domingo, 28 de setembro de 2008

Despedida

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É cada vez mais difícil me despedir de você.
Eu não quero que você vá.
E eu nunca quero ir.
Quem inventou a despedida?
Faz diferença saber?
Não faz.
Assim como não faz, se eu te pedir pra ficar.
Fica comigo!
Não vai embora, por favor!
Me abraça.
Diz que não precisaremos nos despedir, não hoje.
Sem beijos longos e tristes,
sem lágrimas nos olhos,
sem "até logo"...
Só hoje.
É tudo que eu peço.
Um abraço forte,
um beijo rápido, como de rotina,
como se fossemos fazer isso para sempre.
Segura a minha mão.
Não solta.
Me dá, no máximo, um beijo de "boa noite".
Mas se deita ao meu lado.
Fica por perto.
Me faz te sentir perto.
Mais perto.
Assim.
(...)
Em teus braços é que me sinto bem.
Não me solta.
E não me deixa sair daqui.
Sem despedidas.
Sem qualquer despedida,
e ao teu lado.
É assim que quero ficar.
É daqui, dos teus braços,
que jamais quero sair.
Não se despede, por favor.
Fica comigo.
Ao menos essa noite,
não me deixa.
Fica, segura minha mão.
Seja meu porto seguro.
Seja MEU.
E não vá, ao menos essa noite.
Essa noite e pra que não precisemos
nos despedir novamente.
Pois, é cada vez mais difícil me despedir de você.


Kari Mendonça

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Amor de mãe

Há quem ache tudo uma tremenda besteira, mas eu sempre levei a sério. A minha vida sempre foi rodeada de animais. Já tive hamster, coelhos, pintinhos, cachorros e gatos. Na maior parte da vida morei em casas, até que, em 2003 mudei-me para um apartamento onde mal cabia eu, meus pais e minha irmã.

Assim, nossas cadelas (Thalía e Kelly) foram dadas a um conhecido, exceto Lili que já tinha 12 anos e era parte da família, que ficou com meus avôs. Em 2004, por motivos nunca revelados a mim e a minha família, soubemos do falecimento de Lili e foi uma tristeza enorme. Ela era realmente um membro da família e fez (faz até hoje) uma falta sem tamanho.

Ainda em 2004, me sentindo muito só, pedi a minha mãe um hamster, seu nome era, em homenagem a mulher de Che, Hilda Beatriz Gadea Chevara de Mendonça. Era pequenininha com um nome enorme, mas me fazia, de certa forma, companhia. Mas Hildinha morreu antes do final de 2005 e também fiquei muito triste.

Em dezembro, também de 2005, com a vontade de nos levar embora de Recife, meu pai trouxe Meg as nossas vidas. Meg é uma yorkshire muito linda. É o xodó da casa. Anda atrás da minha mãe o tempo inteiro e dorme todas as noites, comigo. Digo que é minha companheira de quarto, mas ocupa mais a cama do que eu.

Esse ano, como voltamos para a casa (aquela que saímos quando demos as cadelas), achamos que precisávamos de mais “gente” em casa e acabamos ganhando Kate, uma rottweiler. Ela chegou bem pequenininha e também dormia comigo, mas agora já está grandinha e dorme lá fora. É grande, mas ainda é tão boba.... Tão linda!!!!

O caso é que, mesmo com a casa cheia, sabe quando você acha que falta “mais alguém”? Eu achei. E também estava me sentindo só, abandonada... Com aquela sensação de “ninguém me ama, ninguém me quer”. E foi por isso que resolvi adotar “Darlanzinho”. Era um gatinho que, por várias vezes, quando levei Meg pra tomar banho, encontrei.

Foi encontrado muito novinho na rua e, Darlan (um amigo meu, que trabalha no pet shop) pegou para cuidar. Foi amor a primeira vista. Falei com minha mãe, mas ela sempre dizia que ele era muito pequeno e daria um trabalho sem tamanho. Mas, tanto fiz que acabei trazendo-o para casa. Seu nome é em homenagem ao seu “salvador”.
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Darlanzinho cabe na palma da minha mão. Comecei a dar comida numa seringa, mas vi que ele tentava sempre chupar e resolvi facilitar as coisas, comprei uma mamadeira. Sim, uma mamadeira! E com bico de silicone. E não é que ele adorou? Quando pego a mamadeira ele vem de longe correndo e é a coisa mais linda quando está mamando.

