quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

"Isto é virtual?"

Recentimente recebi um e-mail duma amiga. Não costumo abrir esse tipo de e-mail encaminhado e sempre os apago antes de tudo. No entanto, por algum motivo resolvi ler esse e-mail, e fico feliz em tê-lo lido, pois mexeu muito comigo.
Talvez você pense que e só mais uma estória idiota, talvez você se incomode como eu, ou talvez você fique indiferente, pra mim, pouco importa a sua reação.
O autor do texto, era desconhecido para mim, pois não veio especificando no e-mail, no entanto, recentemente fui informada da autoria.
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Kari Mendonça
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"Entrei apressado e com muita fome no restaurante.
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Escolhi uma mesa bem afastada do movimento, pois queria aproveitar os poucos minutos de que dispunha naquele dia atribulado para comer e consertar alguns bugs de programação de um sistema que estava desenvolvendo, além de planejar minha viagem de férias, que há tempos não sei o que são.
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Pedi um filé de salmão com alcaparras na manteiga, uma salada e um suco de laranja, pois afinal de contas fome é fome, mas regime é regime, né? Abri meu notebook e levei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim:
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- Tio, dá um trocado?
- Não tenho menino.
- Só uma moedinha para comprar um pão...
- Está bem, compro um para você.
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Para variar, minha caixa de entrada estava lotada de e-mails. Fico distraído vendo poesias, as formatações lindas, dando risadas com as piadas malucas. Ah! Essa música me leva a Londres e a boas lembranças de tempos idos.
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- Tio, pede para colocar margarina e queijo também?
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Percebo que o menino tinha ficado ali.
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- OK, mas depois me deixe trabalhar, pois estou muito ocupado, tá?
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Chega a minha refeição e junto com ela o meu constrangimento. Faço o pedido do menino, e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto ir. Meus resquícios de consciência me impedem de dizer. Digo que está tudo bem.
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- Deixe-o ficar. Traga o pão e mais uma refeição decente para ele.
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Então o menino se sentou à minha frente e perguntou:
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- Tio, o que está fazendo?
- Estou lendo uns e-mails.
- O que são e-mails?
- São mensagens eletrônicas mandadas por pessoas via Internet.
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Sabia que ele não iria entender nada, mas a título de livrar-me de maiores questionários disse:
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- É como se fosse uma carta, só que via Internet.
- Tio, você tem Internet?
- Tenho sim, é essencial no mundo de hoje.
- O que é Internet, tio?
- É um local no computador onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem tudo no mundo virtual.
- E o que é virtual, tio?
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Resolvo dar uma explicação simplificada, novamente na certeza que ele pouco vai entender e vai me liberar para comer minha refeição, sem culpas.
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- Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos pegar, tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer. Criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse..
- Legal isso. Gostei!
- Mocinho, você entendeu o que é virtual?
- Sim, tio, eu também vivo neste mundo virtual.
- Você tem computador?
- Não, mas meu mundo também é desse jeito... Virtual. Minha mãe fica todo dia fora, só chega muito tarde, quase não a vejo. Eu fico cuidando do meu irmão pequeno que vive chorando de fome, e eu dou água para ele pensar que é sopa. Minha irmã mais velha sai todo dia, diz que vai vender o corpo, mas eu não entendo, pois ela sempre volta com o corpo. Meu pai está na cadeia há muito tempo. Mas sempre imagino nossa família toda junta em casa, muita comida muitos brinquedos de Natal, e eu indo ao colégio para virar médico um dia. Isto não é virtual, tio?
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Fechei meu notebook, não antes que as lágrimas caíssem sobre o teclado. Esperei que o menino terminasse de literalmente 'devorar' o prato dele, paguei a conta e dei o troco para o garoto, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que eu já recebi na vida, e com um 'Brigado tio, você é legal!'.
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Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel rodeia de verdade, e fazemos de conta que não percebemos!"
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Rosa Pena
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8 comentários:

Pripa Pontes disse...

nossa kari, que texto!
valeu a pena tê-lo lido.

muitas vezes me pego pensando nessa "Virtualidade" que tanto glorificamos mas que existe para poucos.
aqui em casa mesmo teve-se muito esforço para comprar um pc, depois botar internet discada, e agora, há menos de um mês instalar banda larga.
mas eu paro pra pensar e me pergunto, e aqueles, que nem com sufoco irão ter a oportunidade de se conectarem com esse mundo moderno que é a internet?
dizemos que a internet é um espaço democrático, mas a verdade é que nem todos tem condição de acessá-la e se fazer ouvir nesse mundo. cada vez mais as relações e o mundo em si se virtualiza, se globaliza deixando de fora aqueles que vivem na miséria do mundo real e na virtualidade de seus sonhos inconcretizáveis.




Bjos.

Mylene Ribeiro disse...

