segunda-feira, 29 de junho de 2009

Andrea foi embora.

Oi Mãe, oi Pai.

Não queria que as coisas fossem assim, mas não tinha outro jeito. Eu tive que ir embora. E antes que pensem, vocês não vão encontrar o meu corpo no banheiro e nem adianta olhar pela janela. Há essa hora, já devo estar bem longe, e não adianta correr pela vizinhança. Eu não fui para casa de nenhuma amiga e nem para a casa dos pais do Marcelo. Eu realmente fui embora. Estou a caminho de Florianópolis e, de lá, seguirei para Chapecó.

O celular, eu não levei e peço que me desculpem, mas eu realmente preciso de um tempo sozinha. Assim que as coisas se ajeitarem, eu mando notícias, não se preocupem. Sei que vocês devem estar preocupados, com raiva e, acima de tudo, decepcionados, mas eu espero que, de alguma forma, vocês me entendam. Não dá para seguir em frente estando aí. Dói demais olhar esse quarto, andar pelas ruas. A cada restaurante que vou, tenho uma lembrança e a saudade aperta e a dor não vai embora nunca.

É difícil entender, mas, para vocês, o Marcelo era apenas “um bom rapaz”, mas para mim, ele era muito mais que isso. Eu planejei toda a minha vida ao lado dele. E no dia que ele me deu aquela aliança, eu sabia que só poderia ser feliz ao lado dele. E juntos fizemos planos e sonhamos. Fizemos projetos e estávamos caminhando para que tudo corresse bem. Ah! Eu ainda não tinha lhes falado, mas, naquela semana, nós havíamos ido olhar apartamentos, e chegamos até a escolher um.

Nos últimos cinco anos, cada vez que eu pensei em um filho, era o Marcelo que eu via como pai, como meu companheiro. Ele era mais que um noivo e futuro marido, Mãe. Ele era o meu melhor amigo, meu comparsa, meu amante. Eu costumava dizer que ele era meu anjo da guarda. Será que esse foi meu erro? Bom, agora eu tenho certeza que ele é o meu anjo da guarda, mais que nunca. E, de alguma forma, ele está olhando por mim lá de cima. Mas sabe, saber disso não é suficiente para seguir a vida.

O Marcelo me entendia como ninguém. E Pai, ele sempre te dava razão nas nossas brigas, sabia? E me fazia repensar em tudo que eu havia dito. Ele tinha um carinho sem tamanho por vocês e não havia uma única vez que ele não perguntasse de vocês. Eu o amo muito e espero que vocês nunca duvidem disso. E o amarei eternamente, mesmo sabendo que um dia estarei com outro alguém ao meu lado. Viram? Eu não estou tão mal quanto vocês pensam. Eu sei que a vida vai continuar, e que vou aprender a viver sem ele.

Mas é que não dá para fazer isso estando aí. Nessa cama, em que chorei tantas vezes em seus braços. Ou na rua, onde sempre íamos comprar o pão. Ou naquele shopping que costumávamos ir nas noites de sexta-feira. Tudo me lembra o Marcelo nessa cidade. E se passo por um restaurante que sequer conheço, lembro que ele prometeu me levar lá. Imagina eu ir lá com outra pessoa? Não seria justo. E foi por tudo isso, e por precisar seguir em frente, da minha maneira, que eu estou indo para Chapecó.

Quanto a questão de sobrevivência, não se preocupem. Já mandei currículos para vários lugares e até tenho uma entrevista marcada. Não pensem que essa foi uma decisão de última hora ou coisa impensada. Eu e o Marcelo tínhamos uma poupança juntos e sempre conversamos que, caso acontecesse algo com um de nós, o outro deveria usar o dinheiro para começar do zero. E, para falar a verdade, até procuramos no mapa, numa brincadeira, um lugar para onde iríamos sozinhos.

O Marcelo, com os olhos fechados, escolheu Chapecó. Na minha vez de escolher, a mãe dele nos chamou para jantar. Por isso, esse foi o destino escolhido. É onde o Marcelo começaria do zero, que eu resolvi recomeçar. Eu nunca vou esquecê-lo, porque ele sempre vai ser o amor da minha vida. Mas eu espero que vocês entendam que eu preciso de um tempo para aceitar tudo o que aconteceu nos últimos meses.

Ligarei em breve, não se preocupem. Amo muito vocês e espero, de verdade, que vocês me compreendam.
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,Beijos, Andrea.
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Kari Mendonça

9 comentários:

Érica disse...

Tadinha da Andréa.
Deve ser triste demais perder um grande amor para sempre. E recomeçar, só com muita força de vontade.
Adorei o texto amiga, beeeijos!

Somente EU mesma!!! disse...

É...

Perder alguém já doe muito ainda alguém a quem se pretende viver o restante da vida...

Isso eu posso dizer que é muito triste...

Bjs

Saudades...

Hariane disse...

Todo tempo do mundo para Andréa se organizar seus pensamentos.Afinal de contas, recomeçar deixando para trás um grande amor não deve ser nada fácil.

Beijinhos

Simples Assim... disse...

A impressão que me deu foi que este post é o desdobramento do outro, como se eu estivesse tendo a oportunidade de ver a reação aos pensamentos que rondavam pela sua cabeça. Talvez uma forma de digestão. Enfim, o resultado foi um belo texto. Emocionante, comovente. Bjs.

*Lusinha* disse...

É, talvez a "fuga", a partida seja a melhor forma de recomeçar.
Bjitos!

Gabi Magnani disse...

Nossa, que triste. Mas parece bem típico de mulher independente, sabe? Eu adorei. Muito bem bolado. Vou te dar uma sugestão: porque não faz uma sequencia em que ela manda cartas com novas notícias? Acho que iria ficar bem legal. Beijos!

Jaya disse...

Tua sensibilidade me deixa tão, tão boba, Kari. Me senti invadindo a intimidade de Andrea, lendo essa carta melancolicamente doce.

Recomeçar. Coragem. O novo. Não sei se eu teria empenho para tanto, tal qual ela teve. E mesmo sem ter um Marcelo, sem ter perdido, sinto essa mesma necessidade de fugir.

Lindo lindo, moça.

Beijo.

Hod disse...

Olá Kari passando para retribuir-lhe a visita ao Olhar de Carpe Diem...
Quero aprofundar nesse post porque esxiste algo muito profundo,então breve retornarei..
Abraços11
Hod.

Jacqueline Soares disse...

-'. Em certas situações não existem palavras pra consolar ou para deixar alguém mais contente.
Além de triste, seu posto foi verdadeiro, e agora parece q as coisas se encaixam. Sorte pra vc, e mto sucesso e força!

beeeijooss