segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Apenas uma estória

Ela acordou, abriu os olhos e escutou o chuveiro ligado. Fingiu então que estava dormindo, até que ele fosse embora. Não o queria encontrar. Não depois da briga que tiveram ontem e das coisas terríveis que foram ditas. Queria poder nunca mais o olhar nos olhos, mas sabia que seria impossível.

Sabia também que as coisas iriam se ajeitar como sempre. Ou, pensando bem, há muito tempo que as coisas não se ajeitavam de verdade. Há muito que eles fingiam estar tudo bem, quando ambos sabiam que não estava.

Tentou se lembrar a última vez em que haviam ficado juntos sem dizer nenhuma palavra, sem que o silêncio os incomodasse, onde apenas a presença do outro já fosse uma ótima companhia. Tentou então lembrar quando o havia desejado como homem pela última vez. Mas foi difícil encontrar qualquer uma das respostas.

Começou a pensar nos últimos meses. Queria descobrir quando as coisas haviam começado a ficar estranhas, mas cada lembrança levava a uma outra, e quando se deu conta, ela já estava pensando no que havia acontecido há alguns anos. Perceber aquilo foi um choque. Não conseguia aceitar que as coisas estivessem difíceis há tanto tempo.

Como nunca havia percebido? Por que nunca havia tentado conversar, como sempre o fez? Não conseguia culpar ninguém, nem a si mesma. Sabia que ninguém tinha culpa, ou talvez o culpado fosse o tempo. “Talvez ele tenha outra”, ela pensou. Mas então, por que ainda estaria com ela? Por que não havia ido embora?

E, quando se deu conta, as horas haviam passado e logo ele voltaria para casa. Precisava tomar uma atitude. Pensou em arrumar as malas e dizer a ele que estava indo embora. Mas não era isso que ela queria. Lembrou-se de quando se conheceram, de como ela havia gostado dele logo de início. O quanto o desejava e sonhava com o dia em que, finalmente, ficariam juntos de vez.

Não! Não poderia deixar que as coisas terminassem daquela forma. Percebeu que ainda o amava muito. Caminhando para o quarto viu uma foto e reparou o quanto ele era bonito e percebeu que ainda o desejava como homem. Ainda o queria. Precisava concertar as coisas, e seria hoje. Ou ficaria tudo bem, ou tudo acabaria de vez, afinal, de que adiantaria continuar uma relação dessa forma, onde ambos só estavam sofrendo?

Foi para a cozinha, preparou um jantar especial com o que ele tanto gostava. Arrumou a mesa e ficou esperando-o com uma garrafa de vinho. No horário de sempre, ele chegou. Olhou a mesa arrumada e, sem entender a olhou. Ela encheu as taças, mandou-o sentar-se à mesa, ajeitou o que faltava e disse: “precisamos conversar”.

E então, ela começou dizendo que havia percebido que, há muito eles já não se entendiam. E o contou tudo o que havia pensado e lembrado durante o dia. Ele ouvia tudo atentamente, enquanto as lágrimas lhe escorriam os olhos. E, enquanto falava as lágrimas também a invadiram, não só por falar, mas por vê-lo chorando. Queria abraçá-lo e dizer o quanto o amava, mas precisava continuar a conversa até o fim.

- Eu queria saber o que nos aconteceu, o que anda nos acontecendo, pois, apesar de todas essas coisas eu ainda amo muito você. E você é o único a quem eu quero. O único homem que desejei mais que tudo, e que desejarei sempre. Mas, mesmo amando-o tanto, acho que não podemos continuar levando as coisas como elas estão. O que você me diz?

E assim ela disse tudo o que tinha a dizer e esperou ansiosamente até que ele dissesse alguma coisa, quando, finalmente ele enxugou os olhos, e falou:

- É, tenho notado que as coisas andam estranhas. Não sei o que nos aconteceu e, apesar de vir tentando arrumar essa bagunça, eu realmente não sei o que fazer. Toda vez que tento me aproximar de você eu acho que você não quer. Cada vez que eu tento dizer alguma coisa, eu penso que seria melhor não dizer nada. Mas é você quem eu amo, e amo muito. E também és a única a quem desejei mais que qualquer outra coisa na vida e não consigo, por nem um segundo, imaginar a minha vida sem você. Eu não sei onde erramos e nem como chegamos aqui, mas, se quisermos, acho que podemos começar de novo.

