segunda-feira, 22 de junho de 2009

Ainda sobre o Jornalismo...

Para muitos, é apenas mais um post chato, para outros, vale a pena ler.
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Artigo publicado por Silvia Bessa, no jornal Diario de Pernambuco, no dia 19/06/2009.
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Sou jornalista formada pela Universidade Católica de Pernambuco há 12 anos. Em todo esse tempo não fui outra coisa a não ser repórter - aquele que tem a tarefa diária de caçar notícias. Já fiz milhares de entrevistas e sei o quanto as técnicas de abordagem, de redação e as noções de ética me valeram. Por esse motivo, me indignei com a decisão do STF de dispensar o diploma para o exercício da minha profissão. Usei cada lição aprendida e tento aprimorar uma a uma ao longo dos anos. Procuro isso em conversas com presidentes, governadores, deputados no Recife e em Brasília ou com anônimos dos confins do Nordeste. Do presidente Lula da Silva à dona de casa Lucimar da Silva, que passa fome no Ceará, foi assim. Com o pé na estrada, descobri que a prática do ofício de um jornalista não se limita à discussão em torno da liberdade de expressão.
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Opinião todo mundo tem, pode e deve expressar, mas o jornalismo está alicerçado em informação de qualidade. E, para chegar até ela, é necessário mais que uma opinião. Tive a certeza disso nessa quarta-feira, quando soube da votação do STF e lembrei do quanto difícil foi produzir reportagens sobre uso da internet nos grotões nordestinos, sobre o impacto do aquecimento global ou mesmo sobre a malversação de subvenções sociais por deputados. Fiquei imaginando se, mesmo com a capacidade que devem ter para chegar ao Supremo, os ministros teriam condições de fazer qualquer uma delas. Talvez pudessem comentar os temas; testemunhar ou revelar uma realidade vista de vários ângulos, tenho cá minhas dúvidas. E é para isso que jornalistas são formados.
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Para ser jornalista é preciso talento com as letras, habilidade para coleta de múltiplas informações, disposição para pesquisa, abertura para ouvir o engravatado, o professor e o descamisado e equilíbrio para narrar os fatos. Reunir essas e outras características independem do diploma, mas o aprendizado acadêmico pode ser decisivo na conquista. A escola é o ponto de partida para o bom jornalismo. Eu não vejo médicos, advogados, professores e outros profissionais com didática suficiente para enviar mais de cem e-mails para conseguir mapear os municípios do Nordeste que possuem lan houses com discagem rápida, para buscar e cruzar dados para entender fenômenos sociais e para entrevistar dezenas de adolescentes e entender o que eles buscam na rede - algumas das tarefas que cumpri para realizar a reportagem sobre o fenômeno das lan houses no interior do Nordeste. Não vejo. Só consigo ver estudantes recém-saídos das faculdades tentando acertar esse caminho e dispostos a seguir o preceito da informação democrática. O resto, para mim, é vaidade de muitos que não conseguem perceber que o fim do diploma para jornalistas compromete o futuro de uma geração nova de profissionais da imprensa. E tem a ver com a confiabilidade do que será escrito por eles.

3 comentários:

*Lusinha* disse...

Ótima opinião.
Bjitos!

Pripa Pontes disse...

Muito interessante o artigo, e nos mostra que realmente a não obrigatoriedade do diploma de jornalista, desvaloriza o curso acadêmico, as aulas, aprendizados e desempenho dos professores e alunos em busca de garantir uma formação de qualidade. Para tudo nessa vida o estudo é indispensável, sem estudo e conhecimento nem qualificação dos habitantes nas mais diversas áreas do conhecimento humano um país não vai para frente...
E quando tratamos algo delicado como a "manipulação" (no sentido positivo da palavra) da informação, torna-se mais ainda complicado colocá-la nas mãos de pessoas despreparadas. O jornalista não graduado não possui o conhecimento e o estudo necessário para realizar tal trabalho, entretanto, o que escreveu será lido por milhares...e a responsabilidade e confiabilidade sobre o que foi publicado onde ficam? Ninguém confiaria realizar a cirurgia com um médico não graduado, mas confiamos deixar que qualquer um seja responsável por nos informar do que acontece ao nosso redor...estranho...


Bjos, Kari!

Leh disse...

Liberdade de expressão x Liberdade de imprensa. Quando o ministro souber a diferença entre esses dois elel vai deixar de falar besteiras.