quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O meu Recife

Desde pequena, gosto de mexer em fotografias e em coisas antigas. Conheci as minhas quarto bisavós e duas delas moravam ao meu lado. Gostava de estar com elas, de ouvir suas histórias e seus momentos que, aos meus olhos, pareciam ter acontecido há muito tempo atrás, mas que, para elas, era como se tivessem acontecido ontem.

Com o passar dos anos, elas foram morrendo e sempre que suas coisas eram colocadas em algum canto da casa, eu corria para lá. Ficava horas, ás vezes dias viajando em lembranças que não foram minhas e tentando imaginar cada momento descrito em todas aquelas fotos.

Os meus bisavôs não conheci. Nenhum deles. Mas, um dia, descobri a carteira de sócio de um deles, era do Clube Náutico Capibaribe. Sorri sozinha imaginando como seria o clube naquela época. Esses dias, olhando novamente algumas fotos, reencontrei duas que muito me agradam.
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São as fotos do Recife, do meu Recife. Da Veneza brasileira. Do Capibaribe iluminado. Das pontes encantadoras. Do Recife que todo turista deveria conhecer. O Recife, como ele mesmo (meu bisavô) escreveu, em 1928. O Recife a luz do sol e iluminado para destacar seus encantos.
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Fiquei alguns minutos olhando as fotos. Questionei-me como seria essa cidade naquele ano. Onde ele estaria quando tirou essas fotos? O que estava pensando? O que pretendia? Para muitas das perguntas, eu jamais terei resposta, mas, uma delas, posso responder sem hesitar e, conseqüentemente, com enorme pesar.

O Recife não é o mesmo. Não apenas por alguns edifícios a mais, por algumas avenidas novas ou pontes reformadas. Mas pela violência. Acredito que em 1928, o Recife não era a capital mais violenta do país. As cidades pernambucanas não eram comparada aos países europeus, ganhando com o maior número de mortos.

Em 1928, não havia, na Rua Guilherme Pinto, um contador de homicídios. Sim! Recife, a capital com maior número de homicídios do país “ganhou”, em 30 de abril, o primeiro contador de homicídios do mundo. A intenção foi “mexer com a população” e, de certa forma, exigir alguma providência do Estado.

Acredito que, naquele ano, era agradável passear pelas belas pontes, pela avenida Boa Viagem, ou pelo centro da cidade á noite. Hoje é perigoso. Ainda saímos pelas ruas, mas há sempre aquele medo. Medo de não voltar para casa ou de voltar ferido e “sem nada”. Afinal, um assalto fere a dignidade daquele que tanto batalhou para conseguir o que, em poucos segundos, lhe foi roubado.

A violência não destruiu a beleza da Veneza, mas a modificou. O Capibaribe transborda suas lágrimas, o vazio (comparado aos anos anteriores), no Recife Antigo, entristece qualquer um. É por isso que, quem vem ao Recife, nota que apesar de tão belo, algo se esconde. Algo que, de certa forma é culpa dos recifenses, mas que, aos poucos (infelizmente ainda é aos poucos), eles estão tentando mudar.

E eu quero o Recife da foto. O Recife de 1928. O Recife sem violência. O Recife da infância do Manuel Bandeira, das palavras do João Cabral, o Recife da minha saudade...


Kari Mendonça

domingo, 26 de outubro de 2008

Ao meu bem

Aumentei a tela. Estavas lá, em tamanho quase real, a minha frente. Sem saberes, te beijei a testa, num gesto de carinho. Teu rosto parecia tão perto do meu. Teus lábios estavam tão próximos, cobertos apenas por teu braço, que apoiava a cabeça. Estavas lendo. Tão concentrado que se quer percebeu que eu te observava atentamente. De tudo o que estava vendo, a tua pulseirinha do pulso direito, era a mais próxima, a mais visível. Gosto dessa pulseira. Sei que tem um significado especial pra ti e, sempre que penso em ti, lembro dela. Não há como pensar em teus braços, sem a tua pulseira. E não há como pensar na pulseira sem te querer por perto.

