segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Reflexões repentinas

Com o tempo, a gente acaba se descuidando com algumas coisas. Acontece sempre, seja com algo, ou com alguém. É como se fosse a ordem natural, mas não deveria ser. Percebi isso agora a pouco, com algo simples, que me levou a toda uma reflexão. Há dois anos ganhei um iPod e sempre o tratei com todo cuidado. Comprei até uma "meia" de celular para protegê-lo.

Umas duas semanas atrás ganhei um celular novo e, como não tinha com o que protegê-lo, peguei a "meia" do iPod. Olhei agora pela a o celular e "sua meia" e me dei conta de que o iPod está no banheiro, sem proteção nenhuma e correndo todos os riscos de quebrar ou danificar. Foi quando me dei conta que, ao ganhar algo mais novo, transferi meus cuidados para o outro, esquecendo do primeiro.

Questionei-me quantas vezes isso não acaba acontecendo nas nossas vidas. Quando conhecemos alguém, tudo é amor. Somo meigos, carinhosos. Não cobramos muito. Fazemos de tudo para evitar uma briga. Tentamos não discutir. Tudo, ou, quase tudo, parece aceitável. Controlamos-nos até onde não conseguimos mais. Com o tempo, no entanto, e sem precisar de algo "novo", acabamos no acostumando aquela pessoa.

É aí que a paciência começa a diminuir. Quando não fazemos tanto esforço para evitar aquela briga. Pelo contrário, ás vezes, qualquer coisa é motivo de uma discussão. Tudo parece inaceitável e deixamos de nos esforçar para que dê certo. É por isso que a taxa de divórcios está cada vez maior. Porque as pessoas acostumam-se as relações e deixam que querer "fazer valer a pena".

E isso não acontece apenas em relacionamento conjugais, mas em qualquer tipo de relação. Acontece nas amizades também. Dia desses uma amiga me questionou o motivo de estar "estranha" e disse-lhe apenas que, se estava, era sem querer. Talvez eu realmente estivesse estranha, mas não foi por gosto que cheguei a lhe tratar mal. É que, pelo tempo que temos juntas (já quase um ano, porém, tão intenso que parece muito mais), eu, por um instante, não me preocupei em agradá-la.

Falta-nos tolerância. E falta também vontade e esforço para continuar cuidando daquilo que, mesmo não sendo novo, ainda é nosso. Afinal, se pararmos de cultivar aquilo que temos, logo não teremos mais. E talvez, nem algo novo nos ajude a superar a perda. Porque, superar quando alguém vai embora, pode ser mais fácil do que superar quando fomos nós que afastamos quem tanto era importante.

E, ao acabar toda essa reflexão que me surgiu de repente, resolvi que serei mais tolerante (tentarei ser e sei que levará algum tempo, mas continuarei tentado até conseguir). Aprendi que tenho que valorizar mais aqueles que estão ao meu redor, pois, percebi que não quero perdê-los, ainda mais, por minha culpa...



Kari Mendonça

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Olho-te porque não posso beijar-te

Eu fico a te olhar... Olho-te porque não posso beijar-te. Não agora. Percebo o quanto és belo. "Meu Deus, como ele é lindo!" eu penso. Mesmo com teu jeito sério, percebo uma ponta de sorriso quando me olhas. Não consigo não retribuir. Sorrisos deveriam sempre ser retribuídos. Em dobro, se possível. Olho então para teus olhos cor de abacate e chego a me ver refletida em tuas pupilas. Percebo que mudas o tom da tua voz para falar comigo. O timbre fica mais manso, o jeito mais suave, as palavras mais doces... Há momentos, no entanto, que tu sorris para mim. É um sorriso gostoso, meigo e cheio de carinho sentido. Ás vezes, quando noto, estas a me encarar. Fico sem graça, mas não reclamo, pois também faço contigo. É de tanto fitar-te que passei a admirar-te o jeito simples de ser. Digo simples, pois tua risada não é escandalosa, não gostas de gritar e nem gostas de ser o centro das atenções. Talvez isso tenha me conquistado. Ou talvez tenha sido o teu jeito de expressar o que sentes. E é tão maravilhoso perceber como o tempo te ajudou a expressar melhor esses sentimentos. E como só o tempo te ajudou a mudar os pensamentos, as vontades e até os planos. "Meu Bem" é como me chamas. E aprendi a também te chamar assim, não só pelo bem que tu me fazes, mas pelo bem que me és, e pela paz que tu me traz com teus abraços, teus beijos e tuas palavras.

