sábado, 30 de agosto de 2008

Era uma vez um sorriso

Aninha era uma menina bonita. Não era de muitos amigos, mas, os amigos que tinha, eram dos bons. Normalmente as pessoas nunca gostavam dela, principalmente quando a viam pela primeira vez. Era seu jeito tímido, que acabava sendo confundido com “raiva”. Quando estava num lugar onde não conhecia ninguém, ela ficava na dela, no canto, mas as pessoas nunca entendiam isso.

Queriam que ela ficasse falando com desconhecidos para conhecê-los, mas era difícil fazer isso, quando a timidez tomava conta do seu ser. E era por isso que Aninha era vista como “a chata”. Mas, quando alguém resolvia passar por essa barreira e acabava conhecendo-a melhor, descobriam que, por trás daquele rosto sério, existia uma pessoa ótima.

E, era só para aqueles amigos, apenas os que resolviam derrubar a barreira virtual que existia, que Aninha mostrava seu sorriso. Eram poucos os que o conheciam, mas, até eles, não o viam com tanta freqüência. Era um sorriso bonito, sempre sincero, mas tinha um pequeno “defeito”, era torto. Ou “tronxo”, como chamavam algumas de suas amigas. Mas, ao invés de considerar defeito, ela costuma dizer que era seu “charme”.

Na vida de Aninha, as coisas pareciam nunca ter graça. Não era qualquer piada que a fazia sorrir, e nem qualquer comentário. Seu sorriso era como os talheres do casamento dos seus pais, só são usados em ocasiões especiais. Ela sabia que não era certo agir assim, mas não conseguia fazer de outra maneira.

Por várias vezes tentou usar aquele sorriso, apenas para satisfazer alguém, mas pareceu tão falso... Que ela nunca mais tentou. Era difícil sorrir quando falavam alguma besteira. Mas o engraçado é que, ás vezes ela sorria para o que muitos consideravam uma besteira tremenda, mas oras, quando ela achava engraçado, era suficiente para sorrir. E sorria mesmo. Da forma mais boba e mais gostosa.

Aninha gostava de seu sorriso “tronxo”. Gostava de pensar que, ao sorrir, as pessoas o veriam, apesar de, poucos já terem reparo no “detalhe” daquele sorriso. Mas, o que ninguém sabia, é que ela tinha um problema na boca. Seus freios, tanto o superior, quanto o inferior, estavam no lugar errado. Estavam, ambos, puxando sua gengiva e assim, deixando seus dentes desprotegidos.

Quando percebeu o problema, ela logo operou a parte superior. Deixou para fazer a inferior depois. Na hora da rápida cirurgia, a dentista lhe informou que seu beijo, por exemplo, ficaria um pouco diferente. Mas isso nunca pôde ser comprovado, pois não havia quem a tivesse beijado antes e depois. Os anos passaram e ela acabou “esquecendo” da parte inferior da boca.

Mas, o freio não parava de lhe “puxar” os dentes, e o dia de retirá-lo chegou. Fez a cirurgia, doeu um pouco. Tomou remédio. Passou uns dias sem comer. Voltou a comer normal, mas ainda falava com dificuldades. Até o dia em que conseguiu comer e falar normal. Até soltar beijos já conseguia. E foi quando, na frente do espelho, resolveu sorrir.

O choque foi inevitável. Não era ela na frente do espelho. Não! Não podia ser! Cadê o sorriso? Cadê aquele riso “tronxo”? Chamou sua mãe, perguntou a ela se havia algo diferente e, para sua tristeza, ela disse que sim. Seu sorriso estava diferente. Ainda “tronxo”, um pouco, mas diferente. Sentou-se no vaso sanitário (era o local mais próximo) e ficou, por alguns instantes, pensativa.

Perguntou-se como seria a sua vida dali para frente. É como se os talheres do casamento tivessem se transformado naqueles Tramontina com o cabo de plástico que se usa todos os dias. O sorriso havia perdido o “charme”. Já não havia mais motivos para escondê-lo de qualquer um. Ficou triste.

Após alguns dias sem saber o que fazer, resolveu que, não importava o que tivesse acontecido com seu sorriso, ele continuava sendo seu e, por isso, deveria continuar sendo mágico e “tronxo”, aos seus olhos. E, assim continuou Aninha, com um sorriso diferente, mas nunca deixando de ser único.


