quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O filho não gerado

Aproximou-se do banco da praça próxima a sua casa. Havia uma mulher lá. Ficou alguns instantes em silêncio, mas não agüentou.

- Você não me conhece. Mas eu preciso conversar com alguém. Posso me sentar?
- Claro. Está tudo bem?
- Não! Disse quase chorando.
- O que aconteceu?
- Você tem um minuto para me escutar?
- Não apenas um. Pode falar. O que aconteceu?
- Sabe, eu não deveria estar aqui hoje. Deveria estar na maternidade. Hoje, o meu bebê deveria estar chegando nesse mundo. Foram tantas as vezes que fiz as contas... E em todas elas, era hoje a data.
- Do que você está falando? Me desculpe...
Ela continuou como se não ouvisse.

- Descobri a gravidez quando menos a esperava. Era março quando percebi que a menstruação não chegou. Estava tão atarefada no emprego novo, que sequer me dei conta que estava atrasada. Corri na farmácia, mas não consegui. Olhei o teste, mas não o consegui abrir.
- O que estava errado?

- Eu não sabia o que esperar. No dia seguinte, era sete da manhã quando cheguei ao consultório. De lá, corri no laboratório. Nem consegui ir trabalhar, passei o dia na sala de espera, esperando o resultado.

- E seu marido?

- Eu não o contei. Não queria que passasse por tudo novamente. Da outra vez, achei que estava grávida e o contei. Ele ficou muito feliz e já fazia até planos, mas quando fiz o resultado, deu negativo. Não quis deixá-lo como eu.

- E o que aconteceu dessa vez?

- O resultado foi positivo e achei que era motivo suficiente para não fazê-lo sofrer mais. Corri para o supermercado, comprei umas coisas e fiz um jantar pra lá de especial. Ele não acreditou quando lhe mostrei o exame. Estava embaixo de seu prato. Lembro como se fosse ontem como ele chorou de felicidade. Choramos juntos.
- Mas o que aconteceu?

- Eu já estava na 15a semanas quando senti uma cólica terrível. Estava no trabalho e liguei para o Guilherme, que chegou em cinco minutos. Fomos até o hospital e, antes que a médica chegasse, a cólica foi seguida por uma forte hemorragia.
Estava em prantos.

- Você quer continuar falando sobre isso?

- Eu preciso.
- Então se acalme um pouco, antes de continuar.
Chorou mais um pouco e continuou...

- Assim que ela chegou, fizemos um ultra-som. E apesar de ser algo que ela deve ver todos os dias, senti uma ponta de tristeza quando ela me anunciou a morte do meu bebê. Naquele momento, uma dor tomou conta de mim.

- Eu imagino. Quer dizer... Nunca engravidei, mas...

- Sei. Todos dizem que entendem ou imaginam, mas na verdade, só sabe a dor de perder um bebê, quem o perde. E o aborto espontâneo é pouco falado, pois as pessoas não entendem a verdadeira dor da mãe que não gerou.
- Você tem razão. Eu não posso imaginar o que é perder um filho não gerado e nem esse luto que você falou.

- O luto ainda não acabou. Como me disseram uma vez, o luto não chega logo após a morte, e sim, um tempo demais. E acho que hoje o meu luto está mais presente do que nos últimos meses. Até agora eu estava de luto pela gravidez que foi interrompida. Hoje, o luto é pelo filho que não nasceu.
- Mas você terá outros filhos.

- Sim. Mais jamais me esquecerei desse que perdi.
- Talvez, quando estiver nesse mesmo parque, brincando com seus filhos, não pense mais nesta perda.

- Você realmente não entende. Os últimos meses foram duros para mim. A cada dia 2 eu pensava que meu bebê deveria estar crescendo, se não estivesse morto. E hoje eu acordei com uma dor enorme.
- Seu marido não te ajuda?