- Meu Bem, te quero tanto!
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É o que não canso de dizer-te. E espero que não canses de me ouvir. Então, fico a te olhar... Olho-te porque não posso beijar-te. Agora não...


Kari Mendonça

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A luz que não se apagou

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Você apagou a luz.
E foi embora.

E eu fiquei
A olhar o escuro.
A implorar pela claridade.
A desejar ver cores...

E a contemplar a saudade.

Porque todas às vezes
Que você se vai,
É como se todas as luzes
Se apagassem ao meu redor.

As luzes se apagam.
E as lágrimas me umedecem a face...
A garganta trava.
O coração aperta.

E eu só posso esperar
Que voltes.
O mais rápido...




Kari Mendonça
Foto de Henri Cartier-Bresson

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Lulu

Lulu! Foi assim que resolvi chamá-lo. Ou chamá-la. Na verdade eu não sei se ele era um cachorro ou uma cadela. Por isso escolhi um nome que julguei unissex. É que tudo foi tão rápido que não tive tempo de descobrir. Foi daqueles momentos rápidos e marcantes, sabe? Que você não consegue esquecer, mesmo quando tenta?

Já faz uma semana e Lulu não me sai da cabeça. Era quinta-feira e eu estava voltando da aula. Estava mais ou menos perto de casa quando percebi Lulu, um cachorrinho (ou cachorrinha) branco, parecido com um poodle, mas com os pelos curtos. Não era muito grande, mas tinha uma carinha tão linda...

Ele estava na faixa do ônibus, querendo atravessar a avenida. Ao perceber, reduzi a velocidade do carro e, quando estava prestes a buzinar para avisar a Lulu que saísse dali, uma caminhonete passou com toda a velocidade pela faixa do ônibus. “Filho da puta”, foi a única coisa que eu consegui gritar quando ouvi o último gritinho de Lulu.

Abaixei o rosto e tentei não olhar, mas acabei olhando o retrovisor e vi aquele corpinho tão pequeno caído no chão. Terminei o percurso até em casa bastante tensa. Não consegui chorar, até chegar e me acalmar. Enquanto chorava, ouvia repetidamente aquele gritinho que seria um latido, mas não terminou, sabe?

Aí que dor! Hoje, mais uma vez, voltando pra casa, passei pelo local. Sempre passo, mas tento olhar para o outro lado. Hoje olhei, meio de bandinha e me entristeci. Não é saudade, afinal, eu nem conhecia Lulu, como poderia sentir saudades? Mas era algo parecido, não sei explicar...

Desde aquela quinta, não há um dia que eu não pense em Lulu. Fico pensando como seria a vida dele. Será que tinha família? Alguém sentiu a sua falta? Bom, de uma coisa eu sei... Lulu marcou a minha vida de um jeito muito forte. Eu não me esqueço de quando tentava atravessar e acho que não vou esquecer...

Então, se ninguém mais sentir falta, eu vou sentir falta de Lulu, mesmo que nunca tenhamos passado nenhum momento juntos...



Kari Mendonça

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Por que algumas pessoas tem filhos?

Há algo que vem me perturbando e já faz algum bom tempo. Tenho observado em todos os lugares que vou, seja na praia, num restaurante, lanchonete, shopping ou até no bar, e um questionamento que não me sai da cabeça é: por que algumas pessoas tem filhos? Deixe-me relatar melhor o que venho observando e compreenda que meu questionamento é válido.

Na última sexta-feira fui à praia, à noite, comer espetinho (um programa ótimo, gostoso e barato) e, enquanto estava sentada no calçadão com meus pais, percebi a chegada de uma mãe e seus dois filhos acompanhados daquela que deveria ser a babá. Talvez você não veja nenhum mal nisso, mas ai eu repito: era uma sexta-feira à noite.

Outra vez fui até um restaurante almoçar e no parquinho estavam quatro crianças e três babás. As mães e pais de todos eles estavam sentados almoçando e sequer olhavam para suas crianças. O almoço demorou bastante naquele domingo e reparei que as babás estavam o tempo inteiro com as crianças, para que seus pais pudessem almoçar e conversar tranquilamente.

Não apenas nessas ocasiões, mas sempre que vejo uma família sentada num restaurante (ou onde quer que seja), acompanhado da babá, questione-me o porquê daquelas babás. Não! Eu não tenho nada contra as babás. Acho uma profissão digna como qualquer outra, mas sou contra os pais que levam sempre as babás para qualquer lugar.

Entendo perfeitamente que, com o mundo moderno e com a entrada da mulher no mercado de trabalho, é mais que necessário a existência de uma babá, aquela que cuidará do seu filho enquanto você trabalha. Afinal, muitas mães não possuem maridos e precisam trabalhar para sustentar seus filhos, precisando assim deixá-los com alguém durante (boa parte) do dia.