Kari Mendonça

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

10 coisas que eu odeio em você

Odeio quando você não me responde e como ignora coisas que eu falo.
Odeio quando você diz que está tudo bem e não está.
E odeio sua organização tão igual a minha.
Odeio seu jeito chato igual ao meu e como consegue ler minha mente.
Eu odeio tanto isso em você, que até me sinto doente.
Eu odeio como está sempre certo.
E odeio quando você vai embora e me deixa falando sozinha.
Eu odeio quando me faz chorar com um poema, e mais quando me faz querer ir praí.
Eu odeio quando não está por perto, e o fato de não me ligar.
Mas eu odeio principalmente, não conseguir te odiar.
Nem um pouco, nem mesmo por um segundo, nem mesmo só por te odiar.
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Kari Mendonça

Inspirado no filme "10 coisas que eu odeio em você", com algumas modificações....

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Conversa pra passar o tempo

- Você já amou?
- Por que a pergunta?
- Oras, apenas queria saber se você já havia, de fato, amado alguém.
- Quando você fala “amado alguém”, você se refere ao amor romântico, certo?
- Sim, claro!
- Tá! Então me fala se você já.
- Oras, eu perguntei primeiro.
- Opa! Senti uma certa tristeza no seu olhar. Das duas uma, ou você nunca amou, ou está querendo saber se está amando.
- Aff. Que droga isso. Afinal, você já amou ou não?
- Já! Já amei sim!
- E como você sabe que amou?

- Ah! Mas não se sabe que se ama. Apenas ama-se e pronto. É fácil saber quando se está amando. É quando, acima de tudo, você não consegue explicar o que sente. E você só faz sentir, cada vez mais e mais forte. Quando cada beijo é dado como se fosse último e cada “oi” é recebido com uma enorme vontade de não precisar de um “até logo”. É quando, de certa forma, você sai de si para fazer parte do outro. Quando você, finalmente, se sente “completa” de todas as formas. É engraçado, mas é quando você se sente a pessoa mais boba do mundo e tudo o que você quer é ver um sorriso no rosto amado. Quando você se sente uma completa incapaz quando não pode fazer nada, e quando as suas lágrimas escorrem só por não conseguir suportar a dor de vê-lo chorar. É quando nem a raiva consegue diminuir o que se sente. Amar... Ah! Amar é tão bom, tão gostoso... É quando você perde o sono pra pensar no outro, seja por uma discussão, por não saber se ele já chegou, ou por saudade. É quando você sente saudade, antes mesmo da despedida. É também quando a ela, a saudade, ganha um novo significado e você descobre que pode senti-a mais intensamente do que jamais pensou suportar. É também quando coisas inexplicáveis acontecem e você, por exemplo, acredita numa mentira, ou pensa que pode voar... Quando você se sente disposta a sacrificar tudo pelo tal amor sem nem pensar duas vezes. É quando algumas coisas perdem a graça quando se está só e tudo parece ser tão mais bonito quando estamos juntos. Aí aí... Falei tantas coisas, mas devo não ter dito nada...

- Não, não... Você só descreveu de uma forma tão... Tão mágica!
- Ah! Mas amar é assim mesmo. Mágico!!! Sabe que eu gosto quando as músicas falam de amor?...
- Como assim?
- Assim ô, em “Love me tender”, por exemplo, o Elvis pede pra ser amado e termina com “e eu serei seu por todos os anos, até o fim dos tempos.”. Já o Bryan Adams, em “When you love someone”, diz que, quando você amar alguém, “você arriscaria tudo não importa o que pode vir”. O Alex Band, em “Anything”, diz “eu estarei lá para pegar você quando você cair”... E por aí vai, né? Eles descrevem coisas que você só diz ou faz quando ama.
- Caramba! Depois de te ouvir falando assim, eu quero sair correndo pra amar alguém... Deve ser tão bom...
- É sim! Mas, sabe de uma fórmula? Como dizem por aí, “o segredo é não correr atrás das borboletas”. E, quando você menos esperar, ele chega. O único problema é que, depois que chega, você não quer mais que ele vá embora....
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Kari Mendonça

domingo, 24 de agosto de 2008

Uma manhã de sábado


Em uma manhã de sábado, estava no parque com suas amigas. O que deveria ser apenas uma aula de fotografia acabou por se tornar uma manhã bastante agradável e divertida. Foram muitas as voltas que deram no parque para captar as melhores imagens e momentos. Quase tudo poderia ser uma boa foto, mas só os melhores momentos foram captados.

