quarta-feira, 17 de setembro de 2008

De todo coração

Vó, essa é a primeira vez que te escrevo algo. Sei que a senhora nunca vai ler, mas gosto de pensar que, enquanto escrevo, a senhora me escuta. São tantas coisas pra falar, mas eu realmente não sei por onde começar. Sabe que, eu fico tão triste quando penso na senhora...
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A tristeza vem por um único motivo, a falta das lembranças. Poxa! Tivemos tão pouco tempo juntas, e eu tenho tanta inveja de Samuel, por exemplo, que passou seis anos a mais ao seu lado e eu tenho certeza que ele tem muito mais lembranças do que eu. Isso é tão injusto, Vó.
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Hoje em dia, quando penso na senhora, não sei se é, de fato, uma lembrança ou foi algo que criei. É que foram tão poucos momentos que me lembro, que acabo misturando com momentos que vi no vídeo ou que me contaram. Ah sim! Sempre que falam da senhora eu te imagino exatamente como eu lembro.
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Sabe que, eu me arrependo tanto de não ter te dado aquele último beijo. Aquele beijo gelado. Mas, me conforta o coração saber que a senhora segurou a rosa que te coloquei nas mãos, aquela vermelha. Lembro tão bem daquele dia. E parece que, quando começa setembro, ele vai sendo revivido, todos os anos.
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E já se passaram treze anos Vó. É tanto tempo sem a senhora por perto, sem o teu colo. Acho que se a senhora me encontrasse hoje não me reconheceria, eu cresci, sabe? Já tirei a carteira de motorista e estou até fazendo faculdade. Mainha diz que estou dirigindo bem e Tia “Caloide” sempre me deu o maior apoio com o curso.
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É Vó, eu vou ser jornalista que nem ela. Mas não quero aparecer em televisão não, sabe? Eu não gosto muito. Na verdade, eu morro de vergonha. Oras, eu também não sou tão bonita como ela. Quer dizer... E por falar nisso, a senhora não imagina o quanto as suas irmãs estão mais parecidas...
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Vó, das poucas lembranças que eu tenho, uma delas é quando a senhora me segurava e eu esperneava pra ir para a aula com mainha. Me desculpa por aquele dia, eu não sabia que teríamos tão pouco tempo. Estive pensando e percebi que só passamos juntas, de verdade, dois anos, pois os outros quarto eu morava fora.
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Outra lembrança é a do leite moça com Nescau que a senhora preparava no domingo. Ou do pão com queijo “de copo”. Ou, a melhor de todas, o bolinho de fubá... Ah Vó!!! A senhora acredita que, até hoje ninguém nunca fez um bolinho como o que a senhora fazia? Até tentaram, mas nunca ficou igual.
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E por falar no bolinho, até hoje eu culpo mainha de ter entregue os últimos bolinhos que a senhora me fez, pra o menino da rua. Ela sempre diz que não sabia que seriam os últimos, mas eu sempre reclamo. Ai que saudade daquele bolinho...
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Outra lembrança que tenho é da senhora na rede amarela com eu e Natália, enquanto a senhora cantava “ô lua branca de fulgores...”. Sabe Vó, eu estive lendo a letra dessa música e achei tão triste. Por que a senhora sempre cantava ela? Todas as pessoas que falo, lembram da senhora cantando essa música.
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Outra música que bem lembro é aquela da fita azul, que dizia “ponha um grande sorriso no seu rosto...”. Mainha sempre cantava pra gente quando estávamos tristes, quer dizer, ela canta até hoje... E eu sempre me lembro de quando a senhora ligava o filme da música. Eu não lembro bem o filme, e só desse pedaço da música.
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Ô Vó... As coisas mudaram tanto desde que a senhora se foi.... Mudaram não apenas por termos crescido e amadurecido, mas sei lá... Eu penso que, talvez, se a senhora estivesse por aqui, tanta coisa não teria acontecido. Tantos desentendimentos, discórdias... Tanta bagunça e distância.
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Vó! Queria tanto poder te dar um abraço agora... Tenho tanta saudade da senhora. Saudade de momentos que nunca vivi, de abraços que nunca dei... De momentos que passei e sempre achei que faltava a senhora lá pra completar a festa.
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Agora eu vou indo dormir. Estou um pouco cansada, sabe? Mas Vó, eu quero que a senhora saiba que eu amo muito a senhora, mesmo nunca tendo podido te dizer isso. E, outra coisa que me conforta o coração é que, para a senhora, eu vou ser sempre a caçula.
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Um beijão,
Da neta mais nova,
Karina

16 comentários:

Érica disse...

