segunda-feira, 17 de março de 2008

A outra metade

Aninha nunca acreditou no amor. Sempre o considerou algum tipo de lenda criado apenas para juntas as pessoas e povoar a terra. Não conseguia compreender porque suas amigas ficavam tão melosas quando começavam a namorar. Achava aquilo tudo muito chato.

Prestes a completar seus 23 anos, ela nunca havia namorado ninguém. Achava que não poderia deixar de se dedicar aos estudos para se preocupar com alguém “altamente dispensável”, como ela costumava dizer. Já havia ficado com alguns meninos em alguns shows, mas nada além de alguns beijos e uns poucos amassos.

Não pense que faltavam pretendentes, Aninha era uma menina muito bonita, com seus olhos castanhos e seus cabelos curtos e sempre com um penteado moderno. Gostava de se vestir bem, e por isso aprendeu, aos 12 anos, a costurar. Todo mês comprava algumas revistas de moda e fazia para si mesma alguns modelos.

Sua vontade de criar acabou levando-a até a faculdade de moda, onde dedicava a maior parte do seu tempo. A outra parte, ficava para o trabalho em uma agência de moda e sua casa. Ela morava sozinha, pois aos 20 anos decidiu não depender mais dos seus pais e resolveu batalhar para viver.

No dia do seu aniversário, onde completaria 23 anos, Aninha conheceu Léo. À primeira vista ela gostou dele, aos poucos percebeu que ambos gostavam de algumas mesmas coisas e se indignavam da mesma forma com o mundo. Resolveram marcar um almoço e, dois dias depois se encontraram no shopping.

Aproveitando à tarde que ambos possuíam livre naquele dia, acabaram indo ao cinema e passaram um dia muito agradável juntos. Alguns passeios depois e Léo a pediu em namoro. Ela aceitou, afinal, sentia-se bem ao seu lado, gostava da conversa que tinham juntos e da saudade que sentia quando não se encontravam.

Um dia lhe perguntaram se aquilo que ela sentia não seria o tal do amor. Mas Aninha teimava em dizer que não. Não era amor, mas a cada dia ela se sentia mais envolvida com ele, queria sempre estar mais perto.

Preocupava-se se ele estava bem, se havia chegado em casa, afinal, “a violência é enorme nos dias de hoje”, ela costumava dizer. Se algo não saia bem durante seu dia, era ele o primeiro a quem ela recorria. Era para ele que contava suas conquistas, tristezas, angústias...

Em uma tarde de domingo, após uma pequena discussão, onde ela queria comer pizza, mas ele preferia pedir um sanduíche e ficar em casa assistindo filme, Léo a olhou nos olhos e disse, “está bem, vamos comer pizza, mas só porque eu amo muito você”.

Aninha ainda não havia ouvido tal declaração, mas se sentiu feliz em saber daquilo. Ela levantou do sofá, correu para os braços dele e deu um abraço apertado. E enquanto o abraçava, falou em seu ouvido, “também amo muito você”. Naquele momento ela descobriu que o amor não era uma lenda.

Depois daquele dia as coisas ficaram mais bonitas aos olhos de Aninha. Conseguir definir aquele sentimento lhe deu mais liberdade, apesar de não conseguir explicar o que sentia. Sim, era confuso e nem ela entendia. Decidiu não tentar entender e apenas viver como estava vivendo...

Em uma noite de sexta-feira, quando estavam na praia, admirando aquele lindo luar, ela o olhou de lado e perguntou, “sabia que o meu coração bate mais forte quando você chega?”. Ele sorriu, a abraçou e após um longo beijo disse, “não sabia. Mas saiba que a senhorita cuida muito bem desse meu coração, pois ele, assim como eu, é todo seu”.

E naquela noite, ela percebeu que o seu coração já não era mais apenas seu, era dele também. E ficou feliz em sentir aquilo. Era como se os dois corações, os dois seres e os dois sentimentos se completassem. E ela ficou feliz em ter descoberto o amor daquela forma, sentia-se mais completa, mais feliz. Sentia-se bem.

Era uma tarde de sexta-feira, Aninha estava trabalhando, mas Léo estava de folga e foi jogar futebol com os amigos. Era quase quinze horas quando o telefone tocou e era Lucas, o melhor amigo de Léo, dizendo que ele havia passado mal durante o jogo e o tinham levado para o hospital que ficava perto do seu trabalho.