Enquanto andava pelo parque a procura da foto perfeita, observava tudo ao seu redor. Sempre gostou de crianças e, aquele parque parecia o paraíso. As menininhas mais lindas estavam no balanço, com a bola ou brincando de bolinha de sabão. Os meninos mais fofos andavam de bicicleta, velocípede ou corriam de um lado para o outro.

Seus olhos não sabiam o que captar. Eram muitos momentos, muitas crianças que mereciam ser fotografadas. Muitas fotos que queria guardar. E, enquanto se encantava com tudo, desejou do fundo da alma, ser uma daquelas mães. Queria estar lá tirando fotos do seu filho, correr atrás dele, colocá-lo nos braços e brincar de aviãozinho.

Queria, mas não podia. Ainda precisava tirar as fotos. E foi quando, enquanto distraída tirando a foto de uma planta, passou ao seu lado um homem empurrando um carrinho de bebê. Não conseguiu se concentrar nas plantas. Era bonito demais ver aquele momento. Ele era jovem, bonito e o seu olhar era o de um apaixonado.

Apaixonado por aquele lindo bebê dentro do carrinho azul. Pronto! Ali estava a foto perfeita. Tentou correr atrás, mas a timidez não a deixou alcançar. Então ele parou, pegou o bebê no colo e fico parado por uns instantes. Tomou coragem, pediu licença, perguntou se poderia tirar uma foto, ele disse que sim.

Após se afastar um pouco, escolheu o melhor ângulo e bateu as fotos. Sim! Tirou mais de uma, pois não se conteve com tão pouco. Despediu-se daquele pai tão carinho e seguiu admirando aquela foto e recordando-se daquele momento tão especial que havia presenciado. Sabia que jamais esqueceria aquele olhar de pai para filho.

E foi então que percebeu que seu grande desejo não era apenas ter um filho, mas era poder presenciar o pai de seu bebê olhando-o daquela forma. Foi então que, como jamais havia pensando, desejou não ter apenas um filho, mas uma família. E queria, numa manhã de sábado, passear com eles no parque.

A manhã estava para acabar, quando foram embora. Mas, antes de ir, ela decidiu jamais esquecer como aquela manhã havia transformado seus sonhos e seus desejos. Decidiu que ainda iria voltar lá com os homens da sua vida.
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Kari Mendonça

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Relatos de uma jovem

Acordei cedo. O dia estava claro, quase sem nuvens, como a muito não via. Tudo parecia normal. Correu tudo bem. Sai cedo de casa, o caminho foi tranqüilo, fiz o que tinha que ser feito, arrumei o que deveria ser arrumado e tudo parecia estar em perfeita ordem. Voltei para casa e passei a tarde assistindo filmes.

Era final da tarde quando resolvi tomar banho. Não demorei muito. Troquei a roupa, peguei a bolsa, o caderno e me arrumei para sair. Entrei no carro, ajeitei o banco. Quando estava quase saindo, senti-me irritada, por motivo nenhum, mas foi rápido e logo passou. Liguei o som e sai de casa.

Ao me aproximar da avenida, tudo parecia bem, mas logo percebi que não. Já estava escurecendo quando percebi que as bicicletas não me deixavam sair. Os carros não paravam de passar. A chuva começou a surgir. Queria correr, mas não podia. Queria parar, mas tinha que continuar.

Comecei a ser invadida por uma tensão e uma irritação fora do comum. Percebi que segurava a direção com força. Soltei-a. Tentei entender, mas ficava, a cada minuto, mais estranho. Continue dirigindo. Precisava ir para a aula, não podia voltar para casa como tanto queria e agora, mais que nunca.

A música estava alta, mas quase não a ouvia direito. Um mal estar começou a tomar conta de mim. Não sabia o que estava acontecendo. Cheguei a achar que seria um pressentimento. Um mau pressentimento. Questionei-me sobre o que poderia ser, mas não queria pensar aquilo, queria que não fosse nada ou, o que fosse, que logo acabasse.

Um homem passou na minha frente. Não parei, mas não o peguei. O mal estar estava ficando pior. Quis voltar para casa, mas já estava chegando à faculdade. E, foi quando estava perto, bem perto que tudo se esclareceu. Eu não estava sozinha, em momento algum. Era ela, a TPM, que tinha resolvido chegar mais cedo.