E, enquanto escrevo, saio para te observar e volto. Penso em mil coisas enquanto te olho. Vez ou outra tu levantas os olhos. E, meio rápido, tu me olhas e logo voltas para teu livro. Gosto de ver concentrado, atento em algo. Sei que, quando vais fazer, seja o que for, gostas de fazer direito. E isso eu admiro bastante em ti. E por mais que pareça bonito escrever que eu passaria a vida aqui te observando, não é o que quero. Não conseguiria passar tanto tempo assim te beijando a testa sem sentires meus lábios. Ouvindo teus beijos sem sentir o calor da tua boca. Vendo teu corpo, sem poder te tocar. E sonhando contigo, sem poder realizar.

É por isso que eu conto os dias, os segundos para estar contigo. Ou melhor, contigo estou sempre, mas não vejo a hora de estar ao teu lado, sentindo teu cheio, tua pela, teu suor...


Kari Mendonça

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

As caixas

O dia hoje não foi fácil. Doeu, magoou, fez chorar, mas, finalmente consegui organizar tudo dentro de quantas caixinhas foram necessárias. O fato é que eu percebi que estava fazendo tudo errado. E tem coisa pior do que descobrir que tudo o que fazia não estava correto? Não deveria ser daquele jeito? É ruim, mas ainda bem que dá tempo de desarrumar e organizar tudo novamente.

Assim, fui atrás de caixas. Qualquer caixa, desde que não fosse transparente, e de qualquer tamanho, desde que coubesse no meu quarto. No cantinho, ali, próximo a janela. Sentei-me próximo as caixas, abri cada uma com cuidado. Fiz questão de deixá-las bem coloridas (na parte interior apenas), afinal, não permitiria que eles ficassem em um lugar qualquer.

Após colorir, deixei-as seguras, afinal, o que seria colocado nelas é de alto valor e extremamente frágil. Com tudo pronto, sentei-me em frente a elas. Decidi que era hora de organizar aquela bagunça. Por alguns minutos, fiquei apenas sentada, não estava pronta. Não sabia por onde começar. Tardou, mas, decidi que não poderia ficar parada para sempre.

E foi nesse momento que comecei a reaver, lembrar e pensar em cada um dos meus sonhos. Para cada um deles fiz uma lista com pós e contras. Quais valeriam ou não a pena lutar para realizar e quais pareciam apenas sonhos de uma menina iludida que, por mais que tentasse se enganar, sabia que jamais sairiam de seus pensamentos. Quando acabei a enorme lista, foi a hora mais difícil.

Tive que escolher quais, de fato, eu estou disposta a lutar, haja o que houver. Os outros, deixei no papel na lata de lixo lá do quarto. Já aqueles que escolhei, embrulhei cada um, cuidadosamente, e os coloquei nas caixas. Uma caixa para cada sonho. E cada caixa tinha o tamanho equivalente ao sonho.

E, antes que você resolva perguntar por que eu tive tanto trabalho apenas para organizá-los, eu explico. As caixas não foram para deixá-los em ordem. Elas servirão para escondê-los. De mim? Não! De forma alguma. Todos os dias, assim que levantar da cama, olharei para cada um deles e assim, levantarei com a garra de lutar para realizá-los e, poder, logo, tirá-los de lá.

Espero que não tenha ficado confuso. Mas é que, percebi que ficar falando o que quero e o que pretendo não me ajuda em nada, ao contrário, atrapalha. Pois, enquanto eu conto aos setes ventos os meus sonhos, ás vezes, os ventos voltam contra mim e tentam me fazer mudar de idéia ou tentam me deixa em dúvidas.

E eu não quero que meus sonhos sejam colocados em bandejas para que, quem quer que seja, resolva o que é ou não melhor para mim. E foi por isso que decidi colocá-los nas caixas. Para protegê-los, fortalecê-los e, em breve, tirá-los de lá e escrever em frente à caixa, realizado!



Kari Mendonça

E, com a decisão de “embrulhar” os sonhos, o blog acaba ficando um pouco diferente. Mas só um pouco. Ainda será (sempre) meu canto de desabafo, apenas não falarei de algumas coisas sempre tão presentes. Dessa forma, os contos invadirão e serão muito bem vindos. Será maravilhoso colocar a minha mente a prova para criar e imaginar tantas histórias para escrever.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Um segundo!

Basta um segundo e tudo fica diferente. Um segundo. Apenas isso e pode ser fatal. Em um segundo o gatilho pode ser puxado, ou não. Nesse segundo, uma vida pode acabar, ou não. Afinal, por mais que não pareça, a vida é feita de segundos. Segundos que formarão minutos, mas onde cada um tem uma importância fundamental.