E, como disse no início, sei que muitos acham uma temenda besteira, mas eu levo a sério. Darlanzinho só está comigo há duas semanas, mas eu não saberia viver sem ele que, por acaso, também dorme comigo. Acorda-me no meio da madrugada para comer e eu, sequer reclamo.

Nesse exato momento ele está olhando pra mim, com uma carinha de “pidão” e está miando muito... Eu me apaguei completamente a esse bichinho tão pequeno. E eu, como já disse, não saberia mais viver sem ele. Sem aqueles lindos olhos azuis me olhando pela manhã. Sem um “mial” de bom dia logo cedo.

Ele precisa de mim e talvez por isso eu me sinta tão importante perto dele. Sinto-me bem. E, por mais idiota que possa parecer para alguns, eu amo tanto ele... Amo e cuido com todo carinho. É como um filho, sabe? Até atenção ele me pede... E, se falei tantas coisas, foi apenas para dizer que, de todos, nunca havia me apegado tanto a um bichinho como me apeguei a ele.


Kari Mendonça

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PS.: Aproveitando, quero fazer uma homenagem a todos os meus bichinhos (exceto os que não lembro, pois era pequena e, só sei que existiram pela minha mãe). Saudades eternas de: Lili, Darla, Thalía, Kelly, Buiuda, Stanley, Tarzan, Claudinei, Rambo e a todos que fizeram parte da minha vida!

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

"Lembrar sem mágoas"

Desde pequena aprendi que “perdoar é lembrar sem mágoas”. Até então, me diziam que perdoar era esquecer e, por isso, fiquei feliz em saber que não era preciso esquecer completamente, apenas, lembrar sem a mágoa. Sim, fiquei feliz, pois esquecer é algo que acho difícil, muito difícil mesmo.

Mas, com o tempo, acabei percebendo que “lembrar sem mágoas” também é difícil pra caramba. É tão mais fácil perdoar alguém e manter-se bem distante, como se nada tivesse acontecido, mas também, sem contato algum. Eu sou covarde. Sim, eu sou!

Todas as vezes que me magoaram, eu fui embora. Algumas vezes tentei voltar, mas sempre ia embora novamente, até que um dia, fui embora e não voltei mais. E estou muito bem, obrigada. Segui meu caminho como se nada nunca tivesse acontecido, mas, continuo distante de tudo e de todos.

E agora, de repente, me pedem para perdoar e esquecer. Pedem-me também para “passar uma borracha”, fingir que nada aconteceu e seguir com a convivência da forma mais natural possível. Ainda estou pensando sobre o assunto...

Confesso que não tenho mágoas. Ou talvez eu tenha um monte, mas apenas não gosto de admitir. Enfim, com ou sem magoas, eu ainda tenho as lembranças. Lembrança de um grito ao telefone, de um olhar com o maior desprezo, de telefonemas que não recebi e de atitudes que me tiraram, por várias noites, o sono.

Sei que algumas coisas devem ser esquecidas. Sei também que se lembrar do que magoa faz muito mal a alma e também a saúde. Sei que a minha atitude não é a melhor e nem a mais correta do mundo. Mas dói e é por essa dor que eu não consigo fazer diferente.

Portanto, andei pensando e pensando, e ainda não conclui coisa alguma, apenas percebi que não consigo simplesmente fingir que tudo foi um pesadelo, pois não foi e eu estava muito bem acordada. Peço apenas que não me cobrem nada, não me peçam nada.

Que me deixem levar a situação no meu tempo, por mais longo que ele seja. E, que fique claro que, esquecer, eu realmente não consigo.



Kari Mendonça

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Silêncio [II]

E aqui estou eu, mais uma vez questionando sobre o silêncio. É que eu não canso de me perguntar, porque, afinal, o silêncio incomoda tanto. O ser humano é realmente complicado. Reclamam se alguém fala demais, no entanto, reclamando quando outro alguém não fala.

Há algumas semanas, se não meses, uma amiga faz questionamentos sobre o meu silêncio. Quando não fala diretamente, ela solta alguma graçinha do tipo: “Kari, pára de falar poxa.” (sim amore, é você mesmo, viu?). E eu sempre acabo sorrindo meio sem graça.