- Acho que começar de novo seria uma ótima idéia. Mas então, é melhor dizermos algumas coisas que precisam ser ditas, apenas para não cometermos os mesmos erros, não acha? E eu acho que, quando você tiver alguma coisa a dizer, diga, mesmo que ache que seria melhor ficar calado. Fale, para que possamos conversar e chegar a uma conclusão ou um entendimento e, quando achar que eu não quero que você se aproxime, pense apenas que você é um idiota por pensar isso e não espere mais nenhum segundo para chegar até mim.
.
Então eles começaram a falar coisas que nunca haviam falado antes. Disseram coisas que os incomodavam ou também detalhes que os faziam sorrir. Comentaram o quanto sentiam falta da companhia do outro, e de como não haviam percebi que o tempo os estava distanciando. Mas não importava mais, eles haviam aprendido a lição e jamais deixariam de conversar sobre qualquer coisa. Decidiram que, qualquer problema, por menor que fosse, deveria ser resolvido antes do final do dia.

E, após olharem-se nos olhos, eles fizeram um brinde ao novo começo, e se beijaram. Um beijo cheio de ternura, amor e muito, desejo. Algo que não faziam já há muito tempo. Aproveitaram aquela mesa tão arrumada, comeram aquele quase banquete e foram curtir a sua nova lua-de-mel.

E então, eles perceberam que, para manter um relacionamento, o mais importante é o diálogo. Pois, sem ele, o tempo é capaz de separar qualquer um. Quando não há conversa, o tempo juntos torna-se um martírio, e, até o silêncio torna-se ensurdecedor.


Kari Mendonça

11 comentários:

Katarine disse...

Falou tudo. O diálogo é o essencial. Pois se não dizemos o que não gostamos ou o que está nos incomodando, como o outro vai saber? Sim, as verdades doem, e muito, mas depois elas podem salvar um relacionamento, uma amizade, uma relação de irmãos, de pais e filhos.
Brigado pelo texto!
Bjos Kari e Feliz natal!!!

Biaaahhh disse...

tb acho...
tudo na base do diálogo eh melhor!!!
P.S.:passando ai pra desejar um felz natal pra vc!!!!
Beijinhus!!!!!!
=]

Auíri Au disse...

HUm....
quem seriam os personagens inspiradores da história??
hehehe

O silêncio as vezes incomoda..
Mais aqui vai meu barulho pra você:


Que o ano que virá traga muitas realizações e certezas para você!!!



Beijos natalinoss

Sinto que sei que sou: disse...

Que linda histria, da ate vontade de chorar...mas deix apra la, sem choros huhua

Ah como foi de natal Kari?
bjus

Mylene Ribeiro disse...

Kari

Pq tá sumida mocinha ?!

....

É as vezes até o amor, passa por momentos de tédio e na maioria das vezes isso acontece pela falta de conversa .

Acho que dialogar é essencial para o bom funcionamento de uma relação .

Bjos no seu s2 .

Marina disse...

Kari =D
Eu aprendi isso final do mês passado...
Sabe, as vezes a gente deixa as coisas chegarem ao extremo pelo simples fato de evitar uma conversa...
Realmente, o diálogo é algo fundamental para manter um relacionamento.

Bjos =***

® disse...

A intimidade é o chumbinho na relacao... vai envenenando aos poucos. Quando vc se dá conta, a relacao morreu.
Tem gente que acha que intimidade é sinal de amor ou de relacao saudável, muito diálogo etc e tal. Puro engano.

Libélula da Noite disse...

Oie!

Hum... Que bela história.. Alias, estória... hum...
Ta inspirada hein moça??
A conversa é sempre o melhor caminho...

=)

Bom restin de ano procê!
Bjus!

ALF disse...

Nem me fale...

Concordo. Falta muito isso mesmo.

bela história querida KAri. Tão amável como você.

MAs de alguém que transpíra amor, só poderia vir um texto desses.

Belíssimo.

;)

Beijos

Rui Caetano disse...

O diálogo se for sincero e aberto salva mundos, evita guerras, conquista grandes amores e paixões eternas.
Um Bom ano de 2008.

Candinha disse...

lindo lindo, kari! só vc sabe o qnto o diálogo fez e faz a diferença na minha vida, não sabe? ^^

ô saudade de tu, amiga! um beijãão! ;** Candinha.