O que não entendo é que, ao chegarem em casa, algumas dessas mães esquecem de seus filhos e vão fazer qualquer outra coisa, afinal, a babá continua lá para cuidar deles. Quer dizer, eu não entendo como alguém não consegue aproveitar todo o tempo livre para curtir seu filho. Sim! Pois acredito que até cuidando, estamos curtindo-o.

Numa sexta-feira à noite, podendo ir a praia com seus filhos, brincar com eles, comer alguma coisa com eles e aproveitá-los ao máximo, não entendo como alguém não sente prazer em fazer isso. Sim! Pois penso que, ao levar a babá junto, a mãe se afasta da criança de alguma maneira, pois, se ela chorar, a babá cuidará disso e a mãe não se preocupará com nada.

Já presencie casos em que o bebê gostava mais da babá do que da própria mãe. Como se deixa uma situação chegar a tal ponto? É aquela mãe que nunca quer ter trabalho, que, a qualquer momento chama a babá. É quando a babá está mais presente do que a própria mãe. E o bebê percebe isso, e acaba se apegando aquela que está sempre próximo.

E é por isso que eu não entendo como algumas pessoas tem filhos para serem criados por babás. Quer dizer, se você não está preparado para abdicar de algumas coisas, então não está preparado para ter filhos. Pois, ter um filho é abdicar certa liberdade, mas não é ser aprisionado. É apenas aprender a fazer novos programas, ir a outros lugares, mudar horários...

Recentemente li uma reportagens sobre casais que decidiram não ter filhos. Eles reclamavam que as pessoas nunca entendiam como pessoas saudáveis poderiam não querer ter filhos. Num primeiro momento, confesso que fiz o mesmo questionamento, mas, pensando melhor, passei a admirá-los. Se não estão dispostos a mudar a rotina, melhor que não tenham filhos mesmo.

E fiquei pesando que, muitas das pessoas que vejo por aí, quem sabe, deveriam ter tomado a mesma decisão....



Kari Mendonça

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Conversa durante o jantar...

- Bem, estava aqui pensando... E... Tu me amas?

- Mas oras, que pergunta é essa, mulher?

- É que... Tu me consideras o "amor da tua vida"?

- Claro que sim! Será que não te deixei claro nesses 47 anos juntos?

- Nem tudo que está claro é óbvio, meu bem. E, me responde outra coisa...

- Sim?

- Se eu morrer antes de ti, tu te casará com aquela antiga namorada que mora no final da rua? Ou com alguma outra?

- Por que perguntas?

- Em?

- Que conversar é essa? Tu não vais morrer...

- Mas "se" morrer, tu te casará com alguém, que eu sei...

- Maria, eu te amo e sei que sabes bem disso. Amo-te desde a primeira vez que te vi naquele parque, á 48 anos atrás... Não consigo imaginar a minha vida sem que estejas ao meu lado!

- Ô Bem! Sei que sabes que também te amo tanto! E sabe, pensando bem... Eu terei sido sempre a mulher de tua vida quase toda, então, qualquer uma que vier, será apenas "a outra".

- Não fiques falando disso, mulher. Não me imagino indo dormir ao lado de outra, minha querida. Mas afinal, o porquê dessa conversa?

- É que andei reparando e, de todos os nossos amigos, as que ficaram viúvas, continuam viúvas. Já os homens que enviuvaram, estão todos casados novamente... E é por isso que estou dizendo que tu vais te casar. Só peço que não seja com alguém que não trate bem os meninos... Sabe como é, já terá sido difícil perder a mãe...

- Mulher, tantos anos se passaram e tu continuas com essa mente tão fértil... Então, pode deixar que faço questão de morrer antes de ti, assim não terei que dormir com outro alguém ao meu lado!

- Não! Prefiro te imaginar ao lado de outra - depois de mim, claro! - do que sofrer a dor de dormir um dia sequer sem a tua presença. Eu não aguentaria...

- Minha querida...

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Kari Mendonça
*Publicado originalmente no último domingo e substituido pelo poema abaixo.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Odeio domingo!

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Eu odeio o domingo
Que eu não acordo contigo,
Que a gente não vai ao parque,
Ou quando não vemos o mar.

Odeio o domingo quando
Não posso te beijar,
Nem te abraçar ou te namorar.

Eu odeio o domingo
Quando vejo a hora passar,
O dia acabar, e eu não pude
Contigo estar.