Não! Não fico chateada com as brincadeiras, mas é que, realmente há momentos em que eu não gosto de falar. Em outros eu não sei o que falar e, na maioria das vezes, eu escolho não falar. Sabe como é, se falar, vou acabar falando umas verdades e, quem sabe, vou acabar magoando alguém.

E eu não quero continuar magoando as pessoas como eu sempre faço, cada vez que, por algum motivo, resolvo abrir a boca. É melhor ficar na minha. Não falar nada. Não pensar a respeito. Simplesmente, o silêncio me agrada, o meu, pelo menos.

Sempre fui adepta a essa prática. Ou melhor, nem sempre “sempre”, mas, há algum tempo, percebi que ficar em silêncio faz bem. Ajuda nas situações, pois, você acaba se concentrando mais no que as pessoas falam quando não precisa pensar no que vai falar.

E, você acaba observando melhor a situação. Assim, fica bem mais fácil opinar ou questionar depois. Mas, na verdade, não é apenas por isso que eu fico tanto tempo em silêncio, mas é que, enquanto silencio, eu penso. E eu penso coisas demais. Tantas coisas que ás vezes cansa pensar tanto.

São tantas idéias, tantos desejos, vontades, sonhos... E, enquanto penso, na maioria das vezes acabo entristecendo e, também por isso, fico em silêncio. Ali, eu e meus pensamentos. Enfim, eu gosto de ficar em silêncio, de me afogar nos meus pensamentos, de me esconder do mundo, de....

Confuso, né? Imagina então como não está a minha cabeça, minhas idéias? A minha voz, pelo menos, essa você sabe....


Kari Mendonça
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A quem interessar - Silêncio
Resumo da foto: "Um momento de silêncio.
Não quero ouvir nada. Não quero sentir nada. Não quero ser nada neste lugar.
Deixa-me ficar invisivel nos meus pensamentos."

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

De todo coração

Vó, essa é a primeira vez que te escrevo algo. Sei que a senhora nunca vai ler, mas gosto de pensar que, enquanto escrevo, a senhora me escuta. São tantas coisas pra falar, mas eu realmente não sei por onde começar. Sabe que, eu fico tão triste quando penso na senhora...
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A tristeza vem por um único motivo, a falta das lembranças. Poxa! Tivemos tão pouco tempo juntas, e eu tenho tanta inveja de Samuel, por exemplo, que passou seis anos a mais ao seu lado e eu tenho certeza que ele tem muito mais lembranças do que eu. Isso é tão injusto, Vó.
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Hoje em dia, quando penso na senhora, não sei se é, de fato, uma lembrança ou foi algo que criei. É que foram tão poucos momentos que me lembro, que acabo misturando com momentos que vi no vídeo ou que me contaram. Ah sim! Sempre que falam da senhora eu te imagino exatamente como eu lembro.
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Sabe que, eu me arrependo tanto de não ter te dado aquele último beijo. Aquele beijo gelado. Mas, me conforta o coração saber que a senhora segurou a rosa que te coloquei nas mãos, aquela vermelha. Lembro tão bem daquele dia. E parece que, quando começa setembro, ele vai sendo revivido, todos os anos.
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E já se passaram treze anos Vó. É tanto tempo sem a senhora por perto, sem o teu colo. Acho que se a senhora me encontrasse hoje não me reconheceria, eu cresci, sabe? Já tirei a carteira de motorista e estou até fazendo faculdade. Mainha diz que estou dirigindo bem e Tia “Caloide” sempre me deu o maior apoio com o curso.
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É Vó, eu vou ser jornalista que nem ela. Mas não quero aparecer em televisão não, sabe? Eu não gosto muito. Na verdade, eu morro de vergonha. Oras, eu também não sou tão bonita como ela. Quer dizer... E por falar nisso, a senhora não imagina o quanto as suas irmãs estão mais parecidas...
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Vó, das poucas lembranças que eu tenho, uma delas é quando a senhora me segurava e eu esperneava pra ir para a aula com mainha. Me desculpa por aquele dia, eu não sabia que teríamos tão pouco tempo. Estive pensando e percebi que só passamos juntas, de verdade, dois anos, pois os outros quarto eu morava fora.
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Outra lembrança é a do leite moça com Nescau que a senhora preparava no domingo. Ou do pão com queijo “de copo”. Ou, a melhor de todas, o bolinho de fubá... Ah Vó!!! A senhora acredita que, até hoje ninguém nunca fez um bolinho como o que a senhora fazia? Até tentaram, mas nunca ficou igual.
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E por falar no bolinho, até hoje eu culpo mainha de ter entregue os últimos bolinhos que a senhora me fez, pra o menino da rua. Ela sempre diz que não sabia que seriam os últimos, mas eu sempre reclamo. Ai que saudade daquele bolinho...
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Outra lembrança que tenho é da senhora na rede amarela com eu e Natália, enquanto a senhora cantava “ô lua branca de fulgores...”. Sabe Vó, eu estive lendo a letra dessa música e achei tão triste. Por que a senhora sempre cantava ela? Todas as pessoas que falo, lembram da senhora cantando essa música.
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Outra música que bem lembro é aquela da fita azul, que dizia “ponha um grande sorriso no seu rosto...”. Mainha sempre cantava pra gente quando estávamos tristes, quer dizer, ela canta até hoje... E eu sempre me lembro de quando a senhora ligava o filme da música. Eu não lembro bem o filme, e só desse pedaço da música.
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Ô Vó... As coisas mudaram tanto desde que a senhora se foi.... Mudaram não apenas por termos crescido e amadurecido, mas sei lá... Eu penso que, talvez, se a senhora estivesse por aqui, tanta coisa não teria acontecido. Tantos desentendimentos, discórdias... Tanta bagunça e distância.
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Vó! Queria tanto poder te dar um abraço agora... Tenho tanta saudade da senhora. Saudade de momentos que nunca vivi, de abraços que nunca dei... De momentos que passei e sempre achei que faltava a senhora lá pra completar a festa.
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Agora eu vou indo dormir. Estou um pouco cansada, sabe? Mas Vó, eu quero que a senhora saiba que eu amo muito a senhora, mesmo nunca tendo podido te dizer isso. E, outra coisa que me conforta o coração é que, para a senhora, eu vou ser sempre a caçula.
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Um beijão,
Da neta mais nova,
Karina