Ela perguntou como ele estava e Lucas respondeu que ele estava sendo examinado e pediu para que ela viesse o mais rápido possível. Alguns poucos minutos depois e ela chegou ao hospital e, a primeira coisa que viu foi Lucas sentado com a cabeça baixa. Ela correu.

Perguntou o que havia acontecido, quando percebeu que ele estava chorando. Nesse momento, ainda sem saber de nada, as lágrimas escorreram por seus olhos, e ela perguntou desesperadamente onde estava Léo, ao que Lucas respondeu, “ele não resistiu”.

Enquanto as lágrimas escorriam, ela não conseguia reagir e nem pensar. Lucas a sentou na cadeira e disse que enquanto jogavam bola, ele passou mal, e, quando saiu para beber uma água, caiu no chão. “Foi infarto fulminante”, ele terminou. Mas ainda sem entender, Aninha só conseguia chorar.

Viu seus sogros chegarem ao hospital, mas não lembra de muita coisa daquele dia. Lembra pouco da manhã seguinte, quando acordou sentindo uma enorme dor no peito, e uma vontade de não sair dali nunca mais. Não conseguia se conformar em ir ao enterro de Léo. Ele não poderia estar morto. Não ele!

E sentindo uma enorme dor na alma, ela levantou, tomou um banho e foi até o enterro. Não conseguiu se aproximar do caixão. Não queria vê-lo ali, ou jamais conseguiria guardar todas as lembranças dos bons momentos que passaram juntos. Queria lembrar daquele sorriso torto que era o dele, daquela risada alta e daquele olhar meigo.

Saiu de lá e foi à praia. Aquele local onde passaram tantos momentos juntos. Onde namoraram tanto. E onde ela descobriu que o seu coração era dele e o dele dela. E naquele momento ela percebeu que o amor não era nenhuma lenda e ela havia descoberto isso através de Léo.

E assim como, naquela noite em que estavam juntos, ela descobriu que seu coração era também dele, ela decidiu então, que assim seria para sempre. Havia descoberto a maravilha que é amar, mas não estava disposta a amar mais ninguém, a não ser aquele que, um dia, a fez sentir-se completa.


Kari Mendonça

16 comentários:

Xande disse...

eita!
que história triste!
:o
mas a história do meu post tem um final ainda pior!

;*

Marcus Vinícius disse...

Guria, como é que tu consegue? São poucas as pessoas que conseguem escrever e manipular tão bem os sentimentos dos leitores...
Carência, e dor da perda, no mesmo texto.

Nota 10 pra ti. Muito bom.
Espero não ser baseado em fatos reais.

Beijão!

Anônimo disse...

Nao vou comentar, mas já comentando... assunto amor para mim está longe de sentimentalismos por um tempo
hehehe
então, fico por aqui
huhu

*saudade de vc
=/

;***

candy disse...

nao botei meu nome no comentario...
¬¬

::Lone Wolf:: disse...

O final foi inesperado. Tive que refazer o comentário que já estava pronto na minha cabeça. Eu iria dizer que é belíssimo tanto romantismo, porém, deixei de acreditar nisso. Mas ao vislumbrar o final, fico pensando no que a motivou a escrever estória assim...

Beijos.

∆٭♥∞

Querubina disse...

Oi
Adorei esta historia e lindissima, apesar de triste.
Tambem gostei muito do teu cantinho. Parabens.

Beijufas de Luz!!

Antônio disse...

Mas que momento!

Linda história, Kari, gostei mesmo. E olha que não sou o maior adepto de romances, hein? Mas o teu foi escrito de maneira tão limpa e verdadeira, que me prendeu do início ao fim.
E, mesmo com o final triste, fiquei contente por a Aninha finalmente ter a certeza do que é um grande amor...

Beijão!

Pripa Pontes disse...

"Naquele momento ela descobriu que o amor não era uma lenda."
adorei essa parte!

Uma estória triste...mas emocionante. Você é uma das que nos traz com seu texto o amor de mais bela face.

Só acho que é muito cedo para ela fechar seu coração a um só, por mais que ele tenha sido intenso às vezes temos a oportunidade de encontrar, mesmo depois de um bim tempo, outro que nos aqueça o coração novamente.
Será quando curaremos nossa dor e perceberemos que o amor não foi enterrado, mas vive sempre em todos os lugares e pessoas, em todos os momentos. Basta estarmos aberto para ele.

