quarta-feira, 28 de abril de 2010

A vida não vai sair como planejei

Em meados de 2008, eu escrevi uma carta a uma amiga. O título era “Sabe, a vida nem sempre sai como planejamos”. Escrevi após perder as aulas que fui assistir na faculdade para ficar com ela enquanto chorava. Escrevi tudo aquilo e imagino que se ela tivesse lido, não teria gostado. Foram palavras duras que ninguém gosta de ler em um momento como esses. Como eu posso ter tanta certeza? Hoje eu reli a carta, mas dessa vez não foi para ninguém, foi para mim. Eu precisava acreditar em tudo o que escrevi. Eu precisava saber que a vida nem sempre sai como planejamos. Agora eu sei.

E perceber que a vida apronta algumas com a gente é muito ruim. Saber que as coisas podem mudar, ás vezes é facilmente concebido, o difícil é replanejar tudo de outro jeito. O difícil é saber que nada vai ser como antes e que você terá que reaprender a viver, porque viver do jeito que está não é mais possível. O difícil é não poder dar aquele telefonema no final da noite só para contar como foi o dia e não poder receber um “bom dia” todas as manhãs. O difícil é saber que aquele vestido nunca vai sair do papel e aquele bolo, sequer será experimentado. O difícil é seguir em frente, sozinha.

Tudo o que foi vivido juntos jamais será esquecido. Foram momentos mágicos, sorrisos belíssimos, e um amor sincero. Um amor que suportou o que pode, até não poder mais. Amores eternos? Ainda acredito que eles existam. Acredito também que podem renascer. Mas também acredito que podem, simplesmente, acabar. A dor que causa tudo isso? Só sabe quem sente. Se é definitivo? Ninguém sabe. O melhor é pensar que não, mas eu nunca consigo ver o lado bom das coisas. E eu só acho que jamais nos veremos novamente. O que eu não quero que aconteça.

Uma amiga diz que precisamos de tempo. Tempo para aceitar tudo o que está para acontecer (ou estava, não sei). Tempo para percebermos o que realmente queremos. Tempo para amadurecermos e, na hora certa (seja ela quando for) tomaremos uma decisão. Enquanto isso, dói. Dói ter que guardar todas as fotos pregadas na parede. Dói tirar a foto do celular. Doem as lembranças das viagens durante a noite. Doem as passagens que não serão usadas e os presentes que não serão entregues. Dói seguir em frente. E como dói.

E sabe, é verdade que o amor e as rosas têm espinhos. Mas eles não servem para machucar ou tirar a beleza das rosas, eles servem para proteger. E é preciso apenas um pouco de cuidado (com ambos) para não se cortar. Se ainda não aprendemos a segurar a rosa, talvez precisemos, de fato, de um tempo.



Kari Mendonça

terça-feira, 20 de abril de 2010

Parque dos Sonhos

Aninha era uma menina ansiosa. Por muito tempo achou que aquilo não pudesse interferir ou prejudicar a sua vida. Tomava decisões, fazia planos e vivia de forma intensa. Era uma criança feliz e sorridente. Até o dia que foi convidada para ir ao parque de diversões. A felicidade tomou conta da sua alma. Não iria imediatamente, faltava ainda dois meses. Mas só em saber que iria para o parque que tanto sonhava, já a deixava radiante. E pela ansiedade, ela não conseguia se controlar. Aninha contou a todos sobre a ida ao parque de diversões. Cada pessoa que encontrava, ela sorria e contava a novidade. Todos sabiam como tudo aquilo era importante para aquela jovem menina.

Os dias foram passando e Aninha não conseguia pensar em outra coisa. Fazia planos para a viagem, imaginava a roupa que usaria, e até a ordem dos brinquedos que iria. De todos, o que mais gostava era a roda gigante. Sentia-se bem no alto, com o vento batendo no rosto. Era bom olhar de cima e ver todo o parque, todas as pessoas e as luzes. Gostava de ir duas vezes, no mínimo. Durante o dia e, principalmente á noite, quando tudo parecia mais bonito, mais brilhante. O rosto daquela menina nunca estivera tão bonito, era a felicidade por se sentir realizada, antes mesmo de realizar.

A ansiedade continuava tomando conta daqueles pensamentos. Não conseguia parar de pensar em tudo aquilo. Um dia, quando faltava menos de um mês, Aninha viu no noticiário que o Parque dos Sonhos havia fechado as portas. Elas não acreditou. Não é possível, pensou desesperada. Ao olhar em sites e em tudo o que procurava, a informação se confirmou. O parque havia fechado e uma dúvida que rondava a todos: seria o parque aberto novamente? Ou foi uma decisão definitiva? A cada pergunta, a cabeça de Aninha ficava mais confusa. Cada dúvida causava uma dor, mas dor maior era saber que não poderia ir ao parque.