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Pequenas mudanças, grandes diferenças

Chega um momento em que você quer mudar. Mas aí você percebe que já mudou, e muito, mas que, nem todos percebem isso. Aí você resolve externar a sua mudança. Seja como for. Alguns compram uma roupa nova, num estilo diferente do habitual, outros resolvem mudar fisicamente.

Alguns emagrecem vários quilos, apenas pelo prazer de mudar. Outros resolvem ganhar os quilos para ficar diferentes. Já alguns, pintam os cabelos, outros fazem as sobrancelhas com novo formato, e alguns fazem um corte nove.

A intenção é mudar. É olhar-se no espelho e ver alguém diferente em todos os aspectos. É querer se reconhecer, apenas pelo olhar e por pequenos traços. E, enquanto alguns não gostam de mudanças “drásticas”, outros necessitam delas para se sentirem bem.

Eu sempre gostei de mudar, fisicamente falando. E cada mudança expressa uma fase diferente. Em uma época tinha os cabelos grandes, até que decidi cortá-los bem curtinhos. Mas bem curtinhos mesmo. Foi a fase em que a paciência passou longe, por isso o cabelo curto, não queria trabalho com nada.

Mas tarde, com o cabelo, um pouco maior, resolvi pintá-lo de vermelho. Pouco tempo depois, tive o primeiro namorado. A época do cabelo vermelho escuro me lembra muito dele. Mas o namoro acabou e, como não podia deixar de ser, pintei-o de castanho escuro.

Um dia resolvi fazer mechas loiras, mas, pra falar a verdade, pouco lembro dessa fase. Depois, quando achei que estava bem novamente, pronta para seguir a vida, cortei, mais uma vez os cabelos bem curtos e pintei de vermelho claro (daqueles que chamam muito a atenção).

E foi o vermelho que o chamou atenção, mas, dessa vez, achei melhor, realmente seguir em frente. No mês seguinte escureci o vermelho. O tempo passou, as coisas mudaram e, quando estava acabando o ensino médio, prestes a mudar de vida, fiz novamente as mechas loiras.

Foi uma fase turbulenta e, assim que a calmaria voltou, resolvi que o loiro não tinha sido uma boa idéia e o pintei de castanho, quase a cor natural. Dessa vez fiz uma promessa a mim mesma que seria a última vez.