P.S: Ah depois posto a continuação do conto...são alguns capítulos, vou postando aos poucos para n ficar muito longo e cansativo.

E eu quero ver vcs!!!

Bjos.

Flavinha disse...

Triste, amiga. Mas quantas vezes a gente não se comporta exatamente assim, né? Deixa passar a chance das coisas que mudariam a nossa vida pra melhor... amor é pra viver. Vida é pra viver. Sonho é pra viver. E não existe isso de segunda chance; cada experiência é única...

Adorei o texto.

Beijo!

ALF disse...

Triste.
o pensamento esvoaçou por entre o ar e fiquei refletindo como são as coisas. Algumas coisas são inevitáveis. Essa descoberta do amor, esse envolvimento, esse grande afeto oferecido a alguém, ao amor, à pessoa que transluze nossos olhos, que balança o nosso coração. Foi uma história contada com destreza, de forma singela e bem escrita. Mostrou bem o sentimento, toda essa fluência de emoções sentida entre ambos.
Ela descobriu que o amor não é lenda... pena ter se separado tão cedo dele.

Essa história me despertou um ressentimento que não queria que voltasse. Porque as vezes precisamos "matar" pessoas que realmente não morreram. E o amor onde fica. Fica, mas ferido...

Beijos Ká
Te adoro mocinha

Ps: As vezes me pergunto se existirá um dia em que você não sensibilizará meu coração com seus textos.

Lizzie disse...

Kary,
Em primeiro lugar, quero pedir sinceras desculpas pelo sumiço. Tive alguns probleminhas na hospedagem do blog e só há pouco tempo consegui resolver por completo. Agora [graças aos céus!] está tudo bem, e tudo em ordem.
Também venho aqui p'ra convidar-te a ir lá no blog, comemorar comigo as 112.000 visitas, das quais fizeste parte e sou muito grata.
Passa lá pra comer um bolinho comigo, ok? Te espero.

Beijocas.

Marina disse...

Kari..que linda a história!
Mas é tão triste =( Descobrir o que é amor, e depois perdê-lo de uma forma assim...sem ter o direito de se despedir.
Deve ter sido muito difícil para Aninha...mas pela história, com certeza ela fez com que os dias de Léo fossem mais especiais e mais importantes ao lado dela. E disso ela deve se lembrar sempre. Ela descobriu o que é o amor, e viveu esse sentimento tão lindo em cada momento que lhe foi permitido.
Quem sabe um dia...em algum outro lugar...distante daqui...eles possam se reencontrar...e continuar essa bela história, do ponto onde pararam.
=***

candy disse...

Meniiina, tu acredita que eu liguei o pc só pra deixar um comentario pra vc e nao lembro mais oq era?!
O.o

Ah, valeu a pena sim... pelo menos fiquei mais viva!
hahahahaha
mas estou de volta a minha vida
\o/

*eiiiii, faltam qts dias?!??!?!?!
:D:D:D:D:D:D:D:D:D:D:D:D:D:D

;******

Respira-me disse...

aai, amor, amor.
sabe, eu era bem radical em relação ao amor. e hoje, depois de ter acabado um relacionamento eu acredito que o amor é o sentimento mais lindo do mundo. eu aprendi. e aprendi que é bom amar, e AMAR-SE.
mas estou muito triste pq perdi a quem acho que amava, ou então, alguém que era parte de mim, mas amei ou gostei tanto faz. eu senti.

:* que seus dias sejam ótimos Kari.

Zihh disse...

Texto muito belo Kari.

O amor é realmente uma coisa imprevisível, enquanto eu lia o texto, por um certo momento, eu acabei me identificando com Aninha. Eu sempre achei que o amor fosse uma lenda. Uma lenda da qual eu nunca iria querer saber se era real ou não. Eu cheguei a ter medo desse sentimento e hoje eu percebo o quanto eu estava errada em acreditar que o amor só existias nos contos de fadas e nas comédias-românticas.

Parabéns pelo texto.

=**

Enterufter disse...

Ai Kari...Por que você faz isso?...rsrsrsrs

Eu fico aqui com cara de bobo achando que tudo vai acabar bem e...pimba!

Aiai...adorei,amei esse seu texto...me levaram a refletir sobre algumas coisas.

Kari! tem presente pra ti.

beijo grande!