domingo, 7 de setembro de 2008

O primogênito

Já haviam passado quase seis meses desde que Sara descobriu que estava grávida. Sua vida havia mudado completamente. Estava prestes a entrar na faculdade, faltava pouco para tirar a carteira de motorista e a sua liberdade estava quase alcançada quando, por um pequeno descuido, engravidou.

Não sabia o que falar para seus pais e nem como falar com o namorado. Resolveu conversar com a sua mãe primeiro, independente do que ela pudesse dizer. Chamou-a para o quarto e, um pouco tímida, contou-lhe o que estava acontecendo. A principio ela não sabia o que falar, ficou nervosa, mas logo tratou de tranqüilizar a filha.

Mais tarde chamou o Matheus (o namorado) para sua casa. Estavam no quarto quando ela começou a falar. Ele não reagiu, disse que precisava pensar e foi embora. Sara achou que ele realmente precisava de um tempo e resolveu não ligar, demorasse o quando fosse. A semana pareceu quase interminável quando o telefone tocou, na quinta à tarde. Marcaram o encontro na casa dela.

Não demorou muito e ele chegou. Foram para o quarto. Ele parecia nervoso, ela já havia se acostumando com a idéia da nova vida. Gaguejou um pouco, até que começou a dizer o quanto aquilo estava sendo difícil de aceitar. Sabia que tinha “culpa” e responsabilidade dali para frente, mas não queria se envolver tanto. Disse não estar preparado para ser pai.

Sentada na cadeira um pouco a frente. Ficou parada, sem dizer palavra alguma. Apenas olhando-o e ouvindo a frase “não estou preparado...” ressoar em seus ouvidos. Queria gritar que também não estava preparada para ser mãe, que não queria adiar o começo da faculdade e muito menos perder a sua juventude.

Mas tudo o que conseguiu, foi deixar as lágrimas caírem enquanto olhava fixo para o ursinho de pelúcia que ele havia lhe dado duas semanas antes. Ele levantou, beijou-lhe a testa e saiu. Sabia que talvez jamais fosse vê-lo novamente. Não queria que ele assumisse o filho apenas pela obrigação, queria que ele o amasse, mas isso pareceu difícil.

E foi difícil nos cinco meses seguintes. Já estava acostumada em ser mãe. Já passava horas conversando com o seu bebê, cujo sexo ainda não sabia e só queria saber no dia do nascimento. Se fosse menino, se chamaria Marcelo. Se menina, Sofia. Tudo estava indo bem, apesar de todos os problemas que sua gravidez havia causado.

Até aquela tarde de sexta, quando, após um pequeno cochilo, começou a sentir uma forte dor de cabeça, enjôos e vomitou algumas vezes. E, antes que percebesse o sangramento, já estava a caminho do hospital. Não conseguia parar de gritar de dor. Doía a pélvis, a cabeça, o abdômen. Seu filho! Não conseguia parar de pensar nele.

Os médicos chegaram e pediram rapidamente alguns exames. O parto precisava ser feito imediatamente, ou nenhum dos dois teriam qualquer chance. Perguntou se tudo ficaria bem, mas não gostou de ouvir que não havia garantia nenhuma. Perguntaram-na para o caso de ter que escolher entre ela e o bebê, mas não conseguiu responder.

Pediu para ficar acordada durante a cirurgia e lhe responderam que tentariam fazer um parto como outro. Chamou sua mãe para entrar com ela e pediu que levasse a câmera, queria uma foto de seu filho, independente do que fosse acontecer. A cirurgia começou. Não foi fácil, a placenta já havia rompido e o bebê estava há algum tempo sem receber suprimentos. Não conseguiram salvá-lo.

Ouviu dizerem que seu bebê havia saído, mas não escutou um choro sequer. O choro tomou conta de si, as lágrimas não paravam de cair. Alguns minutos se passaram até que colocaram seu filho... Seu filho, morto, em seus braços. O segurou e o olhou como nunca havia olhado nada em sua vida.

E, por mais estranha que pudesse parecer, pediu para que sua mãe tirasse a foto. Ela hesitou, mas Sara insistiu. Queria gravar aquele momento, pois sabia que todos tentariam fingir que nunca aconteceu. Entregou aquele pequeno corpo, ainda em prantos, e foi levada para o quarto.