Me partisse o coração!
Eu não tive vó, nem vô. É muito triste isso, pq eu sei que eles são essenciais na vida da gente. Eles fazem com que sejamos seres humanos melhores. Eu não tive nenhum deles, nem meu pai, só minha mãe. E ela teve que carregar nas costas todos os papeis que eles teriam que desempenhar. Ainda bem que você tem lembranças dela, poucas, mas indissolúveis, pq mil anos passaram, e elas não se apagaram.

Beijo!
:*********

Grazi Sperotto disse...

Meu Deus do céu, menina! pra que me fazer chorar assim? Coisa mais linda esse texto, ou carta, sei lá...
Perdi minha vó há 2 anos e meio, e sinto muita saudade dela. Dos abraçoes que não dei, do pastel que ela fazia... Me vi no teu texto, no colo da minha avó querida!
Você conseguiu colocar as palavras com tanta emoção, tanto carinho, duvido alguém que não chore lendo...
Beijão querida!

Adriano DiCarvalho disse...

Me deixou emocionado, moçinha...rs
Tudo que envolve o amor em família me pega de um jeito mito especial, sabe!
E fica sempre a lição, ao ler textos como esse seu agora, de que devemos aproveitar a vida em toda sua plenitude e amar e demonstrar esse amor por todos aqueles que amamos... Enquanto os temos cá debaixo do braço.

BJ GRANDE Kari...

Érica disse...

Aaah, posso até imitar, mas só o que é bom. uauhahuauhauha
Tu não liga não né?
Beijo meu danoninho!
:***

ADRIELLE FERNANDES disse...

Sinto muito acho q deixei de ler alguma parte se eu te machuquei de alguma forma desculpa sua avó me parece q foi uma pessoa muito boa e tem ainda uma neta q a ama muito mesmo assim eu gostaria de ter uma avó como a sua parece q foi pois as minhas são muito más e não gosta dos netos nenhum pouco.
KARI desculpa se eu te ofendi.
Bjos

Simplesmente *Ana* disse...

Eu estava a procura de blogs que, não tivessem apenas postagens escritas de enfeites,e essas coisas, fui fussando e encontrei este aqui... que me emocionei muito, com esta postagem... lembro de minha bisavó querida da saudades...
Parei hoje para pensar que nossas avós são muito importantes pra gente...
Gostei muito e quero visitar mais vezes este blog... posso??? rsrs

bjusss e continue sempre escrevendo com a alma isso é extremamente poético, poís é verdadeiro emociona e a gente se identifica!!!!!

Dan disse...

Nossa que lindo kari, sentimenos sao sempre tao emotivos
:)

® disse...

Que lindo esse texto, me emocionei!

Flavinha disse...

sua avó ouviu, sim. Ela te ouve todos os dias...

Beijo carinhoso, flor.

Camila disse...

Ai Kari... vc sempre me emociona com seus textos!
Agora só tenho uma avó e amo tantoooooooo que não tem como dizer!
Vó e mãe são tudo de bom!
Beijoooo

Adriano DiCarvalho disse...

Ei Ka, tem presente pra o Botando Pra Fora lá no NOSSO LINK. Passa lá pra buscar.

BJÃO.

Leh disse...

Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm me emocionei lendo... fiquei lembrando da minha vó!! E de cada detalhe das coisas que ela fazia.

Beijos

Candy disse...

Poxa, Kari!
vc me fez lembrar tanto da minha avó que faleceu ano passado.
:~
fiquei triste agora
:(

» NaY « disse...

Sempre tive vontade de saber o que é carinho de vó... Tive muito pouco tempo (apenas 4 anos) com minha avó paterna, e a materna eu nem cheguei a conhecer! São poucas e vagas as lembranças que tenho, mas minha mãe diz que ela me mimava bastante...
Esse seu post mecheu comigo! =/

Xerus
=***

Palavras de um mundo incerto disse...

Pequena, apaixonei-me por ti por você ser assim: humana, com um doce coração.


Beijos e abraços!!!



Marcos Seiter

Cara de 30 disse...

Nossa... Textos assim é que fazem valer uma boa garimpagem de blogs.

Parabéns por conseguir externar seus sentimentos tão bem e tocar tanta gente que leu seu texto.

Não preciso dizer que também me emocionou, certo? Mas fica registrado.