Kari Mendonça
*O post "Conversa durante o jantar" será republicado em breve!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Carta ao Meu Bem

Eu tinha decidido não te escrever mais, pelo menos, por um bom tempo. Mas sabe, eu não consigo não pensar em você e, por consequência, é impossível não pensar em escrever sobre/para você. Eu tento, juro que tento. Comecei a escrever um poema, mas era sobre você, então não o terminei. Tentei escrever sobre relações familiares, mas, depois da primeira frase, lembrei de você e desconcentrei.

Resolvi então reler, pela centésima vez, uma das cartas que você me escreveu e, novamente foi impossível conter o choro. É que tão belas palavras, escritas para mim, quando estavas pensando em mim e falando sobre mim, tornam-se ainda mais especiais quando foram escritas por você. Por isso, perdoe-me se sempre choro ao lê-la.

E, vou te contar uma coisa... É que é tanta saudade essa que eu sinto, que esses dias tive vontade de pegar a mala (aquela mesma), colocar algumas roupas, a escova de dente, alguns livros, um caderninho e uma caneta, e pegar um avião pra chegar o mais rápido até você. Eu queria te abraçar, mas eu não queria mais te soltar.

Não queria ir simplesmente te visitar. Não! Eu queria que, dessa vez, fosse diferente. Queria ir de vez, pra ficar contigo, sabe? Pra gente se arrumar de algum jeito e se ajudar do jeito que desse. Pra gente começar juntos a tão falada "vida a dois", com todas as suas dificuldades, mas sendo enfrentada com toda essa nossa vontade.

Sabe, meu bem, eu nunca havia sentido algo assim por alguém. Eu nunca quis tanto estar com alguém como quero estar contigo. Nunca quis acordar todos os dias ao lado de alguém, como quero acordar ao teu lado. Eu nunca quis não fazer nada com alguém, como quero passar o dia ao teu lado sem nada pra fazer.

Porque, estar ao teu lado é tão maravilhoso que eu não preciso ir ao mais belo parque para me sentir bem. E não preciso ver o mar para te sentir junto. Estar contigo é gostoso por si só. Sentir teu corpo perto é tão bom, que só meu corpo sabe...

E eu te quero, meu bem! Eu quero muito e acho que não são poucas as vezes que te falo isso. Mas sabe... Te escrevi apenas para contar essa minha vontade... Precipitada, para alguns. Louca, para outros. Minha, para mim. E é isso que importa. A vontade é minha e eu queria te dizer, afinal, eu sempre tenho algo pra te dizer, já percebeu?


Beijos!
Tua Pequena.
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Kari Mendonça

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

E-mail

De: Carolina Moura <c.moura@ymail.com> *
Para: Mariana Marques <marimarques@hotlink.com> *
Enviada: Terça feira, 3 de Fvereiro de 2009 23:59:15
Assunto: Esclarecimento

Olá Mariana, talvez você esteja surpresa em receber um e-mail meu após tanto tempo. Na verdade, eu ainda não sei se deveria enviar ou não, mas sabe, eu gosto muito das coisas esclarecidas. Não gosto de mal entendido e, muito menos de hipocrisia.

Sabe que ontem, eu te vi no shopping, mas teria continuado a andar sem problemas e, sinceramente, não entendi porque você parou para falar comigo. Quer dizer, depois de tudo que aconteceu, você ainda tem a cara de pau de me parar pra falar comigo? Como assim? Ou você acha mesmo que nunca me fez nada? Porque nós duas sabemos que você fez, e também deixou de fazer muito...

Quando eu estava na pior fase da minha vida, se só tivesse vocês, teria ficado completamente sozinha (ainda bem que eu tinha amigos de verdade). Vocês nunca ligaram para saber como eu estava, lembra? E, pior foi não terem me chamada para a festa surpresa da minha própria prima. Muita consideração em! E não me digam que esqueceram, ora essa! Não ligaram porque não quiseram que eu fosse e por isso inventaram aquela desculpa péssima de última hora. Agora, eu achei uma puta cara de pau você me ligar depois de anos querendo fazer um churrasco na minha casa. Faça-me o favor, né?

Nós duas sabemos que você (e nem as outras) nunca gostou de mim. Vocês me "aturavam" por causa da minha irmã. Mas quer saber? Eu acho ótimo ter me afastado. Cansei de tentar me encaixar com pessoas falsas como vocês.

Mas enfim, escrevi isso tudo pra dizer que, dá próxima vez que esbarrar comigo, continua andando, tá? Agradeço!

Até,
C. Moura


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Kari Mendonça
* Os nomes são fictícios, assim como os e-mails. Qualquer semelhança com a realidade é mera conhecidência.