Kari Mendonça

domingo, 17 de agosto de 2008

Lembranças de uma sexta

“Guardo pra te dar
as cartas que eu não mando
Conto por contar
E deixo em algum canto”
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Engraçado como as músicas, assim como os cheiros, podem nos transportar para outros lugares, outros momentos. E nos fazer sentir sensações sentidas, saudades passadas. Lembranças tão detalhadas. E tudo, apenas por sentir um cheio ou ouvir uma música.

Estava aqui no computador olhando sites, quando resolvi escutar o cd “Leoni Ao Vivo” e, foi inevitável não lembrar daquela noite de sexta-feira. Estava sozinha no quarto. A cama ficava perto da janela e deitei virada para ela. Liguei o som e coloquei esse cd.

De onde estava, podia olhar o céu. A lua estava bonita e as luzes do quarto, apagadas. Mas não estava tão escuro, a lua iluminava um pouco. O clima estava agradável. Entrava um pouco de vento. Fiquei bons minutos com os olhos fechados.

Ás vezes olhava o céu, ás vezes pensava na vida. Fiquei escutando todo o cd ali. As músicas foram ouvidas com todo cuidado e carinho. Prestei atenção em cada letra, em cada detalhe... Foi um momento mágico.

Em certo instante, decidi olhar um pouco o que estava acontecendo na rua. Foi quando o avistei. Ele, o menino do sexto andar. Era assim que o chamava. Nunca descobri seu nome, mas não esqueci seu rosto. Estava, naquela noite, de paletó. Mais bonito que nunca.

Não fiquei muito tempo na janela. Logo voltei para a cama. Fechei os olhos e mergulhei na música. Mas, desde então, todas as vezes que começo a ouvir “as cartas que eu não mando”, a primeira do cd, é inevitável não lembrar de todos esses detalhes dessa noite de sexta-feira.
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“A ciência confirma os fatos que o coração descobriu
Nos seus braços sempre me esqueço de tempo, espaço e no fim
Tudo é relativo quando te fazer feliz me faz feliz
Se a história for sempre assim
Melhor pra mim”
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Kari Mendonça
Em laranja: As cartas que eu não mando (em cima)
....................Melhor pra mim (em baixo)

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

(Re)começo

Quem nunca sentiu um desejo por um recomeço? Eu já! Inúmeras vezes e por diferentes motivos. Mas nunca esse "desejo" havia sido sentido como uma necessidade grande, como vem ocorrendo nos últimos tempos. Na verdade, meus motivos de recomeço sempre foram os mais banais possíveis, e se resumiam, muitas vezes, a simples mudança da cor do cabelo. Dessa vez, no entanto, mudar o cabelo não vai ajudar.
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É preciso recomeçar. Recomeçar do zero. Sabe aquela história de "ano novo, vida nova"? Já aconteceu comigo, mas não foi lá como eu imaginei e talvez por isso eu me sinta "individada" comigo mesma. Há três anos as coisas estavam indo bem, muito bem pra falar a verdade, na escola, com os amigos, em casa... Até que o meu pai apareceu dizendo que iríamos nos mudar para outra cidade. E foi no ano seguinte em que tudo deveria ter começado do zero.
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Mas não foi bem assim que aconteceu. Era uma cidade nova, casa nova, tudo novo, mas eu não consegui começar. E, enquanto tudo parecia tão difícil, algo me aconteceu. E foi depois disso que, recomeçou pareceu impossível. Não ali. Não naquele local e nem com aquelas pessoas. Eu odiava demais aquilo tudo pra querer fazer parte. Eu me sentia "um estranho no ninho", exatamente como Jack Nicholson.
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E, em meio a tanta complicação e perturbação emocional, devido a doença da minha avó, acabamos voltando para Recife, seis meses depois. Por uma fração de segundos eu pensei que tudo voltaria a ser como antes, mas logo percebi que era tarde demais para ser como foi e, difícil demais para começar de novo. Afinal, é mais fácil começar do zero quando não se tem um passado tão próximo, quando não se tem que olhar para o que foi deixado para trás.
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É confuso, eu sei. Imagina então como não estão as minhas idéias e angústias. Sabe, desde criança eu sempre quis morar no Sul. Sempre foi meu desejo começar a vida lá. Queria fazer faculdade e lembro que, em 2005 eu sabia de todas as faculdades com jornalismo no Sul do país. Mas a realidade não é tão fácil e ir pra lá seria complicado. Por isso, acabei fazendo faculdade aqui mesmo.
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Mas a idéia de ir embora nunca acabou. Pelo contrário, se fortalece a cada dia. É fato que hoje, algo mais me "puxa" pra lá, mas, na verdade, o que mais me faz querer ir é esse desejo, essa necessidade de recomeço. A tempos cansei de tudo por aqui. Eu preciso de um lugar novo, de pessoas novas ao meu redor (nada contra as que me rodeiam, mas entendam, por favor...). Eu preciso começar de novo.
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Não me pergunte o porque de toda essa vontade. E nem me critique por não conseguir recomeçar aonde estou. É difícil pra mim. Já tentei, mas é difícil e eu não sei explicar os motivos. É por isso que, assim que acabar a faculdade, eu não sei como, mas, simplesmente, eu vou embora. Vou começar a minha vida em outro lugar, eu preciso disso.
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Andei ausente, eu sei. Estou com tendinite no joelho e, nos últimos dias tem sido difícil sentar na frente do computador para escrever ou ler algo. Mas, já estou melhorando e só hoje consegui sentar para escrever. Em breve colocarei em ordem as visitas.
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Beijos
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Kari Mendonça

