sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Hoje! Um ano atrás...

Era uma quinta-feira. Acordei cedo. Meus pais já haviam saído e eu estava sozinha no quarto. Queria me levantar, ao mesmo tempo em que queria me esconder de tudo. De certa forma, eu sabia o que estava reservado para aquele dia e por isso não queria levantar. Sabia que seria um dia triste, só não imaginei que fosse tanto.

Voltei a dormir, achei que seria a melhor opção. Perto do meio dia minha mãe me telefonou, e eu deveria me arrumar, pois meu pai estava indo me buscar. Me arrumei rápido e logo estava pronta. Fomos em algum lugar que não lembro agora, e logo fomos encontrar com minha mãe.

Ela não havia almoçado, e eu sugeri que ela fosse com meu pai, pois eu poderia ficar ali. Ela, rapidamente disse que não, e ordenou que eu fosse com ele. Nós fomos, fizemos os pratos e nos sentamos. Enquanto comíamos, não conversamos muito. Não sabíamos o que dizer naquela situação.

Quando já estávamos acabando, o telefone tocou, era minha mãe. Já sabíamos o que ela diria e meu pai saiu correndo e me jogou a carteira. Uma parte de mim queria correr atrás dele, outra queria continuar ali. Mas eu precisava pagar o almoço, e deveria receber o troco, que não era mais de cinqüenta centavos.

Sim, eu poderia ter esquecido o troco e corrido, mas as minhas pernas não deixaram que eu fizesse isso. Rapidamente joguei na carteira e desci as escadas correndo. O meu pai estava no corredor ao telefone. Eu o olhei nos olhos, e ele sabia o que eu estava perguntando, assim como eu soube o que ele respondeu ao me olhar.

Entrei quase correndo no quarto, e lá estava a minha mãe, sentada numa cadeira em frente á cama, chorando. Eu olhei para a cama, sentei no colo da minha mãe e chorei desesperadamente como nunca. Ficamos intermináveis minutos ali, sem dizer nenhuma palavra, mas nos confortando mutuamente.

Foram longos os minutos a espera dos enfermeiros, dos aparelhos, até atestarem aquilo já havíamos sentido. E enquanto tudo era arrumado, todos pareciam querer me tirar dali. Eu lhes disse que já havia passado pelo pior, mas eles insistiram, até que eu lhes disse alguma coisa e finalmente desistiram.

E eu continuei ali. Sentada naquele sofá ao lado da cama. Eu a olhava atenciosamente. Eu prestava atenção a cada detalhe. Eu não queria perder um minuto sequer ao seu lado, apesar de saber que ela já não estava mais ali. Queria me despedir, mas não consegui. Droga! Eu não consegui lhe dar sequer um último beijo.

Lembro-me apenas do nosso último abraço, mas não do último beijo. E quando a tiraram do quarto, foi como perder o meu chão. Eu não queria que a tirassem de perto de mim, eu não havia me despedido ainda. Eu não havia dito o quanto ela era importante pra mim e nem o quanto eu a amava.

E de repente, as coisas pareceram ficar bem. Todos ao meu redor estavam conversando, telefonando e agindo como se nada tivesse acontecido. Eu peguei seus documentos, mostrei a quem me pediu e fiquei triste por todos estarem continuando o dia sem ela, como se fosse normal.

Não! Não é normal nenhum dia que passo sem ela. Esse ano que passou não foi fácil. Cada dia eu queria dar um telefonema, fazer uma visita, dar um abraço, um beijo e pedir um cafuné, mas ela já não podia me dar e nem receber. É! Antes de acordar, eu sabia que aquele dia não seria fácil, eu só não imaginei que fosse ser tão difícil.
.
E que eu fosse me lembrar tão detalhadamente dele um ano depois.


Kari Mendonça

11 comentários:

Hugo Simões disse...

Oi Kari! Muito triste isso, essa época também me tras lembraças ruins... tem coisas na vida que a gente nunca esquece..
Deixei um premio pra vc la no Rotineiro ok? quando puder passe la! Um beijao!

Hugo Simões disse...

Acabei de ver ali embaixo o premio! no proximo eu posto ele! vlw!!!
;D

Hugo Simões disse...

premio nao, declaraçao! muito obrigado mesmo! haha n precisa aceitar os 3 comentarios se nao quizer ok^?!
xD
beijaoo!!

Luciana * disse...

Nossa, realmente profundo. Com a suas descrição consegui imaginar todas as cenas e o seguir dos acontecimentos.

Tudo bem que não seja normal, não é mesmo. Mas as pessoas tem que continuar o dia, todos temos. Temos que continuar a vida, não é facil e nunca ninguem dirá o quanto é dificil, nós mesmo é que temos que perceber que, por mais que seja dificil, é inevitável e precisa ser superável.

Abraços carinhosos,

luciana.

Marcus Vinícius disse...

A gente, voluntariamente ou não, acaba gravando esses momentos horriveis na nossa cabeça. A minha mãe diz que viu os médicos desligarem os aparelhos do meu pai quando ele estava no hospital. Ela deve ter essa cena gravada na mente até hoje e acho que nunca mais vai esquecer.

Beijo, fica bem, tá?

Katarine disse...

Nem sei o que dizer.
Me emocionei. Só isso.
Vc é ótima, profunda. Maravilhosa!
bjos!!

Mylene Ribeiro disse...

Kari

Impresionante como algo que eu não vivenciei tomou forma com a sua descrição . Me comoveu . Bateu um aperto no peito . Um nó na garganta , sabe ?!

Acho q palavra nenhuma minha, vai mudar o q vc sente ou sentiu... mas isso é a vida !!!

Muitos beijos pra vc .

Luciana * disse...

e na minha cidade que não tem mar?
como é que faz? ahaha.
Tem rio pelo menos, ahaha.

::Lone Wolf:: disse...

Dizem que a pior dor é a de perder uma pessoa querida, para sempre. Nunca tive essa experiência, mas sei que é inevitável para todos. O importante mesmo é sempre deixarmos claro o quanto essas pessoas são importantes para nós, antes que seja tarde demais...
Lindo texto. Triste também.

Beijos.

∆٭♥∞

Sinto que sei que sou: disse...

Dizer que sinto muito não seria o bastante, pios sentir não a trará de volta, as pense nos detalhes do que viveu com ela, dos moemntos bons, da conversas e dos cafunes, entao a dor se transformará em alegria por ter vivido tudo isso antes dela ir...
Bjus
Fica bem :)

ALF disse...

Nossa, senti um a sensação tão debilitante agora. Sabe, emociona ler palavras que recordam um dia triste como esse. Deve ser doloroso mesmo as sensações. eu nem tenho ideia de como é, mas pelo menos acredito que devo imaginar um pouco. Coloquei-me no seu lugar e se fosse comigo...

ai... o choro extravasa pelas bordas do coraçõe. É dificel, mas certas coisas são inveitáveis. É bom mesmo aproveitarmos muito bem e vivermos bem para podermos ter certeza que valeu a pena. Pessoas especiais vão um dia mesmo...

É preciso sempre força pra continuar vivendo. Muita coisa não dá pra explicar, Deus não nos permite. Embora devemos aceitar e confiar.

Sabe, ainda assim, a presença dela estará firme em seu coração. Pelos momentos bons que passaram juntas e por toda a vida que andaram lado a lado.


Emocionante Kari,..

Beijos