terça-feira, 10 de junho de 2008

O sentimento de culpa

Trabalho feito pra faculdade, mas achei interessante colocar por aqui. Espero que gostem! Beijos!
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Karina Mendonça, 19, culpa-se todos os dias por não ter dito a sua avó o quanto a amava. Pedro Henrique, 22, culpa-se por não ter dado em cima de uma amiga de quem gostava, mesmo não faltando oportunidades. Já Daniela Santana, 23, culpa-se quando compra algo que sabe ser desnecessário ou quando come algo que engorda. Mariana Carline, 23, sente a culpa quando lembra que não ouviu a sua família em relação a um relacionamento com um homem casado.

Inúmeros são os motivos quando a culpa está envolvida. Alguns mais sérios, outros considerados banais. Alguns a desprezam, mas a culpa existe e a maioria das pessoas a conhece bem. Mas a culpa não é um simples sentimento, ela pode trazer sérias conseqüências e nem sempre agradáveis. De acordo com o psicólogo Gerson Abarca, “a culpa é um dos sentimentos mais destrutivos para a mente humana.” E, também de acordo com ele, é ela um dos grandes fatores que levam a depressão.

A culpa está presente em todos nós. Se o resultado da prova não foi bom, tendemos a nos culpar, pois deveríamos ter estudado mais. Se sofrermos um acidente, nos culpamos por não ter “previsto” o acontecido. E é esse “acúmulo” de culpas que leva a depressão. O Dr. Gerson chama esse acúmulo de “limbo” e fala que, quando não se tem espaço para a fantasia, com o tempo “cria-se desta forma um limbo, uma camada ou barreira que impede a transição entre a fantasia e a realidade. Ano após ano, a mente reage com o sintoma da depressão.”

É preciso criar uma fantasia para seguir com a realidade, ou será impossível criar estímulos para seguir em frente. E, quando se decide não seguir, a depressão aparece, aos poucos e de uma forma lenta. É por isso que o Dr. Gerson fala que devemos “encontrar o melhor caminho” entre a realidade e a fantasia, pois fantasia em excesso também é prejudicial.

Mas a culpa não causa apenas a depressão, mas também o remorso. De acordo com Luis Kancyper, a definição de remorso seria, “num pesar interno, o qual produz na alma, o ter realizado uma ação má. Tratar-se-ia de uma inquietude que desperta a memória de uma culpa, crescida clandestinamente na obscuridade. Esta culpa põe em evidência o acionar de um castigador interno, que cumpre as suas funções de tortura no próprio sujeito. Essa tortura pode ocorrer de forma alternada ou permanente.”

A avó de Karina, 19, morreu há quase dois anos e, até hoje ela lamenta não ter lhe dito o quanto era importante em sua vida. E o remorso existe, e Karina tem consciência de sua existência, pois, de certa forma, se tortura por isso sempre que pensa na avó. Da mesma forma Pedro Henrique, 22, que hoje estuda na França, mas sempre que se envolve com alguma garota, lembra daquela com quem tanto quis, mas nunca se envolveu.

A culpa ou o sentimento de culpa também se fazem presentes de forma inconsciente, como descreveu Freud. No caso da Daniela, 23, por exemplo, que, mesmo sentindo-se culpada mais tarde, ainda assim compra as coisas desnecessárias e come o que engorda. Ou seja, a sua culpa não é consciente, pois, se fosse, ela não compraria por saber do sentimento existente, ou, que viria a existir.

O remorso foi bem descrito por Freud, em 1924, quando disse que, “o remorso não seria monocausado, isto é, além da existência do sentimento de culpa, existiria também uma exigência interna de manifestar um comportamento auto-punitivo e repetitivo, o qual estaria a serviço da necessidade de padecer de um sofrimento de cunho masoquista.” É por isso que, o “culpado” sente uma extrema necessidade de “pagar” pela culpa, seja como for. É o caso de pessoas com anorexia que, por sentirem-se culpadas por comer, acabam provocando o vômito, como uma forma de auto-punição.

Tovar Tomaselli fala que “o remorso originado pela culpa, está relacionado com a memória de perda da marca traumática, que deixa uma ação condenável, pela qual o superego reclama, mediante o sentimento de culpa, um castigo implacável.” Sendo o superego algo que está ligado às proibições, autoridades e limites. Ou seja, o sentimento de culpa pode levar a destruição do indivíduo, não apenas psicológica, mas também física, quando esse não suporta o “peso”.

