quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O dia em que eu me matei!

Abri os olhos. Ainda era cedo. Estava escuro e muito frio. Tentei me levantar, mas lembrei que não havia nada para fazer. Há poucas semanas fui demitida do emprego, disseram ser por “redução de custos”. Desconfio. Não havia ninguém com quem conversar. Não tinha amigas, abandonei-as por causa dele. Não que ele tenha pedido, apenas decidi que meu tempo livre seria dele e de mais ninguém. Hoje, não o tenho mais. E a culpa foi toda minha. Claro que eu o devia ter amado mais, devia ter-lo dedicado mais tempo. Deveria ter feito mais coisas para ajudá-lo. Nem sei mais o que poderia ter feito, mas sei que o que fiz foi pouco. Quanto ao meu emprego, sei que não foram apenas as reduções de custo. Eu não estava na empresa há pouco tempo e por isso, não havia motivos para me demitir, exceto pela minha incompetência, mas sendo assim, por que haviam me contratado? Sei que deveria ter dedicado mais tempo ao meu trabalho. Sei que não fiz o suficiente. Não gastei as horas que deveria gastar, não usei todos os recursos que sabia usar. Como sempre, não fui melhor em nada. Filhos? Nunca mais os poderei ter. Nunca mais amarei alguém tanto quanto o amei. E creio que nunca serei amada como ele me amou. Era tímido, não fazia muitos carinhos, mas sei que me amava. Sempre que estávamos juntos eu percebia aquele brilho no seu olhar. Sempre soube que ele era o cara certo pra mim, sempre soube! Não entendi como ele pôde me deixar. Não entendi aquela conversa. Ele não disse com todas as letras, mas sei que a culpa foi apenas minhas. Ele sempre fez tudo muito perfeito. Sempre aparecia quando dizia que viria, sempre me ligava quando prometia... Não sei onde, mas sei que fiz tudo errado. E agora? Deveria me levantar. O sol já vai nascer. Deveria procurar um emprego. Mas não tenho vontade. Sinto-me frustrada com a vida. Já não encontro sentido para viver. Não tenho motivos para procurar o ar, não tenho a mínima vontade de fazer nenhum esforço. Já faz algum tempo que não vejo sentido para minha vida. Certo dia, inventei que o sentido da minha vida era ele. Mas ele se foi. Decidi me levantar, ou melhor, me sentar na cadeira ao lado da cama. Peguei um papel, procurei a caneta, e escrevi:
.
- Certa vez li que devia ser autora da minha própria história. Nunca fui autora de coisa alguma. Nunca segui meus desejos, meus instintos, meus sonhos. Já não mais o que fazer, a história está começando a se tornar chata e antes que isso aconteça, é melhor que acabemos com ela.
.
Deixei o papel em cima da mesa, próximo ao meu celular. Fui até a área de serviço. Peguei uma corda, a havia comprado há alguns meses, mesmo sem saber sua utilidade, levei-a para o quarto. Fechei a porta. Amarrei a corda na janela. Olhei para os lados, decidi não me despedir de nada, não queria levar nenhuma lembrança. Coloquei a corda no pescoço e pulei a janela. Enquanto estava sendo segurada apenas por aquela corda presa em meu pescoço, ouvi gritos, mas não consegui saber de onde vinham. O ar já começava a me faltar. Eu o buscava, mas a cada segundo ele se distanciava.Pensei que jamais poderia escrever um livro, plantar uma árvore ou ter o meu tão sonhado filho. Era o fim. Tentei por uma última vez, mas foi inútil, o ar já não era mais pra mim.
.
Publicado originalmente em 10/09/2007.
.
O dia 10 de setembro foi escolhido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), para ser o Dia do Combate ao Suicídio, visando prevenir e alertar a população para o assunto, visto que suas causas ainda são complexas e pouco conhecidas. Apesar de pouco comentado, o suicídio é uma das maiores causas de mortes violentas em todo o mundo. Estima-se que, a cada 30 segundos uma pessoa comete suicídio e, para cada suicídio ocorrido, 20 tentativas são falhas.
.
O suicídio pode ser o fim para quem o comete, mas é apenas o começo de vários traumas tanto emocionais, quanto sociais e econômicos para aqueles que “perderam” alguém. E se você não ouve muito falar do assunto, não significa que ele não exista. Mas existe uma convenção para que suicídios não sejam notificamos em meios de comunicação. Talvez você tenha percebi que, quando algum famoso morre, o máximo que notificam é "suicídio acidental".
.Não se fala no assunto, não se dá ênfase e não se tenta justificar. Dessa forma, as pessoas acabam não pensando no assunto e só se dão conta quando alguém que conhecem resolve dar um fim em tudo isso. Mas é fato que o suicídio existe e são inúmeras as pessoas que o cometem. Mas afinal, como pretendem combatê-lo?
.
Desculpe, mas não faço a mínima idéia. Pretendia apenas notificar um pouco sobre o assunto...
.
.
Kari Mendonça

6 comentários:

Antônio disse...

Felizmente, foi-se o tempo em que eu pensava nisso constantemente.
De qualquer forma, é um assunto realmente sério e que requer vários cuidados ao ser abordado. Boa lembrança, Kari!

Beijo!

Flávia disse...

Sempre me perguntei o que leva uma pessoa a achar que não existe mais sentido em continuar viva. E sempre acho que, se tivesse esperado mais 5 min, teria mudado de idéia...

enfim, a gente nunca tem ocmo saber, mas muitas vezes tem como ajudar.

Beijos!

Palavras de um mundo incerto disse...

Bah, creio que por um profundo sentimento de tristeza as pessoas comentem esse crime contra a própria vida. Por que será que o Kurt estourou sua cabeça com uma doze? Dizem que foi por causa da fama. Ele odiava a fama, o dinheiro. Ele não queria saber da modernidade. Seu violão era o mais chinelo de todos. Dele, Kurt, arrebentava. A vida tem um fim. Mas desse jeito deve ser horrível.


Beijos querida!!!



Marcos Seiter

Auíri Au disse...

Vamos criar nossa história sempre colorida e com giz de cera!
E no final como nos livros....


Beijos colega!!

Alê Raposo disse...

É triste imaginar o que pode passar pela cabeça de uma pessoa minutos antes de cometer o suicídio!! Deve ser uma angústia sem fim...

Érica disse...

O sentimento de um suicida deve ser da mais absoluta escuridão. Eu nem consigo imaginar algo assim, é o maior ato de coragem e de fraqueza (simultaneamente) que uma pessoa pode ter, mas infelizmente eu acho que não dá pra combater, é uma coisa da pessoa pra pessoa, não há como evitar. É triste, mas é a vida!

Adorei Kari"nhosa"
uhauhauhahuahuahhua
Tu entendeu o trocadilho?
Beijo amiga!