz que faz do homem uma violenta, seletiva e fria máquina de matar". Muitos pseudo-intelectuais socialistas e comunistas que idolatram Che defendem que tudo que ele fez foi dedicado a um ideal. Curioso: podemos afirmar a mesmíssima coisa do sr. Adolf Hitler, que dispensa apresentações "ideológicas".

Abraços, Stefano

Reticências disse...

Estou passando por aqui, depois de uma ausência breve. Não vou entrar em uma discussão sobre Cuba com ou sem Che. Por hora, deixo aqui meu primeiro encontro com suas palavras. Eu tinha 4 anos. Fui visitar meu tio, um jovem de 18 anos. Quando me levou ao seu quarto, nada me chamou mais a atenção do q uma bandeira branca, com os dizeres em preto:"Aquí estamos. La palabra nos viene húmeda de los bosques cubanos. Hemos subido a la Sierra Maestra, y hemos conocido a la aurora, y tenemos nuestra mente y nuestras manos llenas de la semilla de la aurora, y estamos dispuestos a sembrarla en esta tierra y a defenderla para que fructifique."
Foi ai que meu tio virou e disse: Esse é Che.


Eu recomendo assistir "Che, Anatomía de un mito". Um documentário incrível.
Bjos