sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Recife, 8 de agosto de 2008.

Meu nome é Clarice e tenho 15 anos. Dizem que a minha mãe gostava de ler, mas eu não sei, porque não conheci ela. Minha mãe morreu um dia antes do meu aniversário de um ano, acabei nem tendo festa por causa disso. O imbecil do meu pai foi embora três dias depois e me deixou com a empregada.

É com ela que eu morava até um tempo atrás, quando ela me mandou embora, com a Alcinda, que eu chamo de madrasta, porque ela sempre fez questão de dizer que eu não sou filha dela e sim "duma patroa que ela teve". Mas, mesmo assim, eu ainda considero os filhos dela como meus irmãos, sabe? São dois meninos e uma menina, todos mais novos que eu.

Morei lá até o dia que ela me mandou embora porque eu engravidei. Sim! Eu tenho um filho de quatro anos. Ele é a coisa mais linda do mundo, mas tá tão magrinho o coitado.... Sabe, eu perdi a virgindade com cinco anos, com o meu padrasto.

Um dia quando a Alcinda saiu pra trabalhar, ele me chamou no quarto e eu fui, né? Aí ele começou a falar umas coisas... E a tirar minha roupa... Fiquei sem entender, até que ele veio pra cima de mim e eu começei a gritar. Doeu muito, sabe? Mas ele disse que eu num podia falar nada pra ninguém, porque se não ele ia me jogar nos matos...

Aí, eu num podia falar nada pra ninguém, e ele me levava pra o quarto todo dia. Até que, com 10 anos eu conheci o Jenilson. Uma pessoa muito boa e mais velha. Ele tinha 17 anos quando a gente se conheceu. Gostava muito de mim, sabe? Até que ele me levou um dia prum quarto e fez a mesma coisa que o padrasto.

Mas aí eu vi que com ele era bom e acabei ficando com raiva do padrasto. Na verdade, o Jenilson não sabe do que o padrasto fazia porque eu nunca contei pra ninguém, porque ele disse pra eu num contar, né? Mas, sempre que ele me chamava eu ia com raiva e começei a bater nele e foi logo quando ele resolveu dizer que ia me mandar embora que eu engravidei.

E aí, quem me mandou embora foi a própria Alcinda, porque disse que já tinha me sustentado pela patroa dela, mas que num ia ficar sustentando filho meu não, porque eu num merecia. Sabe que eu penso que ela deve saber do que o padrasto fazia? Eu acho que sabia sim....

E foi aí que o Jenilson construiu um barraco pra gente morar e, pouco tempo depois nasceu o Jilson. Enquanto o Jenilson trabalhava eu ficava cuidando do meu pirralhinho, mas aí, quando ele tinha dois anos, eu resolvi trabalhar e procurei uma casa de família. Deixava o Jilsinho com a minha cunhada que sempe gostou muito dele.

Mas a minha vida mudou muito de um ano pra cá, quando o Jenilson foi assassinado pelo padrastro. Desde que eu sai da casa da Alcinda que eu num via mais ninguém, mas o padrastro sempre me procurava, mas eu num falava com ele. Ele dizia que queria ver meu filho, mas eu nunca deixei. Aí, quando o Jenislon tava num bar com os amigos, o padrasto apareceu e deu seis tiros nele.

Tá! Eu sei o que você deve tá pensando... Mas eu sei que o Jilson é filho do Jenilson, porque toda vez que olho pra ele, eu vejo o Jenilson sorrindo pra mim... E também, uma mãe bem sabe de quem é seu filho... Então, deixa eu terminar logo...

Depois que o Jenilson morreu, fiquei sem rumo, mas continuei trabalhando, até dois dias atrás quando a minha patroa me mandou embora porque disse que eu num fazia as coisas direito e que ela queria alguém sem filhos pra poder pagar menos. Desdesse dia que eu e meu filho num come. Porque, depois da morte do Jenilson, a minha cunhada num fala mais comigo porque me culpa.