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Ausência

Só pra justificar o meu sumiço...

É que estou com tendinite no joelho e, sentar na frente do pc dói pra caramba, sabe?

É por isso que as minhas visitas estão um pouco fuleiras e os meus posts também...

Assim que stiver eu prometo voltar!!!!



Um beijão

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Recife, 8 de agosto de 2008.

Meu nome é Clarice e tenho 15 anos. Dizem que a minha mãe gostava de ler, mas eu não sei, porque não conheci ela. Minha mãe morreu um dia antes do meu aniversário de um ano, acabei nem tendo festa por causa disso. O imbecil do meu pai foi embora três dias depois e me deixou com a empregada.

É com ela que eu morava até um tempo atrás, quando ela me mandou embora, com a Alcinda, que eu chamo de madrasta, porque ela sempre fez questão de dizer que eu não sou filha dela e sim "duma patroa que ela teve". Mas, mesmo assim, eu ainda considero os filhos dela como meus irmãos, sabe? São dois meninos e uma menina, todos mais novos que eu.

Morei lá até o dia que ela me mandou embora porque eu engravidei. Sim! Eu tenho um filho de quatro anos. Ele é a coisa mais linda do mundo, mas tá tão magrinho o coitado.... Sabe, eu perdi a virgindade com cinco anos, com o meu padrasto.

Um dia quando a Alcinda saiu pra trabalhar, ele me chamou no quarto e eu fui, né? Aí ele começou a falar umas coisas... E a tirar minha roupa... Fiquei sem entender, até que ele veio pra cima de mim e eu começei a gritar. Doeu muito, sabe? Mas ele disse que eu num podia falar nada pra ninguém, porque se não ele ia me jogar nos matos...

Aí, eu num podia falar nada pra ninguém, e ele me levava pra o quarto todo dia. Até que, com 10 anos eu conheci o Jenilson. Uma pessoa muito boa e mais velha. Ele tinha 17 anos quando a gente se conheceu. Gostava muito de mim, sabe? Até que ele me levou um dia prum quarto e fez a mesma coisa que o padrasto.

Mas aí eu vi que com ele era bom e acabei ficando com raiva do padrasto. Na verdade, o Jenilson não sabe do que o padrasto fazia porque eu nunca contei pra ninguém, porque ele disse pra eu num contar, né? Mas, sempre que ele me chamava eu ia com raiva e começei a bater nele e foi logo quando ele resolveu dizer que ia me mandar embora que eu engravidei.

E aí, quem me mandou embora foi a própria Alcinda, porque disse que já tinha me sustentado pela patroa dela, mas que num ia ficar sustentando filho meu não, porque eu num merecia. Sabe que eu penso que ela deve saber do que o padrasto fazia? Eu acho que sabia sim....

E foi aí que o Jenilson construiu um barraco pra gente morar e, pouco tempo depois nasceu o Jilson. Enquanto o Jenilson trabalhava eu ficava cuidando do meu pirralhinho, mas aí, quando ele tinha dois anos, eu resolvi trabalhar e procurei uma casa de família. Deixava o Jilsinho com a minha cunhada que sempe gostou muito dele.