Naquele dia não quis falar com ninguém. No dia seguinte também. Era doloroso demais ter se sentido mãe, sem jamais poder dar de mamar... Sem poder olhar seu filho nos olhos. Sim! Era menino. Era Marcelo, aquele pequeno corpo que, por alguns instantes, segurou no colo.

Voltou para casa e ainda teve que ouvir pessoas dizerem que “foi melhor assim”. Não! Eles não sabiam a dor de uma mãe, e não sabiam o quanto doía ouvir algo como aquilo. Queria mandar o mundo pra longe, pois o mundo não parecia saber a importância do seu bebê. Esperou alguns dias, até que revelou aquela foto.

Ao buscá-la, não abriu a embalagem, esperou chegar em casa. Subiu para o quarto e, quando estava sozinha, abriu. Passou alguns instantes olhando-a. Tentou pensar que ele ainda estava vivo ali, e fez uma promessa. Prometeu jamais esquecê-lo. Jamais! Pois sabia que todos já o estavam esquecendo.

Prometeu jamais parar de pensar nele, um dia sequer. E lhe disse que, não importava o que acontecesse dali pra frente, ele teria sido o seu primogênito e ela o amaria eternamente.



Kari Mendonça

11 comentários:

Palavras de um mundo incerto disse...

Bah! Sara, uma mãe de verdade, que sequer ligou para os conselhos de esquecimentos dos outros.

Guria, consegui figurar os momentos escritos.

Fiquei angustiado em algns momentos!!!

Bjos querida!!!



Marcos
Marcos Seiter

Jéssica disse...

Se tivesse um site com uma campanha contra o aborto, esse texto deveria ser indicado. Meio que como uma apresentação.


Lindo, lindo. Amei!

Candinha disse...

ôô Sara.. pôde ser mãe graças à garantia da fotografia do primogênito.. e que dor horrível deve ter sido segurar o filho morto nos braços.. =/ não quero nunca sentir essa dor!

belo texto, kariroca.. Texto de coragem, inspiração, apesar de tdo. ^^

saudade, lindona! um xêro, Candinha.

Camila disse...

Nossa! Que triste.
Esta sim seria uma boa mãe, assim como foi!
Beijo

Érica disse...

Eu conheço uma história parecida, uma amiga de uma amiga tava grávida, também não sabia o sexo, já tava com oito meses e perdeu. Ela ficou péssima, destruida, mas agora tá grávida denovo e o bebe já esta pra nascer, vivo e cheio de saúde. Eu acho que a vida prepara umas dessas pra gente sabe, a gente não entende é muito duro, muito cruel, mas sempre depois da tempestade, vem a bonança. É o que dizem.

Beijos e até mais tarde!
:)

ღ mey ♥¨`*•.¸¸.•*´¨♥ღ disse...

nossa guria, que texto lindo... e triste... não queria passar por isso, de ter um filho e vê-lo morto, não aproveitá-lo, não poder cutir... amei o texto! bjs

Paula Cortez disse...

lindo..

me emocionou bastante.
dá uma mistura de agustia com medo.

gostei daki tb..!

=)

Auíri Au disse...

Que triste...
Mais pensando aqui comigo, a vida é mesmo torta né? O que seria da vida dela se ele estivesse vivo agora? Já percebeu o quanto um pequeno fato, muda o rumo de tudo??
Beijos amiga....

No meu mundo. disse...

Amiga, teus textos ultimamente hein?
Tão pegando pesado.
Não vou nem comentar sobre o fato, tu sabe a minha vontade de ser mãe como é grande então não me passa nem pela cabeça essa situação.
Mas pena que ela existe.
Bjos.

Lilah disse...

meu Deus.
comecei a ler seu texto escutando uma música, "Tudo é do pai",e não pude evitar a lágrima.
e a imensa vontade de abraçar Sara pra dizer que o filho dela jamais ira esquecer dela.

=]

beijo

® disse...

Pegou na veia essa Karizinha, pq com o meu primogênito (menino tb) aconteceu a MESMA coisa! O meu era Fábio. E teve um agravante ainda a mais, que é melhor xá pra lá!

Pois é, ter sido uma Sara nao foi uma tarefa fácil!

Mas como diz a música:
´É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca.`

À todas as Saras desejo que tudo seja superado, pois como disse seu amigo aqui em cima, ´um pequeno fato muda o rumo de tudo.`

Beijos, e continue na torcida!!!:)