Aí, num tenho a quem recorrer, porque num gosto de ficar pedindo ajuda de vizinho que já num tem muito, sabe? Foi aí que eu decidi acabar logo com isso. Fui na vizinha ontem e disse que a casa tava com uns rato e precisava matar eles. Aí ela me deu um veneno e é ele que vai me ajudar.

Já coloquei na mamadeira do Jilson que estava com muita fome e ele já tomou. Fechei a porta do quarto e deixei ele na cama, porque num queria ouvir nenhum barulho que ele fizesse. E, antes de tomar o meu que está no copo na minha frente, decidi escrever, já que disseram que a minha mãe era alguém importante, achei que um dia poderiam me procurar, aí, pelo menos vão saber o que aconteceu comigo.

Já dei o primeiro gole. Vô beber logo pra acabar logo com isso...


Kari Mendonça

11 comentários:

Antônio disse...

Caramba, que forte, hein? Chegou a me dar um nó na garganta... E pensar que isso também existe na vida real, acho que isso é o que mais choca.

Beijo, Kari!

Érica disse...

Tô de luto Kari. Que triste. O pior é que isso acontece né e a gente sabe muito bem. Mas a gente não pode fazer nada e quem pode não faz. Ai, a gente só lamenta.
Triste.
;/
Bjos.

Mayara disse...

WOW! Texto forte e infelizmente, real.
Isso nos faz pensar bastante, e nos faz agradecer pela vida que temos e nem damos conta disso, não é mesmo?

Beijos! E um bom final de semana!

Uma Vencedora disse...

Oie Kari,

Eu fico tão feliz quando você visita o meu espaço e deixa lá a sua assinatura...

Mas, eu quero mesmo é comentar o seu texto...

O pior é que mesmo sendo um história, isso acontece em muito lugares... O abuso, a maldade, a injustiça, enfim, a agressão a pessoa e a humanidade de modo geral...

Muitos beijinhos pra ti.

Janaína

candy disse...

O.O
meu Deus!
antes fosse apenas uma história.
=/
:T
:(

Palavras de um mundo incerto disse...

Bah, senti-me feliz por sentir que essa guria sabe passar ao mesmo tempo para quem lê-la, emoções. E esta ficção realismo foi perfeita.


Guria, senti que tu estava contando esta ficção-realismo pra mim, nessa parte:

"Tá! Eu sei o que você deve tá pensando... Mas eu sei que o Jilson é filho do Jenilson, porque toda vez que olho pra ele, eu vejo o Jenilson sorrindo pra mim... E também, uma mãe bem sabe de quem é seu filho... Então, deixa eu terminar logo... "

Maravilha guria.

Quero ler mais escritas como essa!!!


Beijos

Com carinho

Marcos

ALF disse...

É um misto de sentimentos conflitantes, e que engasga, dá nó no estômago. O fato é que retrata um pouco muitas realidades que somos obrigados a presenciar.
Triste, mas mostra uma face que poucos conseguem admitir.

Belo texto. Que mesmo triste, nos faz pensar muito.

Beijos

Grazi Sperotto disse...

Nossaaaaa! Muito bom texto! Uma forma de contar uma história e faz a gente refletir sobre várias coisas da vida real, pq infelizmente isso acontece de verdade.
Parabéns, vc escreve muito bem!
Voltarei!
Acho que já estive aqui outras vezes, mas não lembro, vou te linkar lá no emu então...
beijão

Marjorie disse...

afffff...

O Véio disse...

Oi, Kari! Voltei!

Como sempre, escrevendo muito bem. Gostei do texto. Tragicômico. rsrs

Beijos!

;-)

® disse...

Essa situação existe todo dia, infelizmente.
Nao sei se eu pensaria em tomar veneno, mas nao sei o que faria no lugar, ainda mais em um país como o brasil varonil.
Pq na teoria é uma coisa, e na prática bem outra.