- Ajudar? Ele é o melhor companheiro que eu poderia ter. É o homem que eu amo e, a cada dia descubro um novo motivo para amá-lo. Mas ele também sente. No último mês, o ouvi chorando no banheiro. Conversamos sobre o assunto, mas, ao descobrir a gravidez, cada um fez planos e, com a perda, cada um ficou com suas frustrações.
- Mas vocês vão superar.

- Nós superamos. E entendemos que não tínhamos que ser pais naquele momento. Mais nem por isso, deixamos o luto de lado. Ele também acordou triste. Saiu cedo para caminhar e sei que, quando faz isso, é porque quer ficar sozinho. Por isso, vim até aqui. Precisava conversar com alguém.
- Me desculpe se não a posso compreender tão bem. Mas lamento a sua dor. E sei que, em algum momento o seu luto vai passar, mesmo que a saudade do filho não gerado dure eternamente.

- Obrigada pelas suas palavras. E por me ouvir. Agora vou para casa. Creio que o Guilherme deve estar chegando. Acho que conversaremos sobre isso. Mas hoje à noite, iremos a um restaurante com amigos.
- Bom jantar. E espero vê-la novamente.

- Eu também. Obrigada, mais uma vez.

Kari Mendonça

7 comentários:

Simples Assim... disse...

Nunca tinha pensado nisso... Nunca parei pra pensar na dor do luto por um aborto espontâneo. É curioso como a gente tende a minimizar a dor por acontecimentos que não são brutais, violentos. As pesoas tendem a minimizar também a dor de uma mãe numa situação dessas porque ainda não houve o contato físico entre mãe e filho. Mas é bobagem, o toque nunca foi determinante pra criação de uma relação de amor, especialmente entre mãe e filho. Não é preciso saber a cor do cabelo ou o jeito de sorrir pra que a mãe se relacione com o filho. Enfim, como vc mesma disse, não dá mesmo pra mensurar essa dor sem ter vivido uma situação dessas. Não dá mesmo.

Lindo post. Tocante. Bjs.

Kari disse...

Agostinho Lopes


Me senti "presente" a esse diálogo, como um espectador invisível. Emocionante, pois fala de algo que para mim é muito caro (filhos), embora ainda não seja pai!


Comentário republicado, pois apaguei sem querer. Mil desculpas.

Marcus Vinícius da Silva disse...

De fato, se ouve falar muito pouco em aborto espontâneo, e hoje é a primeira vez que leio algo sobre o luto de quem perde um bebê que não nasceu.

Gostei do texto, tu sempre provando entender super bem das emoções humanas!

Beijão!

Dona Poesia disse...

Um conto verdadeiro, retrata a realidade . Neste exato momento alguém certamente estará vivenciando essa dor.
Muito bem escrito, com sensibilidade e respeito à dor alheia.
Mudando de assunto, obrigada pelas visitnhas de apoio.
Quando todos nos viram as costas mas ainda restam dois ou tr~es, a gente continua a acrditar na amizade, mesmo as virtuais.

beijão procê mulé.

Carolina disse...

Oi Kari...
Anda uma cronista e tanto heim?
E na verdade ás vezes é isso: precisamos apenas botar tudo para fora. O problema, é achar quem queira nos ouvir...

Beijos! :***

Anônimo disse...

Oi, garota! Acho que meu tempo na blogosfera já deu o que tinha de dar, por isso encerrei meu blog. Obrigada por seus carinho e amizade. Visitarei vc de vez em quando. Foi legal ter sua amizade. Abração e saudade.

Dona Poesia

Espowerseguranças disse...