Porque um segundo pode ser especial. Em um segundo eles se olham nos olhos e dizem “sim!”. Nesse segundo ela reconhece que ele é o homem da sua vida, e vice versa. E por mais que tudo tenha sido pensando e decidido com antecedência, é naquele segundo onde tudo toma “forma” e se concretiza.

Mas um segundo também pode ser fatal. É o segundo do gatilho, do “não”... É o segundo de abrir a porta e o encontrar na cama com outra. O segundo em que a respiração acaba e, no segundo seguinte, é necessário fechar aqueles olhos já sem vida. E é esse segundo que vai destruir a sua vida.

Ou não! Por mais terrível e desastroso que tenham sido os segundos (ás vezes multiplicados em horas), é necessário seguir em frente. De alguma forma, com alguma força, mas é necessário não se prender aos segundos que passaram. Não revivê-los a cada instante é fundamental para continuar a caminhada.

Assim como, não se pode ser feliz apenas relembrando os bons segundos. É preciso fazer de tudo para que os segundos seguintes também sejam felizes. Afinal, um segundo de lembrança é prazeroso, mas, querendo ou não, o segundo seguinte é triste, pois bate a saudade, a vontade de voltar aquele momento e reviver tudo novamente.

Resumindo, é necessário que não se perca os poucos segundos que a vida oferece, afinal, um segundo faz toda a diferença.



Kari Mendonça

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

O luar na escuridão

"Amor assim, mesmo distante é como a luz na escuridão."
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Faltou luz!
Mas não faz mal.
Todas as luzes, hoje,
poderiam ser desligadas.

Todos os faróis poderiam
não ser usados.
Todos os postes deveriam
ser economizados.

Hoje, a noite poderia
parecer uma imensa escuridão.

Mas ela está lá.

E mesmo que não haja luz para iluminar,
a lua vai sempre irradiar
um eterno brilho em teu olhar.


Kari Mendonça

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Medo do quê?

Uma certa Menina me fez a seguinte pergunta: “o que te faz esconder-se debaixo do edredom, suando frio, tremendo e rezando? Do que você tem medo?”

Para responder a pergunta ao pé da letra, não demorei nem um minutinho pensando. Morro de medo de tempestade. Pra mim, não existe nada pior do que ouvir, no meio da noite, aquele trovão e sentir aquele clarão entrando pela janela. Me cubro dos pés a cabeça com o lençol, fecho os olhos bem forte e fico pedindo a papai do céu que acabe logo com isso. Não sei a razão desse medo e nem sei do que exatamente tenho medo.

Mas também tenho alguns outros medos, que não há edredom ou lençol que me ajude. Já tive medo de perder amigos. Mas depois que perdi alguns, percebi que não devo ter medo, pois, os nossos momentos juntos estarão guardados pra sempre na minha memória e isso me basta.

Já tive medo que a vida levasse alguém que amo. Mas depois que ela levou algumas pessoas bem importantes, aprendi que “a saudade varia com o tamanho do amor” e, portanto, sentirei saudade sempre, e as lembranças estarão sempre como minhas sombras. E é com elas que sigo mais forte.

Hoje, tenho muitos medos ainda. Tenho medo de olhar para trás e perguntar: onde estão os meus sonhos? O que fiz com eles? Tenho medo de não ser amada por quem amo, porém, jamais tive/tenho medo de amar. Tenho medo do tempo. Percebo que ele é capaz de transformar as pessoas e tenho medo que tanta mudança acabe nos afastando pra sempre, pois, como éramos, jamais voltaremos a ser.

Tenho medo de não superar as expectativas daqueles que tanto me apóiam e acreditam em mim. Medo de decepcioná-los. Medo. Medo. Tenho muitos medos, mas tento sempre não deixar que eles me dominem.


Kari Mendonça

Publicado originalmente em 24 de setembro de 2007

domingo, 5 de outubro de 2008

"Oito sonhos que a gente tem que realizar antes de morrer"

Pra começar, eu tenho aquele sonho de ter uma família, com meus filhos e o “homem da minha vida”. Mas eu não sonho com um casamento, uma igreja e um vestido branco. Sonho com a minha casa, as minhas coisas, o meu dinheiro.

