quarta-feira, 9 de abril de 2008

Um relato pessoal

A vida é algo "complicado" de se viver. É preciso ter "boa vontade" ou nunca se sairá da "estaca zero". Eu sou uma pessoa que costumava dizer que não aprendia com os erros alheios, gosto de cair, sentir a dor, para poder me levantar mais forte. Mas a vida acabou querendo me ensinar sem precisar cair. Não foi uma maneira fácil de aprender, mas digamos que foi valiosa.
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Cresci arrodeada de pessoas ganaciosas, daquelas que vivem para o dinheiro, para juntar, obter propriedades e jóias. A minha avó era assim. Passou a vida inteira vivendo para o trabalho e para o dinheiro que recebia. Dizia que, ao se aposentar, aí sim, aproveitaria a vida. Mas ela não sabia que a vida também é traiçoira, e a sua aposentadoria acabou sendo forçada devido a um câncer. E o câncer acabou tomando-lhe os três últimos anos de sua vida e, ao invés de aproveitar a aposentadoria "vivendo", "aproveitou" lutando pela vida.
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Não foi fácil ver aquela mulher tão forte, sempre tão decida desistindo de viver. Não foi fácil ouví-la pedir a Deus que trocasse a sua vida pela de seu neto, que também estava doente. Não foi fácil vê-la morrer com o passar dos dias, mas confesso que foi uma verdadeira lição que levarei por toda minha existência.
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Nos dias que passou no hospital, poucas foram as visitas que recebeu, e isso se deu, por nunca ter procurado e nem cativado amigos. Os "amigos" que tinha eram apenas ligados a algum interesse. Não sabia o que era amizade, o que era a mão de um amigo ou um ombro acolhedor. Nunca fora de 'sair com as amigas', preferia ficar em casa, assinstindo a novela.
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Jóias? Ela tinha demais. Inúmeras. Jóias que nem sequer lembrava a existência, mas as tinha, e isso a fazia sentir-se bem. O seu guarda-roupas era enorme e cheio dos mais variados modelos, mas as roupas que usava eram sempre as mesmas, as que ficavam em uma pequena parte daquela imensidão. Os produtos de beleza também eram em grandes quantidades. Alguns com a data de validade vencida a anos e que sequer foram abertos. Coisas ela tinha, muitas, mas parece que ela não sabia ser e nem viver.
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Quando morreu, não teve oportunidade nem de escolher a última roupa, a minha mãe o fez. O sapato também. Lembro perfeitamente daquela roupa verde, sempre usada em ocasiões especiais. E por falar nisso, ainda hoje me pergunto se aquela foi ou não uma ocasião especial. Mas penso que sim, ela jamais gostaria de ser enterrada com algo 'simples'.
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Não gosto de me aproximar do caixão, nunca gostei. Quero sempre levar boas lembranças dos que se foram. Lembrar de seus sorrisos, suas piadas e naquela vez não foi diferente. Não me aproximei, mas não consegui não observar de longe.
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Lá estava ela, deitada, sem nem saber quem a olhava. Reparei que não estava com nenhuma jóia. Nenhuma. Inclusive a sua aliança. Não a deixaram levar nem a aliança! Quiseram prendê-la aqui, para ficar 'jogada', sem dona. Nenhuma outra das suas tantas jóias foram com ela. As suas propriedades, aquelas que lutou tanto para obter, ficaram por aqui, também sem dono e sem seus cuidados.
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E foi ali, naquele momento, quando o caixão estava sendo abaixado para dentro da terra, que pude perceber o quanto perdemos da vida. O quanto a deixamos de valorizar. Perdemos tempo querendo, tendo, e esquecemos de ser quem verdadeiramente somos. De valorizar quem precisa de valor. Valor esse que deve ser dado as pessoas, e não as coisas. Não adianta valorizar coisas, pois elas jamais se sentirão valorizadas.
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Quando fazemos um sacrifício por alguém, não fazemos para sermos 'vangloriados', mas sim por querermos, por nos sentirmos bem desta forma. Mas sabe, é sempre bom ser valorizado por aquilo que se faz. E não é preciso que seja dito com palavras, mas ao menos com ações. Valorizar as pessoas, o que elas são e o que fazem, estreita os relacionamentos e torna as pessoas mais próximas. Mas, por algum motivo, tenho notado que não há interesse em aproximação.
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As pessoas tornaram-se cada vez mais egoístas. Só querem ter. Só querem para si. E esquecem-se que nada levarão dessa vida. Naquele buraco, em baixo a sete palmos da terra, não cabe mais nada, apenas você (ou nem você, só o seu corpo) e o seu caixão (aquele que você também não poderá escolher).
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E é por isso que resolvei escrever, para botar pra fora algo que a muito aprendi e que não acho que deva ficar guardado comigo.
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Kari Mendonça

12 comentários:

Antônio disse...