Mas a vida mudou, deu voltas e, há meses me sinto outra. Estou bem comigo mesma, feliz com a vida, gostando da faculdade e completamente apaixonada por quem gosta tanto de mim, mas algo não estava bom. Faltava mostrar as pessoas que eu estou bem.

Queria que elas percebessem, só de olhar, que algo estava diferente. E, no sábado, quando fui ao salão, disse a minha cabeleireira que queria fazer algo. Queria sair da mesmice de sempre. Ela ficou chocada, pois eu sempre peço para cortar apenas as pontas e isso é quase chorando.

Acabamos chegando num acordo e fiz um pequeno corte na franja. Nada emo e nem pequeno demais, apenas um detalhe diferente. Algo que me faz olhar no espelho e perceber que, de fato, tudo está diferente. Pode parecer bobo para alguns, mas, pra mim, a mudança é algo fundamental e me faz sentir viva.
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Kari Mendonça

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Pensamentos de um espelho...

Estava prestes a sair de casa quando resolvi dar uma última olhada no espelho. Acabei, por alguns minutos, ficando ali na frente. Assustei-me com o que vi. Era uma mulher, com maquiagem e gloss. Perguntei-me onde havia ficado aquela menina que um dia fui. Tentei me lembrar em qual momento as coisas tinham mudado tanto.

Lembrei daquela menina com os cabelos curtos, um jeito implicante de ser e um carinha sempre de “abusada”. Uma menina que arrancava seus dentes como se fosse o maior feito do mundo. Que usava um penteado intitulado de “duas orelhinhas e um rabinho”. Era boba, mas era tão feliz com seu jeito moleque de ser.

Ah! O mais engraçado foi lembrar-me daquela adolescente que jamais saia de casa com maquilagem. Gloss? Batom? Nem pensar... Blusas e camisas só com mangas. Vestidos? Jamais. Continuava implicante, como sempre. Foi a época em que me intitulei “rebelde” e fui para o colégio, algumas vezes, com batom preto. Sabia tão pouco sobre a vida, mas achava sempre que sabia de tudo.

Sai da frente do espelho. Precisava ir para a aula. Peguei a bolsa e fui para o carro. Sai da garagem, liguei o som e a cabeça não parava de girar em lembranças e pensamentos. Foi quando me dei conta que eu estava dirigindo. E pensei “que vitória”. Tirei a carteira de motorista em maio de ano passado, mas tinha pavor ao trânsito. Não conseguia pensar em dirigir com tantos carros ao meu lado.

Resolvi perder o medo em fevereiro desse ano. Fui lá, fiz algumas aulas de trânsito (sim, existe isso) e passei a dirigir pra lá e pra cá. Tinha um pouco de medo, mas minha mãe me obrigava a ir sozinha para a faculdade e acabei pegando a prática. Não foi fácil, mas hoje percebo como foi bom.

E, enquanto estava indo, percebi que a vida dá inúmeras voltas. Que as coisas mudam, as pessoas mudam e, principalmente, eu mudo. Eu mudei. E como mudei... É fato que ainda resta um pouco da menina “implicante”, da adolescente “revoltada”, mas também existe muito da jovem mulher “sonhadora”.

Da mulher que resolveu lutar pelo que deseja, pelo que sonha. A mulher decidida que resolveu não apenas ver a vida passar. A mulher que hoje, não sai de casa sem ao menos uma base, um blush e um gloss. E foi aí que percebi o quão é maravilhoso esse ciclo da vida. Nunca somos os mesmos, nunca pensamos as mesmas coisas (exceto algumas, claro).

Mas estamos em eterna “metamorfose”, tanto física quando psicologicamente. E isso deveria nos tornar melhores ao longo dos anos. Pena que percebo algumas pessoas que não conseguem, que fazem da maturidade uma cruz e que, ao longo da vida, retrocedem.

É por isso que eu tento sempre aprender com o que passou e ficar forte para o que há de vir e o que eu hei de lutar para conquistar.


Kari Mendonça

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O dia em que eu me matei!