Sonho também em ser uma boa profissional da área de comunicação, do jornalismo. Bem sucedida, realizada e feliz com o que alcancei. Entretanto, jamais penso em colocar a carreira em primeiro lugar. A minha casa é sempre mais importante.

Eu sonho em comprar uma passagem só de “ida”. Em ir pra onde quero, com quem quero e como quero, e começar a minha vida do zero. Fazer novos amigos, arrumar um emprego... Começar tudo da forma que jamais pude.

Também sonho em carregar meu filho no colo. Em poder olhá-lo a primeira vez, sentir seu coração perto ao meu. Poder amamentá-lo e ensiná-lo da melhor forma. Quero poder vê-lo crescer e pronto para o mundo. Sonho com os filhos dos meus filhos, quando as minhas responsabilidades serão menores e poderei curtir ainda mais.

Tenho o sonho de escrever um livro. Um romance, como os da Marian Keyers ou Meg Cabot. Com personagens engraçadas, frustradas e que sofrem bocados até que as coisas se arrumem e que encontrem alguém especial. Um livro que, além de me deixar satisfeita, possa alegrar as férias de tantas pessoas como elas me alegram há tantos anos.

Sonho com uma tarde friorenta de sábado, duas xícaras de chocolate quente, muitos filmes e “ele” ao meu lado. Ou uma noite de quarta-feira, após um dia de trabalho, poder olhar o pai dos meus filhos brincando com eles enquanto preparo o jantar.

E, entre sonhos simples e, aparentemente nem tão impossíveis assim, onde tudo o que basta é um pouco de esforço, vontade e perseverança, eu sonho em olhar para os meus pais e dizer: “eu consegui. Finalmente sou alguém na vida e é tudo graças a vocês.”.



Kari Mendonça

Camila, sei que fui contra as regras e fiz tudo diferente, mas esse foi um jeito que arrumei para responder ao meme. Aí estão os oito sonhos que quero realizar antes de morrer. Gostei da oportunidade! Beijos

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Interpretações

É por isso que escrever é tão bom. Influenciada pelo último post, percebi o quão gratificante é escrever algo e saber que lerem e como leram. É engraçado que, ao escrever, o autor pensa em algo e, quando lêem, as pessoas, na maioria das vezes, pensam outras coisas diferentes.

Ao escrever sobre a despedida, por exemplo, pensei naquela despedida no final de um encontro, de uma noite. Quando você se despede, mas sabe que logo se falarão e se encontrarão. Não pensei em grandes e dolorosas despedidas, apesar de que, me despedir, mesmo sabendo o que for, sempre dói um pouquinho.

Não é que eu não queira despedidas, eu quero sim, todos os dias. Mas quero despedidas diferentes, em situações diferentes. Quero, por exemplo, me despedir pela manhã, sabendo que nos encontraremos a noite. Quero me despedir no final da tarde, antes de sair com as amigas, sabendo que nos encontraremos mais tarde.

E o engraçado foi perceber a quantidade de interpretações. A Cris, por exemplo, falou que gosta de despedidas, pois elas nos renovam. E eu concordo. É sempre bom se despedir de um momento que passou, levantar a cabeça e seguir em frente. Já a Késia, a Érica, a Carol, e a Alexandra falaram das despedidas intensas. Daquelas que doem infinitamente e que nos deixa dias e dias esperando a volta, sabendo que ela não vai existir.

A Amália interpretou também a despedida definitiva. Disse que, “se o fim é certo, quando antes melhor”. Mas penso que, todo encontro tem um final, mas é sempre bom que eles aconteçam para nos ensinarem e que acabem para que desejemos um reencontro.

Mas afinal, eu não quero falar das despedidas e sim das interpretações. É tão bom quando alguém comenta algo que você escreveu e mostra uma visão diferente, um outro ponto que, até então, você não havia percebido. O seu texto acaba ganhando um novo significado até para você. Mas isso só acontece por causa dos outros.

E é por isso que eu não consigo entender como algumas pessoas são tão egoístas e gostam de viver sozinhas. Quer dizer... Eu não sou das pessoas mais sociais possíveis, mas eu tenho amigos e algumas pessoas que me rodeiam são de extrema importância pra minha formação a cada dia. Se não fossem elas, talvez eu não fosse como sou hoje. Assim como o que escrevo, se não fossem as pessoas, eu só teria uma interpretação de mim mesma.
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Kari Mendonça