terça-feira, 4 de março de 2008

Ética de princípios

Já faz algum tempo que decidi fazer desse blog, algo apenas meu. Sem textos de outros. E, quando não tivesse nada interessante para escrever, nada escreveria. E não mais colocaria textos para "acumular" publicações. Acontece que hoje, eu estava com o word aberto, pronto para escrever um texto, quando resolvi passear pela UOL e encontrei a seguinte manchete: "qual ética está a serviço do amor?". Resolvi ler o que o Rubem Alves havia falado sobre isso, e afinal, o que seria isso? Ao acaber de ler, percebi que gostaria que mais pessoas lessem aquilo. Mas nem todos passam pela UOL, e nem todos lêem a Folha de S. Paulo, então, nada mais certo do que abrir uma pequena exceção no meu blog para uma boa leitura dos meus queridos leitores. Espero que gostem, tanto quanto eu...
.
Kari Mendonça
.
.
As duas éticas: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos -a que os filósofos dão o nome de ética contextual.
.
Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre os estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não vêem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe...
.
Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos vêem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...
.
Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo.
.
O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: "Doutor, será que eu escapo desta?"
.
Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer?
.
Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: "Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer..." Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações.
.
A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.
.
Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: "Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano -'A senhora breve estará curada...'-, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?" E ele dirá:
.
"Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer..." Aí, então, os dois conversarão longamente -como se estivessem de mãos dadas ...- sobre a morte que os dois haverão de enfrentar. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade.
.
Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem.
.
Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da Aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará?
.
Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: "Qual delas está mais a serviço do amor?"
.
.
Rubem Alves,

9 comentários:

Anônimo disse...

Olá, é a primeira vez que visito o seu BLOG; e o fiz num momento feliz.

A sua decisão sobre publicar o presente texto do Rubem Alves pode ser interpretado, sobretudo, como um ato de caridade. Uma vez que existe miseráveis de toda sorte. E no que tange a acesso ao JORNAL e ao UOL (que não tenho assinatura), assim, também, me considero.

Parabéns!

Almustafá
almustafa@bol.com.br

Priii! disse...

tem muitas questoes que sao otimas pros tais desinformados otimo texto e eu ainda aprendii coisas que nem sabia em
bjim

Dan disse...

Não li seu post hoje, mas to aqui pra dizer q voltei, tinha deletado o Retrato escrito, mas agora retornei...

bjus saudades de ti

candy disse...

Difícil comentar sobre isso. A pessoa fica meio perdida pra qual lado do muro se pula.
Eu, particularmente, sou a favor da vida. Quem olha de fora imagina que eu sou o contrário. Explico: sou a favor do aborto, da eutanásia (mas esse caso ainda estou em fase de análise), pesquisas com células-tronco e dizer a verdade sempre.

Vida não é somente estar vivo. É viver e não apenas o coração bater. Se o aborto vai trazer mais vida para a mãe (paradoxal, nao?!), aborto.
Se a eutanánasia vai fazer acabar com o sofrimento do enfermo e de sua família. Isso tb é vida e eu sou a favor.
Celulas-tronco eu nem comento pq é óbvio.
E falar a verdade não significa que eu vou chegar pra alguem e dizer: "é, realmente você é doido ou está a passo de ficar um. Doidinho da silva!"
(no meu caso psi, claro). Mas se a pessoa perguntar, é usar a sinceridade, sem piorar a situação e dando forças para a pessoa continuar e não querer desistir!
(eu diria que o caso dela não é tão simples, mas que ela tb não está louca e que hoje em dia há muitos medicamentos que podem ajudar, junto com o acompanhamento de um psicologo+psiquiatra).

*eeei,
como vc ta?
nunca mais te vi on!
:o
**tenho uma foto pra te mandar
uahuahuaah

;****

Marcus Vinícius disse...

A serviço do amor provavelmente é a contextual, mas também pro amor próprio. Assim a pessoa pode falar para a outra o que ela achar que não vai doer nem na outra nem em si mesma. Compliquei, mas acho que ficou compreensível.

E esses assuntos de células tronco e todos os temas que falaste, sou completamente a favor. A igreja quer que o mundo continue burro. Antes era afirmando que a terra era o centro do universo, agora isso. Esse tipo de decisão deveria ser sempre objetiva. Pro exemplo: isso vai fazer mais bem ou mais mal?

Beijão!

::Lone Wolf:: disse...

Moça... Eu até levei esse texto para a minha professora de Filosofia do Direito ler. Ela falou que a idéia apresentada nesse texto está em discussão, quanto à imutabilidade principiológica. É bastante interessante discutir as bases da ética, que sempre foram considerados princípios imutáveis.

Beijos.

∆٭♥∞

Alexandre Hallais disse...

Olá querida e doce Kari!

Volto justamente em um tema polêmico.
Bom, tenho minha posição sobre todos esses temas. Na verdade, minhas percepções são bem definidas e baseadas em alguns casos estudados, pois esses debates sempre estiveram em pauta em minhas graduação. Não vou criar polêmica, mas não vejo esse texto como uma forma de amor... bom, o que é o amor?
Se o Sr. Rubem Alves cita dois casos sobre ética do amor, o que eu responderia com minha cabeça voltada para a poesia?
Acho que essas éticas e rótulos que tentam dar ao amor é muito insignificante, quando olho pela janela e vejo que milhares de pessoas podem ser curadas através dos estudos com as células-tronco.

Que ética teríamos de tolir esse direito de um paciente com estado agudo de enfermidade renal?
Quem somos para deixarmos crianças morrerem por diabetes???

Sinceramente, eu não vejo isso como ética, mas sim falso moralismo e hipocrisia.

Bom, acho que falei demais. Cada um tem um opinião e a discussão é enorme, mas acho que deixei algo para refletirmos...

Beijos minha linda...

Marcela disse...

Kari, eu amo Rubem Alves. Tenho vários livros dele, pra mim ele é O Cara. O meu livro favorito, de cabeceira mesmo, é um livro dele, "Se Eu Pudesse Viver Minha Vida Novamente". Adorei essa sua iniciativa.. eu leio a Folha e o Iol, não corri o risco de não ver o texto, já tinha até visto, mas achei magnífico vc dividir isso conosco.

Ó, também queria agradecer por toda a doçura que me fez sentir nesses dias difíceis, viu?
Eu ia mesmo parar de escrever, estava decidida. Mas foram tantas coisas boas no meu blog, tantas amizades, e tantas oportunidades, eu não podia me desvencilhar disso e querer continuar sendo feliz. Impossivel.
Muito obrigada mesmo, vc é uma jóia!

Beijos beijos e beijos!

ALF disse...

o amor está acima de qualquer ética. Ele é a própria ética. ao meu ver, o ser humano ainda não consegue mensurar de verdade a função ética do amor. Essas discussões apenas se encontram nas esferas terrestres. Apenas o homem é capaz de escolher o que fazer consigo mesmo. É uma premissa alternativa, mas é.
Ele apenas comenta casos de ações propriamente humanas. O amor de fato independe disso.
Certas decisões podem frustrar a gente, mas nem tudo na vida podemos entender racionalmente. O amor não se entende. Da forma como pensamos, a alternativa para o amor pode ser outra. Aí então que vem à mente essa dúvida.
O que fazer?

o destino cuida disso...

;)

Beijos