De todo o teu texto, eu discordo apenas da primeira frase: "A vida é algo complicado de se viver."

Discordo, porque acho muito fácil viver. Ao longo do texto, tu deixou isso tão claro! É facílimo viver, desapegar-se de valores materiais e valorizar as pessoas especiais. Quem complica, minha amiga, somos nós mesmos, criando confusões e projetos faraônicos, confundindo sucesso com grandeza.

Ainda assim, considero muito fácil viver, bem como não é difícil perder a vida. Basta um passo em falso, e o mundo te engole. Portanto, ainda que fácil, viver requer atenção e dedicação. Mas, para quem carrega bons sentimentos no coração, isso não pode soar como dificuldade...

Beijão!

Candinha disse...

tu não tem noção do tanto de tempo que que eu tô querendo falar ctg, tu n tem noção, kari! ha semanas q eu tô doida pra te ligar, mas n tenho como.. problema de tempo ($$), sabe? =P liga pra mim? ficar sabendo das novidades pelo blog é tão desesperador.. =P ôô kariroca, a gnt PRECISA marcar alguma coisa!

ei ei, saudade! beijo enoooorme, Candy. =*

Katarine disse...

O que vou dizer depois de tudo o que disseste? Apenas que concordo com tudo, bom, concordo com o Antônio tb. Somos nós que complicamos nossa vida. E a cada dia penso mais nisso. No quanto estou complicando uam cosia muito fácil: viver!
Valeu pela palavras maravilhosas e por não guardar tudo isso só pra vc.
bjos!!

Mayara disse...

Realmente, disse tudo!
As pessoas não percebem que quando forem embora, deixarão as coisas mateirais aqui.
Infelizmente, muitos não sabem disso.

Muito lindo o post!
Parabéns!

beijos!

candy disse...

Ain...
vou comentar nao
(isso ta ficando repetitivo... não pense que não quero comentar, viu?)
é pq lembrei da minha avó... por mais que daqui a pc faça um ano, ainda é tudo muito recente para mim. A parte que vc disse do caixão baixando... essa foi uma das piores partes.
=/
:(

;***

João Mendonça Filho disse...

Karina.

Parabéns por tudo que você escreveu e que também me ensinou a ver a vida de outra maneira, ou seja, amar pessoas e não coisas. Sou testemunha de tudo que foi relatado e posso confirmar nos mínimos detalhes.
Após tomar conhecimento de que um(a) Canalha, Safado(a)se escondeu atrás de um anonimato para tentar nos ofender,escrevendo coisas que com certeza deveria se encaixar ezatamente na mãe dele(a).
Como sou homem e assumo o que faço, diferentemente deste(a) COVARDE, assinarei este comentário, informando a este(a) anônimo IMBECIL, que estarei sempre a disposição para tratar deste assunto, CARA A CARA.

JOÃO FURTADO DE MENDONÇA FILHO

Isabel disse...

Olá boa tarde!!!
Gostei bastante do seu texto e gostaria que se pudesse me enviar por email o texto, pois meus alunos estão trabalhando relato pessoal e a sua escrita é agradavel e muito boa!!!
Gostaria que me desse a permissao para trabalha-lo em sala de aula.
Atenciosamente

Ana Paula Silveira Balzani
Janauba-MG

anabaixinh@bol.com.br

Vivi disse...

Olá!
Adorei este relato. Você escreve muito bem. Sou professora e gostaria de trabalhá-lo com os meus alunos. Você autoriza? Pode me enviar este texto?

Desde já agradeço
Vi
vivianeregilio@hotmail.com

edinho disse...

Ola estou fazendo um trabalho sobre relatos pessoais e se você puder me ajudar respondendo algumas perguntas ficarei agradecido

Kari disse...

Olá Edinho, ficarei muito feliz em te responder, mas você não colocou nenhuma forma de entrar em contato. O meu e-mail é kari-mendonca@hotmail.com.

Abraço

davydesmeraldino321 disse...

que legal

Katia Barduche disse...

Gostei de te conhecer...