sábado, 19 de outubro de 2013

Uma madrugada qualquer...

Era madrugada de verão, quando me dei conta de que algo estava errado. Havia passado todo o dia com um aperto no peito, e uma falta de fôlego. Sensação que conhecia bem, apesar de nem sempre saber o motivo de senti-la. Era angústia, e, durante todo aquela dia, ela não havia passado. E era estranho, não a sensação em si... 

Durante boa parte da minha vida, todas as vezes que a angústia chegava, as lágrimas chegavam logo em seguida e, bastava umas poucas horas chorando e tudo parecia resolvido. Era como se o choro levasse, de alguma forma, a angústia para longe. E por mais que tudo parecesse esquisito, era reconfortante. Angustiar-me, chorar e sentir-me revigorada. Era sempre assim. 

Mas não naquele dia. Naquela madrugada, deitada, dei-me conta de que a angústia havia chegado cedo, e por mais que eu tentasse, não conseguira chorar para que ela fosse embora. Tentei chorar. Nunca o havia feito, mas sentia uma necessidade enorme de dormir em paz, sem nenhum aperto. 

Foi quando percebi que, na verdade, eu havia perdido a habilidade de chorar. E não fora em vão. Nos últimos anos, em meio a tantos acontecimentos, e angústias, e despedidas, eu havia passado tempo demais chorando. E só naquela noite me dei conta do quanto tudo aquilo teria me prejudicado. Eu queria chorar. E não era pedir demais. 

Enquanto tentava desesperadamente que algumas muitas lágrimas rolassem pelos meus olhos, eu percebi que, nos últimos dias, estivera chorando por coisas banais, como um filme ou um programa de televisão (e não aqueles sensacionalistas). E por um instante não consegui entender por que conseguia chorar com coisas tão sem significado para mim, e não conseguia quando eu mais precisava. 

Queria poder dizer que, em algum momento, naquela noite, eu chorei, mas nada aconteceu. Olhei o teto do meu quarto por boa parte da madrugada, até o nascer do sol. Percebi que chorar havia se tornado apenas uma forma do meu corpo mostrar que eu ainda poderia fazer aquilo, mas não como antes. Não como um escudo. 

E foi quando percebi que eu deveria descobrir alguma outra forma de levar a angústia embora... Haveria outro momento para aquilo. Mas, finalmente, adormeci quando os primeiros raios de sol entraram pela cortina. 


Kari Mendonça

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O dia em que eu te vi pela primeira vez

Follow my blog with Bloglovin

 
Oi amor, desculpa se é estranho, mas senti uma imensa vontade de te escrever. Queria te contar sobre aquele dia em te vi pela primeira vez. O dia em que me apaixonei por você. Eu sei que já conversamos sobre isso, mas nunca parei para te contar todos os detalhes. Lembro-me tão bem daquela noite que poderia te desenhar, se soubesse como fazê-lo. 

Lembro-me de que, a primeira coisa que reparei foi a tatuagem. Gostei tanto que resolvi olhar de onde vinha. Estavas usando um tênis, do tipo que chamam de "sapatênis", uma bermuda azul escuro e uma camiseta preta. Naquele momento, olhei teu rosto pela primeira vez. E sorri ao perceber que o dono daquela tatuagem era tão bonito. De um jeito simples. 

Demorei a perceber o azul dos teus olhos, confesso. E eles não fizeram nenhuma diferença, pois quando os reparei, já não conseguia mais parar te olhar. Tentei, por vezes, desviar o olhar, mas só conseguia te perceber andando de um lado ao outro naquela sala. Durante toda a noite, tentei te encontrar, em vão. 

A minha alegria, porém, era saber que te encontraria ali na noite seguinte. E só assim, consegui passar pela noite, sem tristeza. Apenas com a esperança de poder te ver novamente e, quem sabe, trocar alguma ou qualquer palavra com aquele que tanto me havia invadido os pensamentos. E, sem saber, havia me feito sonhar mais uma vez. 



Kari Mendonça