Abri os olhos. Ainda era cedo. Estava escuro e muito frio. Tentei me levantar, mas lembrei que não havia nada para fazer. Há poucas semanas fui demitida do emprego, disseram ser por “redução de custos”. Desconfio. Não havia ninguém com quem conversar. Não tinha amigas, abandonei-as por causa dele. Não que ele tenha pedido, apenas decidi que meu tempo livre seria dele e de mais ninguém. Hoje, não o tenho mais. E a culpa foi toda minha. Claro que eu o devia ter amado mais, devia ter-lo dedicado mais tempo. Deveria ter feito mais coisas para ajudá-lo. Nem sei mais o que poderia ter feito, mas sei que o que fiz foi pouco. Quanto ao meu emprego, sei que não foram apenas as reduções de custo. Eu não estava na empresa há pouco tempo e por isso, não havia motivos para me demitir, exceto pela minha incompetência, mas sendo assim, por que haviam me contratado? Sei que deveria ter dedicado mais tempo ao meu trabalho. Sei que não fiz o suficiente. Não gastei as horas que deveria gastar, não usei todos os recursos que sabia usar. Como sempre, não fui melhor em nada. Filhos? Nunca mais os poderei ter. Nunca mais amarei alguém tanto quanto o amei. E creio que nunca serei amada como ele me amou. Era tímido, não fazia muitos carinhos, mas sei que me amava. Sempre que estávamos juntos eu percebia aquele brilho no seu olhar. Sempre soube que ele era o cara certo pra mim, sempre soube! Não entendi como ele pôde me deixar. Não entendi aquela conversa. Ele não disse com todas as letras, mas sei que a culpa foi apenas minhas. Ele sempre fez tudo muito perfeito. Sempre aparecia quando dizia que viria, sempre me ligava quando prometia... Não sei onde, mas sei que fiz tudo errado. E agora? Deveria me levantar. O sol já vai nascer. Deveria procurar um emprego. Mas não tenho vontade. Sinto-me frustrada com a vida. Já não encontro sentido para viver. Não tenho motivos para procurar o ar, não tenho a mínima vontade de fazer nenhum esforço. Já faz algum tempo que não vejo sentido para minha vida. Certo dia, inventei que o sentido da minha vida era ele. Mas ele se foi. Decidi me levantar, ou melhor, me sentar na cadeira ao lado da cama. Peguei um papel, procurei a caneta, e escrevi:
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- Certa vez li que devia ser autora da minha própria história. Nunca fui autora de coisa alguma. Nunca segui meus desejos, meus instintos, meus sonhos. Já não mais o que fazer, a história está começando a se tornar chata e antes que isso aconteça, é melhor que acabemos com ela.
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Deixei o papel em cima da mesa, próximo ao meu celular. Fui até a área de serviço. Peguei uma corda, a havia comprado há alguns meses, mesmo sem saber sua utilidade, levei-a para o quarto. Fechei a porta. Amarrei a corda na janela. Olhei para os lados, decidi não me despedir de nada, não queria levar nenhuma lembrança. Coloquei a corda no pescoço e pulei a janela. Enquanto estava sendo segurada apenas por aquela corda presa em meu pescoço, ouvi gritos, mas não consegui saber de onde vinham. O ar já começava a me faltar. Eu o buscava, mas a cada segundo ele se distanciava.Pensei que jamais poderia escrever um livro, plantar uma árvore ou ter o meu tão sonhado filho. Era o fim. Tentei por uma última vez, mas foi inútil, o ar já não era mais pra mim.
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Publicado originalmente em 10/09/2007.
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O dia 10 de setembro foi escolhido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para ser o Dia do Combate ao Suicídio, visando prevenir e alertar a população para o assunto, visto que suas causas ainda são complexas e pouco conhecidas. Apesar de pouco comentado, o suicídio é uma das maiores causas de mortes violentas em todo o mundo. Estima-se que, a cada 30 segundos uma pessoa comete suicídio e, para cada suicídio ocorrido, 20 tentativas são falhas.
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O suicídio pode ser o fim para quem o comete, mas é apenas o começo de vários traumas tanto emocionais, quanto sociais e econômicos para aqueles que “perderam” alguém. E se você não ouve muito falar do assunto, não significa que ele não exista. Mas existe uma convenção para que suicídios não sejam notificamos em meios de comunicação. Talvez você tenha percebi que, quando algum famoso morre, o máximo que notificam é "suicídio acidental".
.Não se fala no assunto, não se dá ênfase e não se tenta justificar. Dessa forma, as pessoas acabam não pensando no assunto e só se dão conta quando alguém que conhecem resolve dar um fim em tudo isso. Mas é fato que o suicídio existe e são inúmeras as pessoas que o cometem. Mas afinal, como pretendem combatê-lo?
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Desculpe, mas não faço a mínima idéia. Pretendia apenas notificar um pouco sobre o assunto...
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Kari Mendonça

domingo, 7 de setembro de 2008

O primogênito

Já haviam passado quase seis meses desde que Sara descobriu que estava grávida. Sua vida havia mudado completamente. Estava prestes a entrar na faculdade, faltava pouco para tirar a carteira de motorista e a sua liberdade estava quase alcançada quando, por um pequeno descuido, engravidou.