A culpa em si também pode ser classificada, como o fez León Grinberg que a classificou em persecutória e depressiva. A culpa persecutória é aquela relacionada ao ressentimento pelo objeto e pelo ego apenas. Já a culpa depressiva está ligada ao ressentimento e ao remorso, onde existe a preocupação pelo ego, pelo objeto, e existe também a nostalgia e a responsabilidade pelo acontecido.

No entanto, a culpa também pode ser vista como algo bom ou necessário. O psicólogo Antônio Carlos Alves fala que ela pode ser um “freio contra os instintos destrutivos.” Ele pensa que a culpa deveria ajudar apenas para a percepção de um erro ou sinal de exagero, mas nunca uma forma de auto destruição.

Dessa forma, podemos perceber que a culpa não é um simples sentimento. É algo que existe, de fato, em todos nós, das mais variadas formas e dos mais variados pontos de vista. A culpa pode até existir, vai depender do que você fará com ela, pois, ela é capaz de destruir aquele que a ignora ou que não aprendeu a conviver com sua “existência”.


Kari Mendonça

Fontes:

6 comentários:

Candy disse...

Ai, Kari, adorei o texto!!!
(aliás, passaria fácil como um texto da area psi)
Culpa é um 'tipo' de sentimento que sempre vai existir em algum momento, mas como qualquer outra 'coisa', em excesso é prejudicial. E tb a forma como vc vai lidar com essa culpa é que vai definir como vai ser dali pra frente.

Eu não tinha lido seu post anterior. Amiga desnaturada (eu).
hehehe
Eu acredito que passa sim. Nem tudo vai passar totalmente sem deixar marcas (melhor falando, nada passa sem deixar marcas, mas enfim...), mas como eu disse no paragrafo acima, oq vai dizer como vai ser o futuro é a forma como vc reage a ela.
E é tão legal qnd a pessoa ve outra desse jeito, recuperada e feliz né?
(eu me imaginei como essa sua amiga, sabia? mal num dia e no outro já irradiando felicidade hihih).
E pra terminar, já diria Lulu "Tudo passa, tudo SEMPRE passará...".


Boa semanaaa, amiga!
\o/
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Adriano DiCarvalho disse...

Primeiro começar dizendo que certamente você não deve se sentir culpada por não ter feito um bom trabalho!rs Este documento é primoroso. Estimo que tenha recebido uma ótima nota por ele! Parabéns!

Quanto ao meu humilde e amistoso comentário, só tenho a dizer que sempre soube da existência da "culpa" em nós, mas que quando descobri que ela feria e ardia enquanto eu não sabia o que estava acontecendo dentro de mim, decidi estudá-la e decifrá-la afim de combatê-la. Confesso que depois de muito ler, de muito ouvir sobre, percebi que "ela", além de implacável, era também invensível. E que a única forma de combatê-la era a prevenção. E desde então, tenho tentado andar na linha, me autoconhecer cada vez mais, respeitar meus limites e meu caráter. Desta forma então, consigo afastá-la de mim por um bom tempo! Até que vem um novo erro e eu me sinto culpado! Mas agora, depois de tudo, é bem raro isso acontecer. Mas acontece, fazer mais o quê?

Camisinha no consciente pra preservar o inconsciente!rs

Bjao.

Antônio disse...

Maravilha de trabalho! Meu comentário seria exatamente o que diz no último parágrafo, mas o texto tá tão completo, que dá dó querer acrescentar algo. Vai tirar 10!

Beijão!

Flávia disse...

Muito interessante mesmo esse artigo sobre a culpa. A gente sempre sabe o que nos faz sentir culpados, mas raramente para pra pensar no quanto essa culpa afeta a nossa vida. As atitudes auto-punitivas vão surgindo quase inconscientemente e noa agarramos a elas meio sem enteder porquê. Esquecemos que as culpas existem para serem expiadas, e que o auto-perdão também é um dom a ser praticado.

Adorei mesmo.

Beijos ;)

Lilah disse...

é capaz de destruir aquele que a ignora ou que não aprendeu a conviver com sua “existência”.

a culpaa...
eu sinto culpa,
pode acrescentar ai,
Marília,17, sente culpa de tudo que não faz.

Érica disse...

O sentimento de culpa sempre vai existir, porque é algo inerente a gente. E quando esse sentimento surge não é porque necessariamente fizemos algo que o mereça e sim porque ele esta na nossa cabeça, como tantos outros sentimentos, que se espalham, se confundem, mas nunca se misturam.
Arrasou amiga. Tô orgulhosa.
beijos.