Mas a minha vida mudou muito de um ano pra cá, quando o Jenilson foi assassinado pelo padrastro. Desde que eu sai da casa da Alcinda que eu num via mais ninguém, mas o padrastro sempre me procurava, mas eu num falava com ele. Ele dizia que queria ver meu filho, mas eu nunca deixei. Aí, quando o Jenislon tava num bar com os amigos, o padrasto apareceu e deu seis tiros nele.

Tá! Eu sei o que você deve tá pensando... Mas eu sei que o Jilson é filho do Jenilson, porque toda vez que olho pra ele, eu vejo o Jenilson sorrindo pra mim... E também, uma mãe bem sabe de quem é seu filho... Então, deixa eu terminar logo...

Depois que o Jenilson morreu, fiquei sem rumo, mas continuei trabalhando, até dois dias atrás quando a minha patroa me mandou embora porque disse que eu num fazia as coisas direito e que ela queria alguém sem filhos pra poder pagar menos. Desdesse dia que eu e meu filho num come. Porque, depois da morte do Jenilson, a minha cunhada num fala mais comigo porque me culpa.

Aí, num tenho a quem recorrer, porque num gosto de ficar pedindo ajuda de vizinho que já num tem muito, sabe? Foi aí que eu decidi acabar logo com isso. Fui na vizinha ontem e disse que a casa tava com uns rato e precisava matar eles. Aí ela me deu um veneno e é ele que vai me ajudar.

Já coloquei na mamadeira do Jilson que estava com muita fome e ele já tomou. Fechei a porta do quarto e deixei ele na cama, porque num queria ouvir nenhum barulho que ele fizesse. E, antes de tomar o meu que está no copo na minha frente, decidi escrever, já que disseram que a minha mãe era alguém importante, achei que um dia poderiam me procurar, aí, pelo menos vão saber o que aconteceu comigo.

Já dei o primeiro gole. Vô beber logo pra acabar logo com isso...


Kari Mendonça

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Amigos

Estava sábado à tarde, numa mesa de bar, bebendo cerveja e petiscando alguma coisa com uma amiga. O tempo parecia não passar e foi bom demais. Conversamos sobre tudo, na verdade, foi a primeira vez que realmente conversamos sobre tantas coisas. E, para duas pessoas que de cara não se deram muito bem, foi uma tarde pra lá de especial.

Entre tantas conversas falamos dos amigos. Amigos que tivemos e que, por algum motivo, já não temos mais. Érica disse que sempre tenta reaver tais amizades, ao menos uma vez ela tenta e, se não der certo, desiste.

Eu faço um pouco diferente. Simplesmente não tento. Vou tentando enquanto ainda há alguma relação, mas, quando percebo que qualquer vínculo foi acabado, eu desisto. Sim! É uma fraqueza, mas não sei agir diferente, e talvez por isso tantos amigos hoje, são apenas conhecidos de um passado próximo.

E não venha me criticar. Não! A culpa da distância nem sempre é minha. Na verdade, os “amigos” em que estou pensando enquanto escrevo foram se distanciando por si só. Não tive culpa alguma, ou talvez tenha tido culpa de não correr atrás. Mas é que, simplesmente, não gosto de “migalhar” por uma amizade.

É algo bonito demais para ser pedido. Tem que nascer e crescer aos poucos. Tem-se que ir criando o vínculo com o tempo, assim, como uma tarde de sábado numa mesa de bar pra conversar e se conhecer melhor, e saber mais um pouco do outro e assim, saber como ajudar e ver uma amizade crescer.

Enquanto alguns amigos se tornam verdadeiros irmãos, outros se tornam apenas membros do passado. Isso dói, mas faz parte da vida. E, já cheguei a pensar que, não foram amigos de verdade, mas algumas vezes penso que foram sim. Foram amigos no tempo que tiveram que ser e hoje cada um nós seguimos os nossos caminhos.

Entretanto, por mais que a vida nos tenha separado, alguns sempre terão um lugar especial no meu coração e na minha vida. E, mesmo não tendo contato e não nos falando sempre, eternamente pensarei neles, não com dor e talvez, nem com saudade, mas de forma especial mesmo.


Kari Mendonça