segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ela voltou... Ela sempre volta...

Dez anos haviam se passado, e eu adoraria dizer que nunca mais nos vimos. Mas ela nunca disse um adeus e sempre voltou para me visitar. Nos dias mais sombrios, lá estava ela, agindo como minha melhor amiga. Segurando minhas mãos e abraçando-me forte, como muitas vezes, era tudo o que eu precisava. Mas tivemos um período distante. Quando mais precisei (e acredite, eu a quis por perto), ela não deu as caras.

Então novamente, no carro, a caminho de casa, ouvindo uma música alta para tentar esquecer um pouco de tudo, ela apareceu no banco do carona. Quase não a reconheci. O tempo havia sido cruel com ela (como deve ter sido comigo, pensei). Decidi não conversar, a olhei, nos olhamos, e continuei a dirigir tentando ignorar a sua presença. Mas ela sabe que não precisa falar nada, ora essa! 

E não precisou mesmo! Logo eu já estava soluçando sem nem saber o motivo. Senti sua mão em meus braços e, por um instante desejei jogá-los longe, mas era tudo que eu tinha naquele momento. Eu sabia que ela era a causa da minha dor, mas também sabia que era a minha única companhia. Sabia que era a única que ficaria por perto por algum tempo. Sabia que era a única a quem eu passaria a recorrer dali em diante. 

E mesmo sabendo que ela não gostava de conversar, não consegui não perguntar por que ela estava ali daquela vez, logo quando tudo parecia tão bem. Foi quando percebi no seu olhar um pequeno sorriso, e senti-me constrangida. Se tudo não estava bem, por que você não veio antes, perguntei? Ela disfarçou olhando pela janela. 

E então, quando já estava chegando em casa, ela se aproximou, me beijou a testa e falou suavemente, “a gente se vê”. Naquele momento eu percebi que, algumas vezes, a solidão não precisa vir e passar o dia inteiro. Ela vem, machuca o suficiente, e vai embora.

Kari Mendonça

Se você quer saber a primeira vez que "ela" passou por aqui, descubra aqui.

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