segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Esquecer. Desamar.

“Eu sou do tipo que ainda compra uma agenda no começo do ano e escreve os acontecimentos do dia só para poder ler alguns anos depois.” Essa frase foi escrita no post de 26 de julho, Eu fico por aqui. Mas é verdade. Eu sou mesmo do tipo que compra agenda e escreve. Esse ano ela tinha um significado todo especial. Queria escrever ali os meus melhores sentimentos, melhores dias e maiores realizações. Queria registrar naquelas 365 páginas o melhor ano da minha vida. Mas não demorou muito e percebi que não era isso que eu estava escrevendo.

Os dias começaram a não ser bons. Passei a escrever sobre o quanto chorei naquele dia ou o quanto tentei não chorar naquele outro. No quanto tentei alguma coisa em vão e em como fiz tudo errado. Mas mesmo assim, eu continue escrevendo. Havia uma esperança em mim de que tudo voltaria ao normal e eu poderia ler futuramente no quanto as coisas foram confusas, mas ainda assim, tiveram um final feliz. E eu tentei. Por mais que as coisas estivessem péssimas, lá estava eu, todas as noites, escrevendo mais um dia ruim. Mais lágrimas.

Até que eu não aguentei mais. Parei de escrever. Percebi que as coisas não melhorariam e eu não teria nada de bom para escrever no dia 18 de dezembro. Decidi que não escreveria mais o meu sofrimento. Mas ainda assim, ás vezes, começava a folhear e ler alguns daqueles dias. E cada vez que lia, mais choro, raiva, revolta. Até que decidi não ler mais. Parei. E então, nos últimos dias eu pensei: “por que eu vou querer ler tudo isso futuramente?”

E então eu me dei conta de que eu não quero ler nada disso. Porque eu não quero lembrar de nenhum desses sentimentos. De nenhum daqueles momentos. Eu quero esquecer tudo. Então hoje, eu peguei a agenda e apesar da forte vontade de ler algumas coisas, eu não li, apenas arranquei página por página até 17 de setembro, quando escrevi pela última vez. Depois picotei uma a uma. E tentei picotar mais o mês de Abril, mas lembrei que Maio foi ainda pior e quis rasgar Maio com mais força.

Pensei em Março e quis amassar, picotar, deixar em pedaços minúsculos. Percebi que rasgar os meses ou as páginas não vai me fazer esquecer, mas uma amiga me disse que ás vezes, a gente precisa descontar em alguma coisa. E eu descontei na agenda. Amanhã queimarei as folhas. E espero que, junto com o fogo, vá tudo que eu estou sentindo. Que com o vento e as cinzas, vão as minhas dores descritas naquelas páginas. E que eu possa, de agora em diante, sentir diferente. Esquecer. Desamar.


Kari Mendonça

8 comentários:

Hugo Simões disse...

sinto muito que não tenha dado certo kari,
esbarrei aqui por acaso nessa noite fria e chuvosa e te reencontrei em tão pesadas palavras,
espero que o fogo não somente queime as folhas, mas também te acenda um sorriso.
melhoras, um beijo de curitiba.

Agostinho Lopes disse...

Kari, "rasgando sua alma" e jogando os pedaços aos seus leitores... Muito profundo e corajoso! Mas assim vais mesmo fazendo uma faxina e ficarás com a "alma lavada, enxaguada e botada prá quarar", como dizia Odorico Paraguassu.

Só não conjuga o verbo "desamar", Kari...

Já basta o "desaguar" (choro), que um dia será apenas uma suave lembrança e um sorriso enigmático de saudosismo dos dias em que "gastasse vela com defunto ruim".

Beijo

La Preciosa disse...

Oi Kari. Eu não sabia que seu blog ainda estava em atividade. Que bom que você voltou!
Escrevi um texto pensando em vc. Está no meu blog, e o título é reconstruindo a vida.
beijão

La Preciosa disse...

Ah, esqueci de dizer; seu outro blog é bárbaro, acho que daria um livro para adolescente ma-ra-vi-lho-so. Era só cair em mãos certas e vc estava feita. Tem mais qualidade do que certos livros que o MEC põe nas escolas. É jovem, engraçadinho, divertido. Até pensei em um seriado pra ele! tomara que vc tenha mais sorte que eu tive no mundo literário. VC escreve MUITO bem.

Homens são tolos.... mulheres também!! disse...

Eu tenho o hábito de diários também, e quando passei por algo parecido como vc, escrever foi o que me ajudou a passar por tudo, escrevia cartas que não enviava, escrevia o motivo do choro, a saudade, o adeus mal dado.
Hoje depois de quase 4 anos do final, a ferida cicatrizou, consigo ler tudo que escrevi sem me derramar em lágrimas.
Mas a ferida ficou, pra lembrar que eu amei incondicionalmente, mas não fui amada da mesma maneira.
Se cutucar com força a minha ferida ainda vai abrir, simplesmente pq ele sempre fará parte da minha história, ficou cravado em minha pele.

Thiago disse...

pior que, apagar do papel é bem mais fácil do que apagar de dentro.

Cheiro Kari

*Lusinha* disse...

Será que funciona mesmo arrancar as páginas e queimá-las? O que está dentro da gente some mesmo?

Katarine Rosalem disse...

Querida Kari, olha eu aqui de novo, como sempre, esporadicamente. Enfim... Sabe, o final de 2009 e o início de 2010 não foram fácceis para mim, assim como imagino que 2010 não tenha sido fácil pra vc. Se tudo irá se apagar na sua vida, no seu coração também, eu não sei. Mas se queimar as páginas de uma agenda te fazem mais leves, mais segura... vá em frente! Uma hora tudo passa, mesmo que demore.
Muita cosia mudou em minha vida, passei a valorizar mais os momentos de espiritualidade, de estar com Deus, e, acredite, ganehi uma força DESCOMUNAL!
Faça o teste, quem sabe ele te ajuda a apagar essas feridas mais rápido?
É isso, grande beijo! Não deixe que o passado atrapalhe seu futuro! Pense nisso,
bjux!
Tava com saudades de voltar por aqui...