Não sabia o que falar para seus pais e nem como falar com o namorado. Resolveu conversar com a sua mãe primeiro, independente do que ela pudesse dizer. Chamou-a para o quarto e, um pouco tímida, contou-lhe o que estava acontecendo. A principio ela não sabia o que falar, ficou nervosa, mas logo tratou de tranqüilizar a filha.

Mais tarde chamou o Matheus (o namorado) para sua casa. Estavam no quarto quando ela começou a falar. Ele não reagiu, disse que precisava pensar e foi embora. Sara achou que ele realmente precisava de um tempo e resolveu não ligar, demorasse o quando fosse. A semana pareceu quase interminável quando o telefone tocou, na quinta à tarde. Marcaram o encontro na casa dela.

Não demorou muito e ele chegou. Foram para o quarto. Ele parecia nervoso, ela já havia se acostumando com a idéia da nova vida. Gaguejou um pouco, até que começou a dizer o quanto aquilo estava sendo difícil de aceitar. Sabia que tinha “culpa” e responsabilidade dali para frente, mas não queria se envolver tanto. Disse não estar preparado para ser pai.

Sentada na cadeira um pouco a frente. Ficou parada, sem dizer palavra alguma. Apenas olhando-o e ouvindo a frase “não estou preparado...” ressoar em seus ouvidos. Queria gritar que também não estava preparada para ser mãe, que não queria adiar o começo da faculdade e muito menos perder a sua juventude.

Mas tudo o que conseguiu, foi deixar as lágrimas caírem enquanto olhava fixo para o ursinho de pelúcia que ele havia lhe dado duas semanas antes. Ele levantou, beijou-lhe a testa e saiu. Sabia que talvez jamais fosse vê-lo novamente. Não queria que ele assumisse o filho apenas pela obrigação, queria que ele o amasse, mas isso pareceu difícil.

E foi difícil nos cinco meses seguintes. Já estava acostumada em ser mãe. Já passava horas conversando com o seu bebê, cujo sexo ainda não sabia e só queria saber no dia do nascimento. Se fosse menino, se chamaria Marcelo. Se menina, Sofia. Tudo estava indo bem, apesar de todos os problemas que sua gravidez havia causado.

Até aquela tarde de sexta, quando, após um pequeno cochilo, começou a sentir uma forte dor de cabeça, enjôos e vomitou algumas vezes. E, antes que percebesse o sangramento, já estava a caminho do hospital. Não conseguia parar de gritar de dor. Doía a pélvis, a cabeça, o abdômen. Seu filho! Não conseguia parar de pensar nele.

Os médicos chegaram e pediram rapidamente alguns exames. O parto precisava ser feito imediatamente, ou nenhum dos dois teriam qualquer chance. Perguntou se tudo ficaria bem, mas não gostou de ouvir que não havia garantia nenhuma. Perguntaram-na para o caso de ter que escolher entre ela e o bebê, mas não conseguiu responder.

Pediu para ficar acordada durante a cirurgia e lhe responderam que tentariam fazer um parto como outro. Chamou sua mãe para entrar com ela e pediu que levasse a câmera, queria uma foto de seu filho, independente do que fosse acontecer. A cirurgia começou. Não foi fácil, a placenta já havia rompido e o bebê estava há algum tempo sem receber suprimentos. Não conseguiram salvá-lo.

Ouviu dizerem que seu bebê havia saído, mas não escutou um choro sequer. O choro tomou conta de si, as lágrimas não paravam de cair. Alguns minutos se passaram até que colocaram seu filho... Seu filho, morto, em seus braços. O segurou e o olhou como nunca havia olhado nada em sua vida.

E, por mais estranha que pudesse parecer, pediu para que sua mãe tirasse a foto. Ela hesitou, mas Sara insistiu. Queria gravar aquele momento, pois sabia que todos tentariam fingir que nunca aconteceu. Entregou aquele pequeno corpo, ainda em prantos, e foi levada para o quarto.