Boa noite,me chamo Juciliane hj estou com 31 anos e não tenho filhos...assim consta no meu histórico médico,mas eu ja tive 3abortos espontâneos que para muitos não consta como ser mãe,mas eu sei que fui,pois gerei 3 vidas mesmo que por pouco tempo,entendo a sua dor.
Para mim não se passa um dia se quer ser lembrar deles,na primeira gestação era muito nova pouco entendia do assunto meu desejo era tão grande de ser mãe que a perda me fez pirar a cabeça pois acabará de sair de um relacionamento de quase 10 anos sem filhos e quando eu menos esperava da pessoa que eu nem imaginava que me daria essa alegria,mas enfim depois das cólicas fui pro hc de curitiba e lá me falaram que isso era normal voltando pra casa aconteceu de fato até hj sinto uma revolta tão grande daquela equipe médica que me atenderam.Passado alguns Anos engravidei novamente de uma pessoa que não poderia ficar comigo e com meu filho mas para mim não importava pois oque eu queria mesmo era um só para mim...Mas como eu temia não passou dos 4 meses...lá me encontrava novamente em desespero e desiludida da vida.Foi quando eu ja havia desistido da idéia de ser mãe aproveitando o máximo de minha,um dia em meu trabalho comecei a passar mau,porem nem imaginava que poderia ser gravides depois de 4 meses de mau estar,resolvi procurar um médico gastro para ver o que estava acontecendo e ele logo de cara me pediu o exame beta,eu ainda brigeui com ele por achar que eu estaria gravida,como ja disse ja tinha desistido,foi então que num estalo de memória me recordei que havia a possibilidade de estar mesmo,conversei com o pai da criança e como ja imaginava se desesperou e e ainda me ofendeu dizendo que eu estava fazendo aquilo para ficar com ele,mas que deperessa terminei com ele sem mesmo ter a certeza do diagnóstico exato,foi então numa noite de trabalho(posto de combustível) que meu mau estar piorou,fui para casa e ao tomar o banho pude percerber que estava com hemorragia como morava só,chamei um amigo pra me levar pro hospital,chegando lá o médico confirmou a gravides ja estava de 4 meses e par minha surpresa eram 2...mau me contive de alegria e tristeza aoa mesmo tempo.
Depois disso o "Pai"me procurou pois soube que eu havia passado mau,só assim caiu a ficha dele que eu não estava brincando quando contei que eram gemeos ela mau se conteve de alegria e desepero,pois ele não poderia ficar comigo mas mesmo assim fez de tudo para se aproximar da gente novamente.
Se eu tivesse feito o repouso que o médico havia me pedido talvez hj não estaria aqui relatando esse fato,mas como na época não podia ficar sem trabalho pois vivia de aluguel continuei a trabalhar,quando eu ja sabia que era um casal para minha alegria pensei...ele havia me tirado 2 filhos e agora estava me devolvendo.Minha alegria durou pouco,quando estava entrando no 6 mês senti muitas dores e o médico naõ conseguia ouvir o coraçãozinho deles,me pediu para que esperasse 5 dias e retornasse ao hospital,como feito só que ao chegar lá ja sentia as contrações e para meu desespero o menino ja estava morto e a menina tinha poucas chances pelo fato de ser prematuro,não deu tempo de salvar ela se enrolou no cordão e com apenas 3 horas ja estava morta tbm...meu médico me confirmou quando meu prorio organismo espulsou ambos,nunca havia sentido tanta dor e ao ver os meus nenes sendo chamados de feto entrei em desespero me recordo apenas de pedir pra ve-los meu médico aprensentou rapidamente e então me pediu liber~ção para estudar o feto,com muita dor aceitei,pois queria saber o pq havia acontecido.depois só me recordo quando ja estava no quarto,sózinha.Sim estava só porque ninguel alem do "pai" e meu amigo sabiam da minha gravides pois tinha receio de plantar falsas expectativas devido o ja acontecido.Depois de algumas horas voltei para casa em plena tristeza de dor não a dor fisica mas a dor da perda.Nunca mais vou ser amesma.Dizem que Deus sabe oq faz...eu até acredito porénão entendo o pq fez eu passar por isso 3 vezes...
Desculpe o desabafo!!!!

Juciliane Domingues Lopes