Sentiu a sensação de estar na roda gigante no momento em que faltou luz. Imaginou que o mundo havia parado e, de repente, não sabia se a roda gigante voltaria a girar. Chorou durante dias. Era tristeza e um pouco de vergonha. Triste por ver todo o seu “castelinho”, que estava construindo com tanto cuidado, destruído. Uma amiga havia feito aquela metáfora. Outra coisa que a angustiava era o alarde que havia feito. Disse a todos sobre a sua ida ao parque e agora, precisava dizer-lhe que não iria mais. Não queria falar com ninguém sobre aquilo, ainda machucava bastante, mas as pessoas acabariam perguntando e, uma hora ou outra, ela precisaria falar sobre aquilo.

Com o tempo, Aninha percebeu que talvez tenha sido uma coisa boa. Quem sabe o que poderia acontecer se fosse ao parque naquele dia prometido? Achou até melhor que não tivesse ido. Ainda não conseguia não se entristecer pelas mudanças repentinas, mas ela precisa se levantar e seguir em frente. De uma forma ou de outra, aquele sempre seria o seu parque preferido. Se não pode ir naquele dia, iria em outro. Ou não. O importante era se manter forte. Era difícil ainda, mas estava conseguindo. O que restava agora, era esperar os dias. Sempre ouvira que nada era como o tempo. Só ele poderia dizer qual caminho seguir e se o parque voltaria ou não a funcionar normalmente.




Kari Mendonça

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Mind the gap

Quem já viajou para outros países, especialmente os de idioma inglês, e andou de metrô, já deparou com o aviso que há em cada estação subterrânea. Ou está escrito no chão, ou os alto-falantes avisam: Mind the gap. Significa cuidado com o vão. Não caia. Não dê um passo em falso. Fique atrás da linha amarela. Não avance. Não arrisque cair nos trilhos. Mind the gap. Mind the gap.

Estava eu, numa noite de sábado, assistindo em casa ao filme Notas de um Escândalo, cujo atrativo maior é o duelo de duas grandes atrizes, Cate Blanchett e Judi Dench, quando a personagem da insatisfeita Cate saiu-se com essa frase: “Temos que ter cuidado com o vão. Que é a distância entre a vida que você sonha e a vida como ela é”.

A distância entre a vida que você sonha e a vida como ela é.


Mind the gap, pois a queda é dolorosa. Mantenha-se com os pés firmes na vida que você tem. Claro que a vida sonhada é determinante para a busca da felicidade, claro que é essa vida “do lado de lá” que nos mantém despertos, claro que o sonho é mais inspirador do que a realidade, porém, cuidado com o vão. É onde a gente se machuca.


O túnel de uma estação de metrô costuma ser recheado de cartazes publicitários. Fotos de ilhas caribenhas para vender cartão de crédito, fotos de mulheres sublimes para vender cosméticos, fotos de casais jovens e apaixonados para vender roupas. Um mundo lindo e perfeito, sem tédio, sem dívidas, sem solidão. Ali, do outro lado do vão.

E a gente olhando tudo isso, parado, em pé, segurando uma mochila pesada, enquanto espera o trem.

Se você está viajando a turismo, se está em outra cidade ou em outro país, de certa forma já está do lado de lá do vão, está vivendo um instante de deslumbramento, em que se encontra longe de casa, longe do trabalho, com algum dinheiro pra gastar, com tempo livre, tirando umas férias da rotina e de você mesmo: não seria essa a descrição perfeita de “a vida que você sonha”?
Férias é sempre um passeio por essa outra vida, a idealizada.

Mas pense bem: imagine uma vida eterna de prazeres, sem hora para dormir nem para acordar, com o mundo bem resolvido, o céu sempre azul, um amor tranquilo, champanhe e caviar dia e noite. Uma semana, um mês, dez anos sem motivos pra chorar, sem um compromisso a cumprir, sem um desafio.


Fazendo essa transferência, consigo me ver estampada nas paredes de uma estação, eu e minha vida de comercial de cartão de crédito, olhando aquela outra mulher na plataforma oposta, em pé, esperando o trem para levá-la a uma reunião de trabalho, a um encontro que pode frustrá-la ou surpreendê-la, a um bairro em que pode estar chovendo, a um acontecimento que deixará seu coração palpitando, e penso que talvez eu continuasse angustiada com a imensa distância que há entre a vida que a gente sonha e a vida como ela é.

Estamos sempre de olho na outra margem, na plataforma de lá. E o vão nunca some.

Martha Medeiros, em Donna ZH