Naquele dia não quis falar com ninguém. No dia seguinte também. Era doloroso demais ter se sentido mãe, sem jamais poder dar de mamar... Sem poder olhar seu filho nos olhos. Sim! Era menino. Era Marcelo, aquele pequeno corpo que, por alguns instantes, segurou no colo.

Voltou para casa e ainda teve que ouvir pessoas dizerem que “foi melhor assim”. Não! Eles não sabiam a dor de uma mãe, e não sabiam o quanto doía ouvir algo como aquilo. Queria mandar o mundo pra longe, pois o mundo não parecia saber a importância do seu bebê. Esperou alguns dias, até que revelou aquela foto.

Ao buscá-la, não abriu a embalagem, esperou chegar em casa. Subiu para o quarto e, quando estava sozinha, abriu. Passou alguns instantes olhando-a. Tentou pensar que ele ainda estava vivo ali, e fez uma promessa. Prometeu jamais esquecê-lo. Jamais! Pois sabia que todos já o estavam esquecendo.

Prometeu jamais parar de pensar nele, um dia sequer. E lhe disse que, não importava o que acontecesse dali pra frente, ele teria sido o seu primogênito e ela o amaria eternamente.



Kari Mendonça

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

“Tudo que eu queria te dizer”

Meu bem,

Como sabes, estou lendo o livro “Tudo que eu queria te dizer”, da Martha Medeiros, e acabei inspirada para te escrever uma carta dessas. Talvez eu não tenha tantas coisas pra te dizer assim, pois acho que tu já sabes bastante sobre mim. Mas, talvez eu acabe encontrando algo que não foi dito, por algum motivo, não é mesmo?

A princípio, foi difícil aceitar que, apesar de sermos tão parecidos em algumas coisas, somos tão diferentes em outras. Queria fazer reclamações, mas logo percebi que eram bobagens, coisas sem importância, ou, simplesmente, era o teu jeito te encarar as situações. Resolvi aceitar e foi mais fácil pra mim.

Percebi que, se ficasse reclamando por besteiras, a cada vez que algo não me agradasse, acabaria te perdendo e não valeria à pena. É fato que temos opiniões diferentes sobre algumas coisas, mas hoje percebo o quanto essa diferença tem me ajudado em tantos momentos. É tão fortificante te ouvir dizendo que tudo vai dar certo, quando eu só consigo pensar no pior.

Há dias em que eu acordo com uma dor tão forte... É a dor da saudade. Há os dias em que ela sufoca, machuca. Parece que não vou conseguir suportar. Mas então, eu lembro que a saudade não é de qualquer “coisa” e nem de qualquer um. É saudade de ti, meu bem. Do que é o meu melhor. E, é saber que logo estaremos juntos que me faz continuar. Que me dá forças pra levantar quando a dor é forte e me faz seguir sabendo que logo ela diminuirá.

E não há um dia sequer que eu não pense em “tu”. Penso! E penso o tempo inteiro. Lembro dos nossos momentos juntos. Dos beijos tão.... Tão... De quando me envolves em teus braços e me abraças. E lembro como é maravilhoso estar contigo. Poder te sentir perto, te sentir meu... E é por isso que eu sempre conto os segundos para estar novamente nos teus braços.
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Quero que tu saibas a importância que tens na minha vida. Sabe que, eu já nem lembro como era não te ter por perto? E não faço questão de lembrar. Tu és importante demais. E tu me traz uma felicidade inexplicável. E, cada vez que eu penso "será que ele está com raiva de mim?", tu me abres um sorriso tão grande e tão gostoso e eu me sinto acolhida e amada ao teu lado.

Meu bem, talvez eu não tenha dito nada que tu já não soubesses, pois, sempre que temos algo a dizer, acabamos dizendo, conversamos, e sempre nos entendemos, não é mesmo? E como tantas vezes chegamos a concluir, de fato, o que sentimos um pelo o outro, é inexplicável. E mesmo que eu saiba que tenho muito amor por ti, sei também que há algo ainda maior.

Mas o que eu peço, é apenas que tu nunca, nunca esqueças disso...

Um abraço bem apertado, e um beijo no teu coração,
................................................................Tua Pequeninha
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PS.: Tentei escrever um poema, mas, como te disse, sempre acabo falando muito mais coisas do que cabem em um soneto....