Kari

Não preciso nem comentar ...

O texto é lindo, já havia lido há um tempo atrás, mas dessa vez bateu de uma forma diferente .

Obrigado por vc involuntáriamente me fazer pensar sobre a minha vida . As vezes eu reclamo tanto, mas tanto, sendo q eu tenho o suficiente pra sobreviver enquanto q existe pessoas q nem isso tem .

Ah eu ganhei uma estrelinha de uma amiga, e eu vou te passar pq eu acho q quem tem brilho próprio merece ter fãs, por isso sou tua fã ;)

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Então bjão mocinha .

Lilah disse...

Kari.

q texto lindo,
q bom q não o excluiu,
são dessas coisas que algumas pessoas chamam de coincidência, e eu chamo de destino.

a vida tem desses sinais.

beijo!

Sinto que sei que sou: disse...

Ultimamente esta escrevendo coisas pra acabar som um ser humano ne Kari..
è a triste realidade, mas nao devemos so pensar q é triste e deixar pra la, pena que nao podemos mudar muitas coisas...
As vezes da vontade de nao existir, de mudar de esfera de desapercer pra nao ter que fingir que tudo esta bem

Marina (www.princessmarina.weblogger.com.br) disse...

Nossa O.o
Eu achei lindo lindo o texto ^^
Sabe...deveríamos mesmo tentar arrumar o nosso mundo real...fazer mais por ele, sabe? =/
As pessoas fecham os olhos para tantas coisas =(
Eu gostei muito do seu blog ^^
Você escreve muito bem =)
E digo isso porque dei uma olhada nos outros posts =)
Bjos =***

::Lone Wolf:: disse...

Ah, sim... Conheço esse texto, já o recebi por e-mail também. Esse tipo de coisa sempre costuma atiçar meu idealismo...

Beijos...

∆٭♥∞

ALF disse...

Eu li essa história também do homem com o notebook. Já recebi. E de fato nos tofca profundamente e faz a gente perceber o quanto deficientes estamos perante às adversidades da vida e o quanto a gente desconhece da realidade. São coisas que ferem e que resultam em lágrimas incontidas.

Fico pesaroso e me corta o coração saber que na realidade as coisas são piores. O mundo me aflige...

;)

rosa pena disse...

Isto é virtual ?
(que cismaram de trocar o título para mundo virtual , realidade cruel, Virtualismo Insensato )

Rosa Pena


Entro apressada e com muita fome na confeitaria. Escolho uma mesa bem afastada do movimento, pois quero aproveitar a folga para comer e passar um e-mail urgente para meu editor.
Peço uma porção de fritas, um sanduíche de rosbife e um suco de laranja.
Abro o laptop.
Levo um susto com aquela voz baixinha atrás de mim.
— Tia, dá um trocado?
— Não tenho, menino.
— Só uma moedinha para comprar um pão.
— Está bem, compro um para você.
Minha caixa de entrada está lotada de e-mails. Fico distraída vendo as poesias, as formatações lindas. Ah! Essa música me leva a Londres.
— Tia, pede para colocar margarina e queijo também.
Percebo que o menino tinha ficado ali.
— Ok, vou pedir, mas depois me deixa trabalhar. Estou ocupadíssima.
Chega minha refeição e junto com ela meu constrangimento.
Faço o pedido do guri, e o garçom me pergunta se quero que mande o garoto “ir à luta”. Meus resquícios de consciência me impedem de dizer sim.
Digo que está tudo bem, que o deixe ficar e traga o pedido do menino.
— Tia, você tem internet?
— Tenho sim, essencial ao mundo de hoje.
— O que é internet?
— É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar. Tem de tudo no mundo virtual.
— E o que é virtual?
Resolvo dar uma explicação simplificada, na certeza de que ele pouco vai entender e vai me liberar para comer minha deliciosa refeição, sem culpas.
— Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos pegar, tocar. É lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer, criamos nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que ele fosse.
— Legal isso. Adoro!
— Menino, você entendeu o que é virtual?
— Sim, também vivo neste mundo virtual.
— Nossa! Você tem computador?
— Não, mas meu mundo também é desse jeito...virtual.
Minha mãe trabalha, fica o dia todo fora, só chega muito tarde, quase não a vejo. Eu fico cuidando do meu irmão pequeno que chora de fome e eu dou água para ele imaginar que é sopa. Minha irmã mais velha sai todo dia, diz que vai vender o corpo, mas não entendo pois ela sempre volta com o corpo. Meu pai está na cadeia há muito tempo, mas sempre imagino nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos brinquedos, ceia de Natal, e eu indo ao colégio para virar médico um dia.
Isso é virtual, não é tia?


ps: Esta crônica consta de meu livro preTextos, editora all print.Registrada na biblioteca nacional desde junho de 2003,circula na net com autoria desconhecida.